sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Não é da natureza humana desejar apenas uma, mas também não é da natureza humana saber dividir.

Eu era o homem mais hipócrita que já havia conhecido, deve admitir que era ridículo da minha parte achar que minha mulher deveria ser só minha enquanto eu era de muitas. Eu não diria que eu tinha muitas mulheres, e sim que muitas me tinham e essa poligamia parecia deixar minha vida menos tediosa. Entretanto eu perdia o sono em pensar que a minha mulher poderia ter outros.

Eu ouvi durante a vida a frase: "o que os olhos não vêem o coração não sente", passei a não acreditar quando ouvi certas coisas.

Acontece que eu não era um homem discreto, e minha mulher sempre descobria as minhas aventuras. No inicio brigava comigo, chegamos a nos separar, mas depois da terapia que ela iniciara tudo voltou como antes, exceto o fato de que ela ignorava os acontecimentos.

Ela ia a sessões de terapia periodicamente, e não perdia uma consulta por nada. Comecei a ficar preocupado com isso e decidi verificar o que acontecia quando ela não estava comigo.

Cheguei a sugerir, antes de uma investigação secreta, que seria legal eu ir fazer uma sessão com ela, mas sem pestanejar ela negou, o que atiçou mais minha curiosidade.

As primeiras vezes que a segui ela não demonstrou nenhum comportamento que atendesse minhas expectativas. Por isso decidi que era coisa da minha cabeça e achei melhor também começar uma terapia.

Fui ao mesmo profissional que ela, mas não disse que era casado com uma de suas clientes. Nas primeiras semanas ele me fazia perguntas do tipo pessoais, o que eu gostava? Qual era meu maior medo? O que eu fazia para superá-lo? Etc.

Comecei a refletir sobre quem eu era, e junto ao profissional descobri que eu não era exatamente um grande louco, ciumento e descontrolado que imaginava. Eu era apenas um humano que tinha curiosidade de experimentar e medo de ficar sozinho.

Em uma sessão ele combinou que levaria umas mulheres para que eu percebesse que esse era também um desejo comum delas, mas elas eram mais repreendidas, e por isso muitas entravam na terapia.

Ansioso para viver essa experiência fui mais cedo ao escritório para ler revistas na sala de espera enquanto verificava as moças que por ali passavam, caso não me agradassem daria tempo de fugir da sessão.

Por ali só passaram moças novas, no máximo 35 anos. E todas possuíam alianças, o que não me preocupava, já que eu também era um cara casado.

Dada a minha hora o médico me pediu que entrasse e me hipnotizou para que relaxasse mais facilmente.

Senti o toque suave de três mãos sobre mim, logo percebi que havia ocorrido uma ereção e que os acontecimentos me deixavam mais leve como se o estado de gozo fosse prolongado. Não percebi como o tempo se passava, nem como se deram as coisas, mas quando me senti acordado do transe estava com minha mulher de um lado e uma outra mais jovem do outro. A minha mulher com uma voz sedutora me disse:"Em alguns minutos você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar minha orelha!". Se levantou lânguida e se vestiu. Aquela que se encontrava do outro lado, olhava para teto como quem havia tirado um peso de si.

Voltei para casa sozinho ainda tonto com os acontecimentos. Eu e minha mulher nunca comentamos nada, continuei indo ao terapeuta e ela também. Não perdíamos uma sessão, mas também não comentávamos o que acontecia nelas.

Era melhor não saber, ouvir, ver ou pensar. Eu acreditava no amor dela, ela acreditava no meu. Nós sabíamos o quão humanos éramos.

Laura Martine

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

"Em alguns minutos você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar minha orelha...” 


Eu não gosto de alisamento de orelhas... Pára! Já disse! Que coisa mais chata!

E se eu não quiser voltar a ser monogâmica, e viver a realidade, onde sabemos que não somos monogâmicos, nós, os peixes, as aves, as árvores... Estou afirmando? Defendendo tese?

Talvez os Alquimistas sejam monogâmicos... Sei lá... Talvez esteja dizendo isso por conta da frase que existe no livro do Sr. Paulo Coelho "Sempre existe no mundo uma pessoa que espera a outra, seja no meio do deserto, seja no meio das grandes cidades". Isso soa brega...

Mas o que diz Jorge Ben, não soa brega para mim... Para ele os alquimistas são discretos e silenciosos e moram bem longe dos homens". Talvez os alquimistas de Jorge sejam monogâmicos justamente por morarem longe dos homens...

 

Que a vida é movida por encontros e desencontros, eu não tenho dúvidas... Bom, EU, sempre eu... É muito engraçado isso, pois essa experiência que coloco é personalíssima, pois posso estar certa ou não... Bem... EU posso levantar hipóteses e procurar as possibilidades de falsear minha tese, o que daria caráter científico (OU NÃO), todavia, verificar que minha própria tese contém um erro constatado em meu pequeno laboratório, que sou eu mesma, representando um avanço científico!

 

E quando sucumbo ao meu instinto animal, deixando meu lado humano, judaico-cristão ir pras cucuias?Seria este lado o racional ou o irracional? Na verdade as opiniões pessoais nos transformam em cientistas não isentos porque no fim das contas usamos a nós mesmo como cobaias e manipulamos o experimento a ponto de comprovar nossa tese. Cadê a ética na utilização de animais para pesquisas científicas?

 

O que é certo ou errado depende do ponto referencial? Será que quando a menina transou com o bagre, naquele ménage à trois que o Daniel escreveu, ela deixou de amar o namorado, ou de ser a ele fiel, uma vez que ela estava ali para satisfazer a vontade dele, dando assim uma prova de amor?

 

Amor... Hahahaha! Sartre e Beauvoir... Que casal... Eles já tinham o open relationship que para nós é ainda tão polêmico e desejado... Sim, desejado... Achamos estranho, engraçado, curioso esse relacionamento histórico, mas não assumimos que o desejamos... O desejamos porque ele oferece aquilo que para nós e algo complicado... A segurança do amor... O do estar e não estar, estando sempre junto... Permitindo que a pessoa seja ela, independente de um status atribuído a ela ou ao relacionamento... Para isso somos desvinculados um dos outros, temos CPF, RG, passaporte de números diferenciados, bem como o nosso DNA não é igual nem ao do nosso irmão gêmeo... Ela era Simone, ele, Jean... Eu poderia ser Edileuza e ele Onofre...

 

A abelha rainha mata o macho logo após a cópula... A aranha viúva-negra devora o macho após a cópula, (sim, é ela que come) quando ela consegue engravidar, sonho de muitas e muitas mulheres... Já pensou em transar e ter a certeza absoluta de que conseguiu engravidar? Eita avanço científico... Quer ser viúva-negra também? Lucrecia Borges matava seus amantes, com o veneno que colocava por debaixo das suas longas unhas, após satisfazerem-se sexualmente...

 

“E na maioria das vezes é uma foda boa pra caralho".

Quando nos permitimos que isso aconteça, certo? Vovó dizia: "HOMEM sacode as calças e vai embora..." Verdade... E pra a maioria deles, independe se foi bom, ruim, se teve significado alem do ato físico, e se valoriza aquela mulher que lá estava, por cima, por baixo ou de lado, e se esta ficou satisfeita...

O que é uma foda boa pra caralho? O mesmo de fazer amor gostoso? De transar com quem se gosta? Trepamos porque estávamos com tesão? Dei pra ele porque eu quis? 

Ah, você conta orgasmos, né?

Vem comigo, amor...

É um útero, um avião, um morcego, uma baleia? NÃO... Uma mulher... Sua inquietude, beleza de ser, apenas... Monogâmica... Talvez, mas acima de tudo, a maior protagonista de monólogos...

Ta dizendo que sou uma atriz?

Sim, e quem não é?

Tais Loureiro

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Bagre

- É um bagre?
- Acho que é um peixe-boi.
- Não, seu bobo, o bagre quando se assusta, infla. O peixe-boi é enorme.
- Sei lá. Sempre detestei história.
- É, eu também.

O peixe balançava dando alguns sobressaltos, quicando no gramado que refletia o sol. O parque estava cheio e as mães aproveitavam para passear com seus carrinhos de bebê, desfilando com pompa cheias de orgulho dos babadinhos e outras besteiras que as mães novas adoram. O rapaz vestia um macacão e a menina um vestido florido, os dois estavam vermelhos, queimados pelo sol forte dos últimos dias. Com um pequeno detalhe para as manchas de graxa no rosto dele.
Enquanto conversavam, os olhos dele de segundos em segundos encontravam o decote do vestido dela. Os olhos voltavam para cima e ela lhe sorria, com uma docilidade ligeiramente safada.

- Sabia que os bagres são poligâmicos? Mas só as mulheres. Eles formam um bando e uma mulher sozinha toma conta de pelo menos cinco.
- Que besteira. Por isso que ele fica assim quando se assusta?
- É.
- Mas que burros, não sabem que mulher tem que obedecer.
- É.

De repente o bagre começou a esvaziar e suas feições foram se restabelecendo. Ao voltar a forma de peixe comum, incrivelmente ainda vivo, se endireitou e sentou ao lado do casal.

- Esse cara é meio idiota, você me perdoe, mocinha, mas é.
- É.
- Quê? eu sou idiota e você fala?
- Vamos pular essa parte, tá...
- É.
- Rapaz, fique quieto um minuto enquanto eu converso com a moça. - completou o bagre enquanto entregava um pequeno melão para que o homem de macacão se ocupasse.

- Fêmea, eu não gosto de gente, não gosto de vocês, mas a sua ignorância já tem me torturado demais. O negócio é que vocês quando olharam pras árvores, viram a quantidade de frutas em cima e acharam que o tronco era importante. Burrice de leigos.
- Você é um bagre poeta?
- Não, só não sou humano, nem idiota. Perdão pela redundância. Mas continuando. As fêmeas tem em si uma quantidade maior de possibilidades que o homem, se é que você me entende. Além de uma visão superior, um olho que sabe desdenhar sem sequer piscar e uma infinidade de guelras.
- Guelras?
- É. deixa... mas eu vou apresentar pra vocês a novidade de um mundo amplo, a possibilidade de ser um animal sábio.

***

Algumas horas se passaram, o triângulo amoroso era inusitado, mas com a taxa de animais de estimação o motel permitiu a entrada do rapaz de macacão. Enquanto terminavam de assistir ao reprise de teletubies, que custava uma fortuna a mais para ser disponibilizado no quarto, o bagre fumava um charuto na janela.

- Vocês são fraquíssimos.

Os dois que estavam estatelados, com olhares perdidos, entre devaneios e fascinação, se limitaram a assentir com a cabeça em tom submisso. O bagre voltou para junto dos dois, se sentou no meio e começou um discurso sobre a relatividade do universo, a efemeridade da vida e a delícia que é o sexo, ainda mais quando inter-espécies.

- O sexo, como gostam de escrever por ai, é a "consumação física de uma vontade espiritual". Às vezes é uma consumação física de um desejo carnal. E na maioria das vezes é um foda boa pra caralho. - Terminou desconcertando o casal.

O rapaz, que até ali ficara quieto, tentava aprender com as palavras de tão sábia entidade.

- Muito bonito, doutor. Eu só sabia dessa última parte. - Comentou em tom de agradecimento o do macacão. - mas agora eu quero minha mulher de volta. Só pra mim.

- É normal. Esse povo tenta provar que um animal pertence ao outro, vocês não pegam a música da coisa. Já noto a indignação, esse medo idiota, reprimam-se! Daqui a pouco você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar a minha orelha! - disse um segundo antes de se jogar pela janela, cruzar a rua correndo e pegar um táxi, fugindo sem deixar vestígios.

- Como ele sabia que eu era mecânico?
- Sei lá, nunca fui boa em história.

Daniel Fraiha

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Caso Poligâmico

Antes de tudo, eu quero dizer que estou puto. Puto por uma série de coisas que enchem meu saco durante o dia-a-dia das quais se alguém ousa falar a respeito, “Meu Deus! Que pecado! Esse rapaz não é de Jesus.”. Pois é. Meu nome é Henry Pierrot Want’ass ( já viram que qualquer maluquice é mero fruto de minhas origens e, portanto, não me culpem por essa mistura Franco-Britânica!), tenho 34 anos e possuo o que, infelizmente, a justiça considera uma Relação Estável. Mas que merda, ein?!?! Sabes o que quer dizer uma R.E? Queria eu que fosse um simples Retículo Endoplasmático que fizesse jus aos meus ensinamentos médicos, mas não. “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, diziam Vinícius, Toquinho e Tom. Relação Estável é aquela em que uma mulher já pode levar metade de tudo, eu disse de TUDO, o que é seu por conta do tempo em que vocês estão juntos – no mínimo 4 anos – se houver um desentendimento e conseqüente separação(caralho! O que é esse intervalo de tempo?!?!? Sim. Bastante coisa, mas determinantes a você perder tanto?). Eu estou puto. Acabo de completar 4 anos com minha merenda.

O assunto do qual eu falava anteriormente, mal visto por algumas pessoas, é simples: a Poligamia. A escrevo com letra maiúscula não por acaso, mas pela grandiosidade que ela compõe, transcreve, transcende... É uma física simples, confundida com uma metafísica complexa. A natureza humana instintivamente nos mostra, nos insinua, nos leva à Poligamia. Ora olhamos um desejo novo, um jeans bacana ou um corte frontal superior de uma camisa legal, ora sentimos o entrelaçar de perfumes, de olhares, de jeitos, em que obviamente temos parcialmente inserção no processo. A monotonia, por outro lado,...(Epa! Perdão.) A monogamia, de forma contrária, nos impede de exercer nossas qualidades inatas, de irmos atrás do que queremos com ambição, assim como fazemos com nossas questões profissionais, mas, dessa vez, com o outro, com nossos cônjuges, sejam passageiros ou... Sempre passageiros.

Minha idéia consiste no seguinte: caso poligâmicos fôssemos, o tempo real em que estivéssemos com cada um(a) de nossos(as) parceiros(as) seria o mesmo para completar-se uma Relação Estável – leia-se: 4 anos - , no entanto, como seriam 2 ou mais parceiros(as) e contando com que ninguém fizesse a enorme besteira de maldade incalculável de unir-se com esses(as) 2 ou mais parceiros(as) ao mesmo tempo, o tempo estimado para que houvesse uma relação estável com ambos ou múltiplos lados seria proporcional ao número de pessoas com quem você se relaciona. Isto é, caso fossem 2, 8 anos, caso fossem 3, 12 anos, e assim por diante... É simples, fácil, prático e, mais do que tudo, lindo (leitor, pare com isso de começar a deixar sua cabeça falar que eu não sou um menino de Jesus... Seja sincero, não seja hipócrita!).

Outro dia, cheguei no supermercado para fazer a compra da semana. Lá, deparei-me com uma moça sobre a qual eu conceituaria como modesta, se é que me entende. Era carrinho pra lá, carrinho pra cá, sabonete, carne, refrigerante... Quando eu estava na seção das bugigangas elétricas, eu a vi segurando em um consolo. Para os menos malandros, tratava-se de um vibrador, daqueles! Não me contive. Abaixei os óculos, olhei para os lados, certifiquei-me de que não havia problema e fui até a senhora conversar. Primeira coisa: eu não fui até a senhora como um possível futuro amante ou algo do tipo, afinal tenho 4 anos com minha anexa, minha relação é estável e, se eu der mole, perco a porra toda! Segunda: ratificando minha experiência, acertei que era uma senhora e, não, uma senhorita pelo fato de ter aproximadamente a minha idade e estar pegando num vibrador. Ou seja, seu marido com certeza já estava na fase da barriga grande, que não comparece e, uma vez ou outra, quando dá umazinha já se encontra no estado do come&dorme. Cheguei, com jeito, olhei uma lanterna, puxei um papo, pedi que não ficasse envergonhada pelo que estava fazendo e lancei minha teoria. Não deu outra! Não houve nem desenrolo, apenas uma explicação teórica e o ar estava impregnado por uma pseudo-sedução por ela não muito bem compreendida. Ela não parava de concordar comigo, de sorrir com minhas palavras, de ajeitar seus cabelos lisos escuros daquele jeito, de falar que estava com calor e essas coisas. Até que o clímax de nossa conversa passageira chegou: ela avançara completamente o sinal, esquecera seu marido, e começara a alisar meu rosto, dando um toque especial às minhas orelhas. Não quis ser rude, muito menos grosseiro, mas a trouxe novamente para o mundo real, dei-lhe palavras consideradas de sabedoria pela sociedade medíocre e falei “em alguns minutos, você volta a ser monogâmica, agora pára de alisar minha orelha”. Eu, ein?! Você acha mesmo que quero perder metade de tudo o que tenho? Jamais.

Felipe Reis

A Bonequinha

- Pára de escrever!
- Por quê?
- Porque sim! Estou pensando.
- Você não pode pensar enquanto eu escrevo?
- Não!
- ...- Pára de resmungar aí e presta atenção: “Monocéfalo; diz-se do monstro que tem uma cabeça única e duplicações variáveis no corpo.”

Silêncio.

- É pra escrever isso?
- Não!
- Pra que serve isso então?
- Pra você ouvir! Não é legal?

Silêncio.

- Bem, se você não acha legal, eu acho!
- Ótimo, bom pra você! Podemos continuar?
- Podemos! Continua aí: “Era monocéfala. Horren...”
- Era o que?
- Monocéfala!

Silêncio.

- Você ainda lembra o que a gente está fazendo?
- Claro! Por quê?
- Nada. Talvez porque tenha ficado meio estranho.
- Claro que não. Mostra exatamente o que temos que mostrar! Lê aí.
- “Bianca usava um lindo vestido rosa com babados. Sentava docemente sobre a toalha de piquenique com a família no parque de gramado verde. Nos braços, sua bonequinha de pano era monocéfala.”
- Então...
- Muito romântico!
- Eu acho!
- Você acha? Temos que escrever um conto romântico, não um roteiro do Tarantino!
- Ora, e é exatamente o que estamos fazendo! Você conhece “O Corcunda de Notre Dame”?
- Conheço. E até onde eu sei, ele não se chama “O Monocéfalo de Notre Dame”!!!
- Não, seu burro! Não é isso. Ele é o grotesco.
- Que nem nossa boneca agora! Antes era “delicada”, agora é “monocéfala”. Que sutil mudança, não?
- Temos agora que achar algo sublime.
- Hmmm, difícil. Mas que tal o adjetivo “delicada”?
- Ta bem, então! Você não acha aconselhável deixar assim?
- Sim, não acho aconselhável deixar assim!
- Então muda.

Silêncio.

-Como, mudar?
- Muda, oras. Você não acha ruim?
- Sim. Monocéfalo é horroroso.
- Então troca!
- Eu não sei trocar!
- Como não sabe?
- Não sabendo, oras. Troca você.
- Ta. Coloca monoclina!
Silêncio.
- “... sua bonequinha de pano era monoclina”?
- Sim!
- Que quer dizer isso?
- Hermafrodita!

Silêncio.

- Por que raios a menina de vestido rosa com babados sentada no parque de gramados verdes teria uma boneca de pano hermafrodita?!?!?!?!
- Porque precisamos usar “monoclina”!
- Quem disse?
- Eu disse! O texto é meu, certo?
- Errado. O texto é nosso!
- Sim, mas a mudança é minha, certo?
- Sim, certo, mas...
- Ótimo! Então fica assim!
- Olha. Vamos trocar uma idéia.
- Está bem. Te dou uma chance. Escolhe. A bonequinha pode ser monoclina ou monodonte!
- E isso seria...
- Hermafrodita ou com um dente só!

Silêncio.

- Seu texto, né. Escolhe você.
- Você está aqui pra me ajudar ou não? Não entendo!
- Eu estou aqui pra ajudar, mas tinha entendido que escreveríamos um conto infantil romântico, não um terror adulto macabro.
- Não é macabro!
- Ah, não, imagina! Simpsons que é!
- Isso, boa!
- Boa o que?
- Boa idéia! Escreve aí. “... era monoclina e amarela. Horrenda, contrastando com a beleza sublime da pequena menina.” Temos nosso sublime!
- Temos nosso sublime? Temos um desastre, isso sim!
- Ah, você não entende de romantismo! Vá ler Vitor Hugo e Álvares de Azevedo e volta pra falar comigo!
- E Stephen King?
- Ai, seu ridículo!
- Ei, onde você vai?
- Embora! Acaba sozinho!
- Não! Volta aqui! Desculpa vai. Eu não falo mais nada.
- Você vai me contra-dizer?
- Não.
- Você vai me sacanear?
- Não.
- Você vai fazer o que eu mandar?
- Não.
- Não?!
- Não, quer dizer, sim. Sim, sim, sim!
- Ótimo! Eu quero uma massagem então!

Silêncio.

- Quer um suco também?
- Ai, grosso! Tchau!
- Não, não, não... Ta bom, eu faço massagem! É o que me faltava!!
- O que você disse?
- Eu? Que adoro fazer massagens! Mas você vai ter que escrever!
- Tudo bem!
- Continu...
- Ai!!!!!! Seu brutamontes! Mais leve.
- Desculpa!
- Bem, vamos lá... Vamos só acabar esse parágrafo pra ir co... O que você está fazendo?
- Sua orelha está muito tensa.
- Para de palhaçada! Tensa vai ficar a sua daqui a pouco!
- Ahhh, ta bom, eu paro! Ingrata!
- Vamos lá. “... era monoclina e amarela. Horren”...
- Por que não trocamos monoclina por hermafrodita mesmo?
- Porque não! E pára de mexer na minha orelha. Só no ombro, por favor!
- Mas monoclina é muito estranho.
- Então tem outras opções que eu anotei aqui. Ai, está muito forte! Isso, melhor. Olha só as opções: monocolpada, monoftalma ou monoplégica.

Silêncio.

- Por que a fascinação com esse prefixo tão abrangente?
- Ah, porque eu gosto! Coisa de menina, sei lá. Pode ser “patibular” também.
- Não quero nem saber o que significa...
- O que?
- Nada. Qual você quer então?
- Gosto de monoftalma.
- Eu prefiro monocolpada.
- Mas monoplégica também é bom!
- Eu prefiro monocolpada.
- É, monoplégica é bem melhor!
- Coloca monocolpada, é mais legal!
- Vai ser monoplégica então! O que você acha?

Silêncio.

- Acho ótimo!
- Beleza, então. Pode fazer um pouco mais forte. Esse lado está bem tenso, está vendo?
- Aham..................
- Então ta. “... era monoplégica e amarela. Horren”... Solta minha orelha! Por que faz isso?
- Pra me divertir um pouco!
- Eu não gosto!
- Eu sei, isso que é divertido!
- Pára! Eu tenho namorado ta?
- Ahh, isso é um problema? Você é mononamorada?
- Solta minha orelha!!! Já disse!
- Solta minha orelha!!! Já disse!
- Não me imita!
- Não me imita!
- Eu vou te bater!
- Eu vou te bater!
- É sério! Páááááraaa!
- É sério! Pááá...
Soco.
Tapa.
Chute.
- Eu avisei!
- Ai, ai. Doeu muito esse monosoco. Meu monobraço está doendo!
- Pára! Ai, que saco! Dá licença que eu vou terminar o NOSSO trabalho.
- Ah, agora ele é nosso?
- Ele sempre foi nosso!
- Ahh sim. Por mim ele seria monossilábico. Já virou uma monografia isso!
- Reclama, reclama mesmo senhorzinho. Vai ver se seu mononome vai estar na capa!
- Capa ou monocapa?
- Ai, seu ridículo! Pára com isso, não quero mais massagem!
- Eu não estou fazendo massagem! É monomassagem!
- Pára, seu ridículo. Eu tenho namorado! Me respeita!
- Ah, não tem problema, eu não sou monogâmico! E estar contigo é a melhor traição, meu amor!
- Quem escuta você pensa que você fala sério!
- Mas eu falo sério! Você é minha vida! Quer dizer, minha monovida, minha monógama, monóbela! Linda!
- Ai, você é ridículo. Deixa eu acabar isso aqui logo, seu chato! E prometo que, se depender de mim, em alguns minutos você volta a ser monogâmico, E AGORA PÁRA DE ALISAR MINHA ORELHA!!!! Ai, insuportável! Tchau.
- Ei, onde você vai?
Porta.
Risos.
- Me espera, também quero biscoito!
Porta.


Bernardo Schlegel

domingo, 13 de setembro de 2009

Quem não levanta, não dorme

Carlos e Cíntia eram casados há apenas 5 anos. Mas, antes, muito antes do esperado, receberam uma visita.
- Tudo bem, amor. Assim como chegou, ela deve de ir embora. Talvez tenha lhe apetecido passar uns meses no Rio de Janeiro. Não é todo mundo que tem essa nossa vista.
- Porra, Cintia. Não brinca com essas coisas. É sério. Isso nunca tinha acontecido comigo...
Cintia o fitou de rabo de olho e antes que a mulher pudesse puxar o ar a fim de pronunciar alguma coisa, Carlos adiantou-se:
- Não com tanta freqüência.
- Carlos, deve ser normal. A Júlia me disse que essa fase já perpassou o casamento dela com o Rui.
- Porra, Cintia! Você ta falando sobre isso com os outros? – já aumentado o tom de voz – Você não tem o direito!!!
A calma que era constante nas falas e expressões de Cintia se ausentou.
- Você queria o que? Que eu fosse mal ou NÃO comida e nem sequer pudesse falar com alguém? Desculpa, Carlos Moreira, mas aí você já está exigindo demais de mim. Faz meses que você toma Viagra como vitamina C e NADA e QUANDO consegue é uma MERDA, e uma MERDA curta em que você demora mais tempo abrindo meu sutiã – as lágrimas já embaçavam o olhar – do que dentro de mim.
O silêncio gritou.

***

- Meu irmão, todo mundo tem um fetiche, descobre o seu e manda brasa!
- Não é assim, Rui.
- Carlos, a Júlia me contou que faz 2 meses que, porra(!) gosto nem de pensar – disse o Rui se benzendo-. Algemas!!! Pronto é isso. Comigo funcionou!
- Ta maluco, Rui! Tomei uma dura quando tinha 21. Apanhei tanto que sou traumatizado até hoje. Se vejo uma algema, acho que meu pau nunca mais levanta de vez. Não sei, cara. To pensando em ir a um psicólogo.
- Não, não, não ( soluço bêbado). Porra, Carlos, Ta de sacanagem? Vai pagar 200 conto pra falar pra alguém que ta de paulemolência. Ta aqui falando comigo, brother, e só ta me pagando uma ssssssssskolll.
- Tchau, Rui, valeu aí pela ajuda. ( Já levantando e deixando uma nota de 20 na mesa).
- Foi mau, cara. Foi mau... Agora é sério: tem um tratamento alternativo que eu vi num poste ali na Rio Branco no Centro...

***

- É a sua primeira vez, senhor?
- É sim, senhor.
- Olha bem no centro desse relógio. Concentre-se e acompanhe o balanço.
- Eu tenho que pagar antes?
- Concentre-se...

***

- Agora o senhor imagina que está com sua mulher. Suas mãos percorrem do joelho às margens das vergonhas dela a fim de deixá-la cada vez mais excitada. Ela abre seu botão com o entusiasmo parecido com o de uma criança abrindo o presente no Natal... O que você sente?
Silêncio.

***

Muitas tentativas depois:
- Carlos, agora você vive em uma seita poligâmica. Você tem 5 mulheres, uma para cada dia da semana.
Um volume na bermuda de Carlos é notado.
- Cada uma das suas mulheres é de um jeito e tem uma posição predileta..
Carlos se mexe no divã e começa a chegar perto do médico...
- Você agora está com a ruiva.
Carlos põe a mão na nuca do senhor, que se esquiva...
- Ok, ok, garotão. Em alguns minutos você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar minha orelha.

***

“ Senhor Carlos, o senhor se mostrou bastante ‘empolgado’ com o fato de viver numa seita poligâmica. A boa notícia é que estudos recentes de cientistas da Universidade de Sheffield, na Grã Bretanha, revelaram que homens acima de 60 anos de 140 países poligâmicos têm expectativa de vida, em média, 12% maior do que homens de outras 49 nações monogâmicas. Já a má notícia é que o Brasil é monogâmico.
Logo, receito-lhe um Ménage à trois e uma casa de swing 2 vezes cada. Depois sua vida sexual a dois CERTAMENTE voltará ao normal.
Caso precise de mais informações, mande-me um e-mail.
Espero que você levante dessa
Dr. Juan”
Envergonhado, Carlos dobra duas vezes a folha.
- Alô, Cíntia?


Henriette Dupret

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Zeus

- Dona Ester, preciso da sua ajuda.
- Antônio? Já era hora de você me ligar.
- Eu sei, na época não acreditei no que disse, mas a senhora tinha razão.
- Eu avisei.


Eram 22h e 37 minutos de uma quinta feira, 11 de setembro. Antônio, um homem alto, moreno, de cabelos pretos, olhos pretos e um olhar profundo, de uma beleza impressionante, porém fora do comum, saía de sua casa. Chovia muito, mas o restaurante era a duas quadras e ele gostava de caminhar. A cada passo que dava sua ansiedade aumentava. O suor frio, mesmo com a chuva, escorria por dentro da sua blusa preta e suas mãos tremiam. Ao mesmo tempo em que ele queria sair correndo para chegar rápido, uma sensação de medo e vontade de voltar para casa o dominava. Era sempre assim, e ele sabia, por isso continuava a andar, vagarosamente. Da última vez em que se apaixonara tinha sido pior, já que o primeiro jantar tinha acabado num grande fiasco, mas, depois de dois ou três encontros, a relação se desenvolvera de forma incrível. Não havia, portanto, com o que se preocupar.
Sem perceber, ele havia chegado. Entrou e logo a avistou. Ela estava linda, com um vestido também preto, os cabelos ruivos soltos sobre os ombros e os olhos cor de mel delineados por cílios longos e pretos. Aqueles olhos haviam ganhado o coração de Antônio desde o primeiro dia. Ele logo se dirigiu à mesa, os dois se cumprimentaram com um beijo e ele se sentou.
Era 1 hora e 26 minutos quando ele deixou a moça em casa. O jantar tinha sido maravilhoso, tinha parado de chover e, por isso, a caminhada de volta, na beira da praia com uma brisa soprando, fechara a noite de forma perfeita. Ao chegar em casa, Antônio tirou seus sapatos sujos no hall de entrada, jogou seu casaco em cima do sofá, beijou sua mulher, que lia na poltrona, e foi tomar um banho, feliz.
Havia três anos que era assim. Antônio amava sua mulher mais do que tudo, mas não conseguia parar de se apaixonar por outras. Para ele isso era uma qualidade que ia além do entendimento das pessoas. A capacidade de amar profundamente mais de uma mulher não podia ser um defeito, e sim uma dádiva dos deuses. Sua mulher soube desde o primeiro dia, mas preferia ignorar o que acontecia com o marido. Ela sabia que seu amor era verdadeiro, e, no início, só isso importava. Até que aquele dia chegou:
- Antônio, que dia é hoje?
Ele ainda estava de toalha e tinha acabado de pisar os pés no quarto. Ela estava sentada na cama, de pernas cruzadas, de frente para a porta do banheiro.
- Por “hoje” você se refere à ontem ou hoje mesmo? Afinal, já passou da meia noite querida! Haha!
Aquelas brincadeiras eram extremamente irritantes e ele não conseguia deixar de fazer.
- Por “hoje” eu me refiro ao dia que você saiu de manhã, não voltou para almoçar, chegou em casa já de noite, ficou 10 minutos, saiu de novo e chegou só, como você diria, no dia seguinte.
Naquele momento Antônio percebeu que a brincadeira não tinha caído muito bem. Ele odiava brigar com a esposa, ainda mais quando havia encontrado outras mulheres. Era sempre a mesma coisa: ele fingia que não era nada disso e ela fingia que acreditava.
- Meu amor, me desculpa, eu tive o dia inteiro de reuniões e depois fui tomar um chopp com o pessoal do escritório, foi aniversário do Marcos...
- Você não me respondeu e isso não justifica nada já que você, sequer, sabe que dia é hoje.
Ele não conseguia pensar em nada.
- Cinco anos Antônio! Hoje, dia 11 de setembro, nós fazemos cinco anos de casados, e você não é capaz nem de lembrar!!!
- Clara... eu, eu... me desculpa...
- Antônio, é o seguinte, agora você vai ouvir algumas verdades. Eu to cansada de fingir, cansada de me fazer de boba! Durante todos esses anos eu agüentei, eu ignorei porque você foi um marido perfeito, você me amou, cuidou de mim e nunca falhou, nunca esqueceu uma data. Mas no último ano ficou demais, você mudou, virou um vício sair com outras mulheres, você precisa disso pra viver e eu não consigo viver assim, fingindo. Então eu te dou um ultimato, eu não sou uma mulher muçulmana pra ficar agüentando essa poligamia: ou você resolve seu problema, ou você vai ter que ficar só com as suas “outras” e me perder.
Ela bateu a porta, chorando.
Naquele momento Antônio teve a sensação de que ia desmaiar. Ele nunca tivera que enfrentar sua mulher daquela forma, nunca havia sido colocado contra a parede e, por isso, não achava que aconteceria. Clara era o amor da sua vida, cada olhar, gesto e sorriso, faziam com que seu coração disparasse mesmo depois de cinco anos. Ele não conseguia pensar em viver sem ela, mas também sabia que ela tinha razão: ele tinha um vício e esse vício lhe dava prazer. A ansiedade que sentia antes de encontrar cada mulher, o suor, o coração palpitando, a respiração ofegante, o medo. Depois, ao chegar ao encontro, a visão da belíssima criatura que o esperava, o coração acelerado, os sorrisos, os olhares, as palavras. No fim, a sensação de dever cumprido, de sentir-se homem, vigoroso, imbatível, irresistível , quase tão poderoso como Zeus, o grande deus do Olimpo, conhecido por sua libido insaciável e suas dezenas de mulheres. Aquele ritual o fazia sentir completo, mas Clara era sua Hera, deusa dos deuses, regente do casamento e a mais majestosa e solene das deusas.
Foram dias cinzas os três que se seguiram, o silêncio reinava na casa, nenhuma palavra era trocada e a tensão preenchia cada canto vazio. Até que Antônio tomou a decisão mais difícil da sua vida: ele acabaria com aquilo, renunciaria ao seu prazer em nome do amor verdadeiro, que não era formado por pequenos momentos de êxtase, mas sim da confiança, cumplicidade, amizade e compreensão que existia entre ele e Clara. Haviam construído isso juntos, durante todos esse anos e ele não poderia destruir. Deu, então, o telefonema.
- Dona Ester, preciso da sua ajuda.
- Antônio? Já era hora de você me ligar.
- Eu sei, na época não acreditei no que disse, mas a senhora tinha razão.
- Eu avisei. O que aconteceu, finalmente?
- Ela descobriu, me colocou na parede, me fez escolher entre ela e o resto. A senhora sabe que, quando tudo começou, eu tentei parar, fiz de tudo, terapia, remédios.. Nada adiantou, e é por isso que eu estou te ligando. Não que eu confie nessas suas coisas aí, mas é a minha ultima opção.
- Pode vir pra cá agora, eu garanto que vai te curar.
Rua Estrela Dalva, número 13, esse era o endereço. Antônio entrou na casa, escura, com cheiro de erva cidreira e incenso de benjoim. O primeiro andar era iluminado apenas por uma luz azul, meio fúnebre, meio angelical. Ele foi entrando sem bater, como era o costume, e logo a avistou. Ela tinha seus 60 anos, vestia uma túnica longa e roxa, cheia de estrelas, usava os cabelos cinzas presos em um coque e, como qualquer bruxa normal, esbanjava uma grande verruga na ponta do nariz. Apesar da idade, toda aquela luz e aquele ambiente a deixavam linda e interessante.
“Não Antônio, controle-se, é o vício de novo, ela podia ser sua avó.”
Nenhum dos dois falou nada. Ele se deitou na cama que ficava no centro da sala, fechou os olhos e sentiu que as mãos daquela mulher o tocavam, ela entoava um canto, quase como um mantra, em alguma língua estranha, cristais gelados eram colocados sobre os pontos que ela chamava de “chacrás” e depois...
- Em alguns minutos você volta a ser monogâmico.
Ele havia acordado, a magia estava feita.
- Agora, pára de alisar a minha orelha!
Antônio se desesperou. Olhou. Era apenas a manga de sua camisa presa no enorme brinco de estrela da bruxa. Enfim, ele estava curado.

Manuela Porto

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Em alguns minutos você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar minha orelha!"

E depois de alguns meses fora do ar, pretende-se voltar a disceminação de nada para coisa nenhuma, a quem interessar, está aberta a temporada de insanidade controlada e outras baboseiras virtuais.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A Pilha e as Vidas

— Você está bem?
— Estou...
— Não senti muita segurança... eu quis dizer, está bem em relação a ela?

Lá vinha aquela víbora travestida de psicóloga, sempre querendo que eu tivesse recaídas... O bem dela é o meu mal, seu emprego depende da minha loucura. Somos a antítese um do outro.
Num rádio qualquer, ou pode ter sido uma alucinação, é recorrente nos que estão no meu estado, ecoava o som de um paraíba cantando: “E o vinho carregado de saudades vem correr na minha veia...”
É, eu acho que ainda sinto falta dela...
Eu e Hendrix.

—Não...

***

Tudo começou quando... HAHAHAHAHA!
Perdão pelos meus devaneios, mas é que têm uns “lugares comuns” nos nossos pensamentos que são ridículos. Encontrar a genealogia de tudo é um deles. Veja Freud e seu Édipo que tudo explica a partir da infância; Ou pior, lembremo-nos dos pré-socráticos, buscando a ‘Arché’ de tudo. Não conseguimos lidar bem com a ausência de princípio. Nem tudo tem um início. Temos que entender que a vida é como uma Durex: têm horas que não sabemos onde está a sua ponta, e quando enfim encontramos e tentamos puxá-la, partimo-a ao meio. É tudo uma coisa só. Não há princípio, nem fim, só meio. Só meios...

A verdade é que isso nunca começou, por assim dizer. Estava presente na minha vida desde o começo. Desde lá eu era tentado com tudo que viciava: o leite materno, o carinho, a coca-cola e em seguida a cerveja e o cigarro. Todos eles vícios bons, sociais. Mas depois veio a maconha e em seguida Ela. A Cocaína.

E a culpa é sempre da maconha, a porta de todos os males. A culpa mesmo é dessa porra dessa nossa necessidade de se viciar. Só mudam os vícios.

Se pararmos para pensar, a culpa é do leite materno.

Mas isso não faz mais diferença. Já viu clínica de reabilitação pra bebês que querem mamar a toda hora? Para viciados em coca-cola? Não...só têm para mim, O viciado...

Éramos oito. Oito no mesmo apartamento. Amigos, sobretudo, mas amigos que não ligavam uns para os outros. Éramos apenas na hora da divisão da “pilha”. Naquele grupo todos sabiam o que significava aquele eufemismo. Pilha era aquele néctar branco que invadia nossas narinas, chegando rapidamente ao Sistema Nervoso Central, fazendo-nos sentir vivos. Era uma troca fáustica. Aquele pó era nosso Mefistófiles, dava-nos vida em troca de nossa existência. Trocávamos nossa vida real por uma vida sintética, muito mais agradável. Mas a vida real logo se esgota, e o doce pólen não cessa de cobrar sua conta...

Chegou então o ponto que minha vida se esgotara. Era um morto vivo sem meu combustível. Buscava dinheiro a qualquer custo para conseguir mais pilha.
Junto com minha vida, minha conta corrente foi consumida também. Até a hora que fiquei sem dinheiro, sem pilha, sem vida, sem nada....
O tempo passava, e a esperança de que o dinheiro brotaria na conta ia desaparecendo junto com meu animo. Meu e dos meus sete companheiros. Foram dois dias até o grupo se desagregar.
Agora eu era sozinho. Estava sem pilha, mas a conta continuava zerada. Desespero. Na verdade, eu não sei o que eu sentia. Chega uma hora que a gente deixa de pensar. Deixa de sentir. Deixa de existir.
Caído no quarto, vazio, e quando digo vazio me refiro ao quarto e a mim, ouvia em algum lugar um blues que dizia “Definitely I’d throw my drugs away if I found a cure for pain.”. Afinal, aquela dor vinha antes ou depois da droga? Existe uma cura para a dor? Até que ponto o problema não era eu, antes mesmo de entrar nessa?

De que adianta a reabilitação agora? O fio que me ligava à vida já está roto. Apenas Ela me prende. Me prendia.

(Carta de um suicida numa clínica de reabilitação. Mais que se despedir, ele queria se entender.).


Caio Cabral

domingo, 28 de junho de 2009

Voz

Jorge tinha nascido cantor, vivido cantor e morrido pobre. sem grandes adjetivos ou capas de jornais. sua música nascera do chuveiro e morrera nos ouvidos dos frequentadores de karaokê que rodeavam Nova Iguaçu. Era ali, num bar caído, na esquina entre uma rua chamada "Elvis Presley" e outra chamada "Não Morreu", que ele tinha sua glória no fim do dia.
De manhã era aquela coisa toda, fazer barba, tomar banho, comer pão com ovo, virar a cueca de ontem do lado avesso pra economizar água e sair pra procurar ferro velho. Mas se intitulava cantor sempre que lhe perguntavam o ofício. Era bem otimista.
- Seu moço... que que tem hoje pra mim? - perguntava nas portas de sempre onde ia procurar entulhos que lhe pudessem render algum trocado.
- Ô, meu filho... tem um microfone do videokê antigo que quebrou. pode ficar...
Os olhos de jorge não nunca tinham brilhado tanto na vida como naquele momento (quando cantava, fechava os olhos), parecia ter achado o maior tesouro perdido da história. Sua baba escorria levemente pelo canto esquerdo da boca enquanto apreciava o novo aparelho, suas orelhas de abano balançavam como o rabo de um cachorro alegre. Seus ombros pareciam estar em descompasso, tremendo para os lados. Era quase um transe o estado em que se encontrava.
- Muito obrigado, seu moço! Eu te amo!!! Eu te amo!!!
- Que é isso, rapaz, não é pra tanto... vá indo, vá indo.
Saiu dali saltitando e cantarolando "oh happy day!", na versão brasileira.
Passou o dia consertando o microfone, pedindo ajuda a seus vizinhos que entendiam de eletrônica e todos que estivessem ao seu alcance. E, por volta das sete, o aparelho funcionou.

***

- Você fez o que eu mandei?
- Aham, sem o menor sinal de dúvida. Instalei o controle no microfone. Ainda deixei com um problema simples, ele não ia precisar abrir o aparelho pra consertar, foi coisa de fio. Quando ele soltar a voz, o dispositivo vai ativar a contagem para a explosão, e aí, chefia... daqui há uns meses, quando a poeria baixar, o senhor vai ter toda a encosta só pra você, sem favela nem essa imundice daí.
- Maravilha, Jou.

***

Às nove horas da noite estavam todas as cadeiras da comunidade arrumadas em frente a varanda do barraco de Jorge, um pequeno palco instalado perto da tomada, onde o microfone já estava em um suporte esperando a estrela.
Crianças mais a frente, brincando inocentemente, adolescentes pelos cantos, olhando e desdenhando do homem doce que via ali seu maior momento na vida. A vizinhança já estava chamando seu nome quando ele entrou vestindo uma jaqueta brilhante e um salto bicudo, junto a uma calça apertada que talvez lhe tirasse a possibilidade de repordução.
Era a perfeita cópia tosca de Elvis. Se postou em frente ao microfone, endireitou os ombros, passou os dedos pelas sobrancelhas, ajeitou o topete, fechou os olhos e entoou a primeira nota de "Love me Tender". Um barulho ensurdecedor cobriu sua voz, era uma explosão de aplausos que vinham da plateia delirante.
A noite continou com o show particular de Jorge, as músicas animando todos os presentes, a dança sacudiu todas as faixas etárias, passando por "Don't Be Cruel", "Surrender" e terminando com "All Shook up", o show foi o maior espetáculo que a comunidade vira em toda sua história, e às onze horas o microfone estava sem pilha, mas a conta continuava zerada.
Um menino que pulara o tempo todo chegou perto de Jorge, puxou sua camisa para que ele lhe desse atenção e disse:
- Tio, você tem muita voz!
Jorge no dia seguinte voltara a sua rotina de ferro-velho mais feliz do que nunca, mas ainda com algumas dúvidas sobre o elogio do menino.

Daniel de Lima Fraiha

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Frase: "Estava sem pilha, mas a conta continuava zerada."

Depois de um tempo sem a devida aualização, volta a ideia de quinze dias que tinha sido propagada. Frase sugerida por Debora Hutz.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Felicidade, Anestesia e Pipoca: o (des)espetáculo da (sobre)vida

Num poente de outro daqueles dias sem estação definida, que simplesmente são, e exatamente por isso são os mais belos de todos, um homem obsessivo corria pelas ruas de Berlim, passatempo este que cultivava qual uma obsessão, mas que o aliviava de todas as outras. Pelo menos é isso que ele acha.
Mal sabiam os outros que ele tinha aquelas compulsões. Mal ele sabia que todos os outros também tinham, mesmo que não fossem as mesmas. No fundo, todos temos a obsessão de viver, amar e morrer, ainda que seja a última uma contra obsessão. Ou não.
Era um dia normal.

***

Em outro ponto da cidade, um casal feliz come num restaurante alemão de comida japonesa. Eles terminam seu relacionamento. Às vezes acreditamos que a felicidade nos fará “felizes”, quando na verdade a fonte de toda felicidade é a sua procura. O que vale são os fins, e não os meios, como se propaga levianamente.
É óbvio que esse casal não sabe disso, mas quantas coisas não sabemos, e acabamos por intuir?

***

Exatamente à meia-noite, o sushiman daquele restaurante volta pra casa e deixa seu instrumento de trabalho guardado no estabelecimento. Pelo menos deveria ser assim.
Mas ele caminha, faca em punho, decidido, como um homem apaixonado que pede a amada em casamento, ou como um animal em sua inexorável rota para o matadouro (podemos nós também ser esse animal, ou você, caro leitor, sabe como escapar dela?), ou ainda como o escritor que tem certeza de que é aquilo que ele quer. Ou não.
A certeza é o melhor caminho para a dúvida.

***

Naquela praça berlinense, o sushiman (não, não imaginem um asiático) grita para que todos que passam à meia-noite e dezessete naquele lugar sejam testemunhas de seu suicídio.
Aquela faca, que dissecara impiedosa e mecanicamente milhares de peixes, agora ia de encontro ao corpo daquele que a manuseou. Tal como os artistas se retratam em suas pinturas, eis o autoretrato de um sushiman frustrado.
- Como vocês conseguem? Passar com essa placidez, incólumes diante dos absurdos da vida?
E a multidão segue, densa, amorfa.
-Estou farto disso!Corta peixe, arruma prato, “você é um artista!”... o sucesso profissional é para os tolos! A vida é como um menino traiçoeiro com uma lupa e açúcar...atrai com o açúcar e mata com a lupa, dá com uma mão e tira com a outra...
Um homem, que passava correndo, ouve por acidente as queixas daquele fragmento de ser diante da estátua de Goethe, para e diz:
- Você não quer se matar. Se quisesse não anunciava. Fazia. Você só precisa de um amigo, para te mostrar como a vida é maravilhosa. Deixa disso!
-Você não sabe o que diz! Veja o exemplo no meu trabalho... os peixes podem nos ensinar muito sobre a vida. Por exemplo, os baiacus, eles são como a vida. Os baiacus são ariscos... arredios, intratáveis.
-Que nada! Você não está vendo a alma deles. Os baiacus têm coração. Ela é assim também. A vida é assim também!
- O coração não passa de um órgão, a alma é uma abstração... o que me prende à vida?
E é com essa dúvida que terminou o ocorrido.
Uns dizem que o sushiman se matou e o homem que passava seguiu sua vida, cada vez mais perturbado por aquela figura que conhecera por acaso(?); outros dizem que o sushiman, irritado, matou o homem que tentou lhe ajudar, e, arrependido, encontrou a salvação na religião, tornando-se um monge.
Eu não acredito em nada disso.

Caio Marcellus Martinez Cabral

domingo, 14 de junho de 2009

Canhoto

- Sabe... isso é a minha maior perda na vida. É ver nesse seu olhar a falta de qualquer palavra. Saber que você me vê como um homem inocente, ingênuo, que pensa poder mudar o mundo, que não compreende o curso das coisas como elas são. Achar que eu tenho a mentalidade pequena por me recusar a participar disso, enquanto a grande pequenez é a sua porca inutilidade do olhar... Cheio desse vazio que não é nada.
- Os baiacus são ariscos... Arredios, intratáveis.
- Que nada! Você não está vendo a alma deles. Os baiacus têm coração. Ela é assim também. A humanidade só precisa receber algumas rosas, os baiacus necessitam de flores, de cores, de sabores.
- Tá na minha hora... Não tenho tempo.
- E nunca terá. Isso que você acabou de pôr em cinco letras é incompreensível aos olhos de quem... Estátua. A mobilidade lhe é fruto da imaginação, sua coloração cinza tira a íris dos olhos, te põe de cócoras à entrada de alguma catedral. Gárgula. Suas azas te ignoram baiacu, sem qualquer escama úmida ou brânquias que sintam o ar. Tua neblina é toda de uma não-visão, recheada da podre massa falida que virou o ser humano.
- Pára de ser ridículo, deixa esse discursinho poético de babão! Quando você voltar a sanidade e puder falar como um homem sério eu volto.
Os olhos fixos na parede, vendo o homem vestido em terno de linho ir embora, a boca ainda por fechar e a expressão de quem não conseguia relaxar os músculos, o rosto contorcido no que pareciam ser cãibras múltiplas. Do escritório ao lado podia-se ouvir a voz de Tim Maia ecoar pelos corredores no refrão "É primaveeeera... Te amo!". Ao fechar da porta, escorreu-lhe uma lágrima do rosto, o olhar plácido já virado para a janela, de onde comtemplava o beco, a boca resmungando sem força o fim do refrão "Meu amor...", se deixou cair angustiado e melancólico na cadeira.
- O que que é a sanidade, Carminho, me diz, me dá essa luz! - disse olhando para o aquário que ficava ao canto da sala. - Eu só vejo o beco, daqui. É isso, então? Fiquei maluco mesmo? - O peixe solitário se debatia, não por estar preocupado com a pergunta, mas pela mão encostada no vidro que lhe afligia. - Eu sou que nem você, Carminho, tô num aquário, de vez em quando me dão comida, trocam minha água, mas quando eu olho nos olhos, já vem uma mão enorme no meu vidro, me deixar assim, sacudido sem motivo, no meu cláustro a céu aberto...
As três batidas na porta tiraram-lhe do transe prontamente, era a secretária que lhe trazia um novo visitante.
- Oi, Ilaio, quanto tempo... Deve ser pelo mesmo motivo do nosso amigo que acabou de me privar de sua magnífica presença. Por quê ele não ficou? Ahh, desculpe a falta de sensibilidade... Xadrez só dá para dois, é verdade. Só espero que seu cavalo não queira minha rainha como o dele.
- Perdão não satisfazer sua graça letrada, Excelência, mas eu trato de afazeres e não jogos.
- Que seriam seus afazeres, se não um monte de peças que buscam o meu pescoço? Enfim um bispo a meu dispor, já estava me sentindo insultado com a presença de tão torpes peões. Mas ainda há de percorrer algumas diagonais, Excelência. Assim como tu, me disponho a entrar no tabuleiro, mas meu preço é teu rei, e não tua toga ou coroa.
- Parece-me que estás realmente louco, como dissera meu relator. É uma pena, Miguel... Poderia ser grande.
- Louco é meu braço direito, excelência, que me obedece sem espasmos. Muitas vezes me esforço para não me proclamar canhoto, quando penso que é esse lado o que me recusa. Tua verossilmilhança com a de minha tia-avó é extrema. A forma como os vermes lhe mordem meio rosto é tão doce quanto alva, além de não perder de vista a razão que aflora de tua orelha, a direita.
- O que é isso, meu Senhor?! Vossa Excelência prepare-se para uma resposta do tribunal, desacato e falta de civilidade são caso de justiça.
- A esquizofrenia de meus olhos não lhe escutam algumas palavras. Talvez por ver sua boca corroída de ratos lúgubres, pareceu-me o sussurrar do lado sujo não completar alguns sons. Mas o início de cada letra me lembrou algo como "civilidade" e "justiça"? Seriam possíveis estas palavras virem de seus lábios? Escuta-me bem, teu verme! O lado louco é quem trabalha por minha pessoa, a visão de um mundo em cracas é na verdade o paraíso de tuas mil rosas roubadas. O riso descontrolado é a vista de quem se desfez de corpo terreno, em vista de sarjetas como tua mente, que por detrás de uma roupagem francesa, sujam o mundo com topetes gosmentos, e acariciam o pelo de uma raça insalubre!
Os seguranças já haviam adentrado a sala, e tentavam, os quatro, tirar as mãos do homem que esganava o outro bem vestido. Os gritos de socorro ficaram pelo corredor, ninguém ouvira, mas todos ainda estavam pasmos e agoniados com os silvos agudos que se ouvira sair por debaixo da porta, como se alguém gemesse ou uivasse, numa comunicação não inteligível aos homens, numa aflição quase que espiritual.
Jogado numa cela, junto a pelo menos mais cem num espçao para no máximo uns vinte, o homem se deixava deitar por entre os que ali estavam, sua aparência jovem e bem cuidada chamara a atenção dos detentos que não viam carne nova a séculos. Seu sorriso nos lábios era o que espantava os que lhe admiravam. "É mocinha!", gritavam animadamente. Numa jaula debilitada pela insanidade metálica de barras de ferro enferrujadas ao som de um não-tempo. Um não-pertencimento, à negação de tudo que é viável, provável e acreditável.
- Eu juro! Fui eu! Deem-me o crédito, não para a história, mas para os animais. Eu não sou humano! Digam! Digam que não sou humano! - Esganiçava-se numa espécie de uivo ininteligível que assustava os mais assustadores companheiros de cela. - Eu nunca acreditei! Agora deixei isso, eu nunca fui isso! Eu sou canhoto! Eu sou canhoto...
O sorriso lhe estampou o rosto por todos os sete minutos que levaram os companheiros de cela para lhe devorarem vivo.

Daniel de Lima Fraiha

Sim OU Não

- Ora, diga-me um nome.
- Mulher ou homem?
- Um nome amargo, venenoso...
- Luiza.
- ela te causou tanta dor?!
- Não! Não verdade eu não sei que dor me cabe. Amor bom é aquele que dói. Mas o que adianta se prender a velhas paixões.
- Talvez para saudoso se fazer poemas.
- Vinícius, escrevia poemas enquanto amava, nos seus intervalos de paixão não escrevia nada.
- Mas a maior parte dos poetas eram melancólicos.
Aquela nossa conversa começou a me incomodar. Não queria me lembrar daquele recente desamor.
- E as outras? As que já passaram, doeu tanto?
- Não é a mesma dor. Mas todas machucam, sempre com espinhos nas palavras finais, como se a culpa das suas lágrimas fosse minha, como se fosse eu o mau homem. E não o fim do fogo que ardia.
- Você acha que o amor cresce?
- Não sei, nunca amei uma só. Amo todas, cada uma de uma maneira.
Calamos. Vinho. Petiscos. Risadas.
- Diga um animal.
- Terra ou mar?
- Um animal arisco, venenoso...
- Mulheres?
- Sem gracinhas, sem rancor. Ainda Luiza te atormentando.
- Não, meu caro. Na verdade, ela foi a única que estava no meu coração, mas todas as outras estavam no meu pensamento. Por isso não deu certo.
- Você não disse isso a ela?!
- Pois então, quando eu disse, ela se indignou, disse que eu não sei amar. Na verdade amo demais. E ela sem coração me abandonou. Eu dei meu coração a ela, mas ela se recusou.
- Com razão...e o animal?
- Os baiacus. Os baiacus são ariscos...arredios, intratáveis. Os baiacus são Luiza.
- Que nada! Você não esta vendo a alma deles. Os baiacus têm coração. Ela é assim também.
- E vais me dizer que eu não vejo. Se não vejo é por que certamente não existe.
- Não. Você simplesmente não entende. E não entende, pois se trata de mulher.
- Quem entende?
- Há perguntas que não tem respostas. Uma origem?!
- De novo não.
- Devias ter perguntado: uma origem de quê?

Alice Debret

quarta-feira, 3 de junho de 2009

- Os baiacus são ariscos...arredios,intratáveis.
- Que nada! Você não está vendo a alma deles.Os baiacus têm coração. Ela é assim também.

A partir de agora mudam um pouco as coisas... a frase ficará durante quinze dias e, a cada mudança, será de uma pessoa diferente a autoria. a frase ai de cima foi ideia de Maria Clara Senra.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Seu rosto, agora, já não era mais o mesmo. De fato, nunca fora o mesmo: era sempre aquilo que devia ser a seus olhos, se isso fizer algum sentido. Mas Pimpão sempre compreendia o seu significado, sempre se identificava com o reflexo do espelho. Na verdade, muitas coisas mudavam ultimamente em sua vida.
Era só agora, só como nunca fora. Sua mulher e eterna companheira morrera de câncer. Uma daquelas doenças fulminantes e terminais, que a esposa escondera na penumbra de seu cinismo para evitar a dor do marido comprometido. Subitamente, portanto, sua ida não lhe deixara nem ao menos um momento para o sofrimento decorrente do interregno de tempo, que passa arrastado e melancólico, da morte premeditada de quem se ama. E ele a amava de verdade. Mesmo depois de velho e da putrefação das carnes e da persistência da gravidade em quedar tudo aquilo que gostamos rijo, o homem continuava a adorá-la como na juventude de outros tempos. Completavam-se como nos romances mais melodramáticos e, felizmente, não recorriam aos envenenamentos ou aos cortes das gargantas para poderem viver seu sentimento mútuo. Amam-se na materialidade da vida real dos problemas e das doenças.
No velório da esposa, tão triste quanto desolado, Pimpão ouviu as condolências dos amigos, da família, de todos que muito falavam, mas pouco conseguiam exprimir em suas palavras ofuscadas pelo constrangimento de não compreender a profundidade daquela sensação. A perda. O vazio que se projetava nos jantares solitários, no frio da cama de casal ocupada por um único corpo viúvo, já esfriado e gasto pelas mazelas do tempo, que leva a vivacidade de todos nós. Pimpão vivia agora sem saber exatamente como o fazia. Criou, no medo avassalador que tinha da morte e do câncer e, especialmente, da sua união, o vício de comer, por dia, três tomates crus. Assim agia por ouvir em algum lugar que o tomate era capaz de evitar o câncer. Nunca fora homem de crer nesses adágios descabidos proferidos por pessoas que nem ao menos sabem o significado de uma metástase. Entretanto, o medo nunca obedece a processos racionais.
Então, o pobre homem comia religiosamente os seus tomates como se fossem maçãs, mesmo detestando seu gosto insosso. Comia-os com o coração, e a ele o corpo invariavelmente se submete. Não fosse sua outra ocupação, a gaita furtiva adquirida ainda na adolescência, o homem há muito já teria enlouquecido. Pimpão sempre fora fascinado pelo som advindo do pequeno instrumento e só não tentara a sorte na vida artística por medo de falhar e infligir à sua grande paixão uma vida de privações e robustezas que não cabiam a uma mulher tão doce. Ocupou-se, sem maiores preocupações, do Direito. Sagrou-se, após arduamente persistir nos ofícios e nas petições das vidas alheias, desembargador e obteve êxito na tarefa de proporcionar a si e a sua esposa uma vida confortável. Todavia, a harmônica mantinha-se sua fiel companheira ao longo dos anos e agora era a única, a derradeira. Tocava-a por horas a fio, buscando aprimorar suas próprias composições e imaginando-se nos anos da juventude quando tocava numa banda de blues.
No entanto, não obstante as seguidas negativas de Pimpão, os amigos se apercebiam das mudanças em sua fisionomia, das olheiras aprofundadas do sono mal dormido, da barba mais espessa pelo descaso, da magreza da dieta dos tomates. Parecia a todos que o velho se preparava para morrer, e ele insistia que não, que a vida lhe causava o maior dos amores e não seria possível querer a morte enquanto em vida. Tentavam tirá-lo da monotonia da aposentadoria, da casa esvaziada e, concomitantemente, repleta de memórias perdizes e longínquas, que só trariam – de acordo com aqueles que não sofriam – a sofreguidão total. Mas Pimpão não queria ouvi-los. Gostava de inebriar-se dos tempos de outrora e das lembranças. Faziam-no, curiosamente, sentir-se vivo.
Após cinco anos do fatídico velório, Pimpão já era outro. Vivia dentro do possível. Sentia-se só, mas aos poucos aprendia a viver consigo. E com a gaita. Montara uma banda de blues novamente e reeditava os espetáculos de fundo de quintal de antes. Ficava exultante ao terminar uma canção e reconhecer-se naquilo que ouvia. Nessa nova existência, seu único problema era o espelho. Evitava o quanto podia admirá-lo, pois não conseguia identificar-se naquele reflexo disforme e infestado de rugas. A cada dia que mirava a imagem, tinha maior sensação de não saber quem era. Objetava contra si mesmo, confundia-se nas próprias lembranças e se esquecia dos nomes, do seu e de todos. O fato de não conseguir lembrar o nome da esposa Ida lhe causava náuseas moribundas e jurava nunca mais mirar outro espelho. Contudo, a curiosidade e o proibido sempre foram a ruína dos homens; e Pimpão não estava isento a isso.
Num desses dias em que se acorda mal, pois o sono não foi sono, foi algo entre o real e a fantasia, foi um passeio onírico pela existência, Pimpão jurou rever a esposa Ida. Ela era jovem e o chamava. Ele a avistou, tão linda e suave; queria tê-la novamente. Ao se aproximar, ela disse:
- Pimpão? Por que você usa essa máscara? Por que esconde o seu rosto?
Sem saber o que pensar, olhou ao redor e só pôde ver o reflexo de si, sem reconhecê-lo. Realmente, havia algo onde antes era sua face. Algo sem expressão, sem semblante, como um rosto liso, se isso for possível. Correu ao banheiro e trouxe consigo somente aquilo que lhe pertencia agora: a máscara, o tomate e a gaita. Lavou o rosto, fitou o espelho e, após deixar o tomate, a máscara e a gaita na pia, gritou para que todos ouvissem: “Pimpão morreu!”

Luciano Pádua

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Todo dia ao acordar, lavava o rosto, pegava sua gaita e um tomate na geladeira. Descia quatro andares de escada, entrava naquele apartamento e começava a tocar. Era mais que uma rotina, um ritual para começar o dia bem.
Trabalhava com arte. Dormia tarde. Vivia só. Acordar cedo, pegar o tomate e tocar gaita eram as únicas coisas que nunca deixava de fazer. Alguns trabalhos ele deixava para depois, algumas mulheres ele esquecia, alguns compromissos desmarcava, mas descer aqueles quatro andares ele nunca deixava de fazer.
Naquele apartamento morava um senhor. Solitário apenas recebia a visita deste estranho. Mal se conheciam. Mas se admiravam. Ele tocava muito bem, era um bom companheiro. Aquele senhor era sábio, um grande admirador e conhecedor de artes, também degustador de tomates.
- menino, você já foi a frança? Ver as artes?
- Não, senhor.
- Uma vez...
Menino e senhor, assim se referiam um ao outro, quanto traçavam um diálogo entre uma música e outra. A visita durava menos de uma hora, logo chegava a enfermeira do senhor, e o menino ficava envergonhado, voltava para casa pra fazer seu trabalho.
Certa manhã ele perdeu a hora. De súbito acordou. Nem lavou o rosto. Pegou o tomate, a gaita. Desceu correndo. A porta estava aberta. No sofá, aonde costumava tocar, uma bela menina chorava.Na cadeira de balanço uma coroa de flores com a mensagem “saudades eternas do pimpão”.Assustado ele subiu correndo de volta ao seu apartamento na esperança de se encontrar dormindo na cama. E tudo aquilo se tornaria um sonho.
Seu corpo não estava na cama. Era real. Começou a chorar e, desesperado, se escondeu atrás da mascara que estava confeccionando com o rosto daquele senhor, pretendia eternizá-lo. Já mais calmo foi ao banheiro realizar o inicio do seu ritual, como se aquilo fosse mudar tudo. Lavou o rosto, fitou o espelho e, após deixar o tomate, a máscara e a gaita na pia, gritou para que todos ouvissem: “Pimpão Morreu!!!”.

Débora Hutz

segunda-feira, 25 de maio de 2009

It´s show time!

As lembranças do salão cheio enchiam seus rostos de lágrimas, a nostalgia dos anos dourados revelavam uma decadência que os palhaços jamais imaginavam. Seus truques já não agradavam nem a pequenos bebês, a inocência sumira. O circo sumira. A nova onda do verão era a chamada "lona digital".
- Pimpão, lembra quando a gente subia ali na corda e ia andando e cantando, a plateia toda ensandecida e o anãozinho jogando banana...
- É, meu velho... careca de peruca não resiste a pé de vento - soltou um de seus ditados que ninguém compreendia muito bem. - Acabou, Tuiuiu. Já estou terminando meu curso de datilógrafo, tenho um futuro pela frente agora. Copiarei tudo que me mandam. Inventar já não serve.
Um misto de raiva e tristeza se deixavam ver nos olhos de Tuiuiu, ainda vestido de Carmem Miranda tirou uma das frutas da cabeça e começou a observá-la.

***

Lavou o rosto, fitou o espelho e, após deixar o tomate, a máscara e a gaita na pia, gritou para que todos ouvissem: "Pimpão morreu!!!".
A barulheira que se seguiu ensurdecia qualquer ruído, o circo parava o espetáculo no meio. A plateia começava a preparar seus tomates para arremessar, o anão tirava sua roupa de bailarina e já não mais tinha o sorriso no rosto, o elefante sentara em cima do cuspidor de fogo e a mulher barbada enfiara o rosto em suas próprias axilas na busca de consolo. Em meio ao alvoroço se seguiu um momento de silêncio completo, uma corda se desenrolava desde o cume da lona com algo preso em sua ponta. Quando esticou-se por inteiro o pano preto que envolvia a coisa se soltou e dele emergiu um corpo branco e sem vida, com cada uma das mãos presa a uma ponta da corda que se dividia em dois. Notava-se uma protuberância na garganta do morto e algo escrito em seu peito.
De dentro do camarim ouvia-se o início de um som de gaita sendo espalhando pelo ambiente, era a melodia de "Stand by me", o público se levantava e começava a cantar junto, uns sabiam a letra, outros apenas assoviavam. A atmosfera tomava um ar espiritual, pairava uma sintonia orquestrada, como num concerto longamente ensaiado.
Um baque surdo cortou o som, a corda havia rompido, o corpo estava no chão. Os cortes em seu peito formavam a frase "O show tem que continuar!", a boca aberta permitia que se visse a superfície de algo que estufava o pescoço de Pimpão, era um tomate. A plateia sentou, largaram seus tomates no chão e a música recomeçou.

***

- Quer uma água?
- Quero sim. Sem gelo.
Tuiuiu observava o palhaço tomando sua água com o rosto inocente, aquele aspecto infantil e leve dos bobos pintados. Quando o copo ficou vazio, ele disse:
- Desculpa, Pimpão. Mas antes me diga qual a sua maior vontade na vida? O que te faz continuar com esse sorriso e essa alegria de sempre no rosto?
- É o sorriso interno, meu caro. Essa paixão pelo que ainda não aconteceu, pelo que pode acontecer, por essa grande roda de possibilidades. As escolhas são meus instintos de graça. Sem elas eu perco a liberdade e tudo deixa de ser uma palhaçada. Vira concurso público...
Pimpão caía para o lado da cadeira, seus olhos revirados, a língua preta, marcada pelo veneno do arsênico.
Tuiuiu embrulhou o corpo, pôs a máscara no rosto e entrou na caminhonete rumando para o circo. No rádio BB king cantava, O palhaço acompanhava. As lágrimas escorriam pelo rosto e iam parar no banco, dois tomates.

***

A gaita cessou, a cantoria foi perdendo voz e ouviu-se outro grito: "Tuiuiu morreu!!!".
O corpo estava caído pelo camarim, a língua preta e um tomate na boca. Em sua mão um bilhete com apenas uma pequena frase: "It´s show time!".

Daniel de Lima Fraiha

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Frase da Semana: LAVOU O ROSTO, FITOU O ESPELHO E, APÓS DEIXAR O TOMATE, A MÁSCARA E A GAITA NA PIA, GRITOU PARA QUE TODOS OUVISSEM: "PIMPÃO MORREU!!!"

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Esperança

Eu esperava. A esperança sempre brilhou em mim. Faltava-me a paciência. Parada naquela esquina o tempo ia se arrastando, a paciência acabando. Estava sozinha. Para alguns uma opção. Para mim um destino.
Esperava por tanto tempo que já não sabia mais pelo quê. Talvez esperasse um milagre qualquer.
Marco meus encontros ali naquela mesma esquina há um ano. Na esperança de reencontrar o homem que uma vez vi passar. Homem que desejei. Desejei tanto que fiquei olhando esperando que ele me desejasse, quando finalmente ele sorriu para mim não pude esboçar um sorriso. Meu corpo parou, ele apenas me viu boquiaberta, parada, feito estátua com cocô de pombo (feia, branca e suja). Ele não passou novamente. Afinal o que eu pretendia ao vê-lo? Um pedido de casamento? Um novo sorriso, dessa vez retribuído?! O que eu esperava de um completo estranho?
Minha amiga estava atrasada meia hora, eu havia adiantado 15 minutos. Ela sem esperança. Eu esperava demais. Aquela longa espera me levou a observar pela primeira vez o que cercava aquela esquina. No poste havia o aviso: ”Procura-se um amor a primeira vista. Cuidado com o cão.”
Meus olhos se arregalaram. Cão? Aonde? Será feroz? Minha amiga buzinou, corri em direção ao carro cheia de medo. Nem sequer olhei para trás.
Já em casa sozinha é que parei para pensar na primeira frase. Passei dias e horas esperando aquele estranho, mas nada esperava dele se não um sorriso. Enquanto a minha vida estacionava naquela esquina, havia alguém em busca de viver. Eu sempre esperando, aquele estranho procurando. Nunca soube o que exatamente esperava. Mas a vida não iria até mim. Eu deveria ir ao encontro dela. Hoje vivo a procura, ainda não sei de quê. Porém, tenho esperança de encontrar.

Débora Hutz

Um metro e vinte, cinco anos

A primeira vez que te vi não me apaixonei por você, nem senti aquela atração fatal que faz meu coração palpitar e meu corpo suar frio, muito menos ansiei pelo seu toque suave e delicado.
A primeira vez que te vi com certeza não era você, era alguém, somente mais um alguém como tantos que encontro no meu dia-a-dia.
Da segunda vez que te vi você me cumprimentou com um oi, e achei que um sorriso meia boca já era o suficiente para agradar aquele ser que retornava ao meu caminho.
Na terceira vez, você me ignorou e foi assim que comecei a sentir vontade de te ver pela quarta vez...
Agora deitada em seu peito e envolta por seus braços sinto o pulsar de suas veias, as batidas de seu coração e finalmente te vejo pela primeira vez.
Fecho os olhos e vejo em minha mente meu cartaz ser retirado do poste.
Encontrei o amor que procurava.
Tomara que ele não acabe.
Mas se acabar, espero não esquecer de adicionar uma informação àquele cartaz que criei em mente como forma de alerta e reforço ao meu tão almejado objetivo. Nesse novo poste agora vai haver o aviso: “procura-se amor a primeira vista. Cuidado com o cão”.
Meu cão, hoje, se chama Joãozinho, tem um metro e vinte, cinco anos e nesse exato momento, como sempre, ta batendo na porta aos berros chamando seu bigbrother querido (como ele mesmo o apelidou carinhosamente) pra apertar a descarga do banheiro, e assim cortando totalmente o clima romântico que havia nessa linda manhã em que acordei aquecida pelo calor dos braços dele e de sua cama. Maldito irmão mais novo. Cadê a porcaria do biscrock pra fazer esse moleque ficar quieto?

Helena Bielinski Carvalho

sábado, 16 de maio de 2009

Exatas

Não se pode querer que se cruze do nada
Com alguém que um dia vai chamar de amor
Não existe isso. Amor é premeditado.
Quem tiver um caso em que não pensou
Apenas deixou que o acaso participasse
Que atire a primeira rosa desse encontro
O primeiro movimento involuntário
O primeiro beijo sem querer
Não há um poste com cartazes de ‘Amor à primeira vista’
‘Cuidado com o cão’, ‘Trago a pessoa amada em três dias’...
Eu realmente mudo de calçada
Dou risada desse grande amor que falam existir
É fácil amar assim. É o que mais tem por aí.
O acaso não existe, meninas não são mais inteligentes que meninos
Nem os têm nas mãos, como sempre imaginaram ter
Pare de olhar nos rostos estranhos querendo
Que se revele alguém que já teve
Que quer ter. É mentir pra si mesmo.
Calcule cada passo, cada palavra, cada gesto.
Aí sim, com tudo calculado
Tropece e se deixe ajudar
Esbarre e se deixe desculpar
Converse e se deixe levar
Deixe algo cair
O amor também é uma ciência exata.

Gustavo Lacombe

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Camembert

Era naquela esquina escura, uma noite nublada e silenciosa, em que ouviam-se apenas os miados dos gatos solitários pelos muros, que havia um aviso no poste: “Procura-se amor a primeira vista. Cuidado com o cão.”, um homem encostara no poste com o violão e tocava uma serenata em direção à janela em frente à banca. Nenhuma luz acesa.

***

- O senhor se considera culpado? - A voz do juiz era imponente, empostado como que uma ordem.
- Não. Me considero um artista. Poucos hão de compreender, meritíssimo, mas a arte da eternidade é algo pra quê o mundo ainda não está preparado. O senhor sabe qual a razão de uma sensação eterna? Não é matemática, jamais! É pura vontade, desejo de um auge doce, viril e sem palavras. Gasta-se o som com palavras demais, quando a respiração já se basta.
- Levem-no.
- Excelentíssimo. Eu avisei, “cuidado com o cão”. Foi um movimento voluntário. - Suas palavras soaram como uma ameaça. Não ao juiz, mas à sua razão, à sua crença no mundo. Talvez o desejo fosse real.

***

A sombra da porta ficou pra trás, desfazendo a silhueta e mostrando o rosto angelical, era uma menina, talvez vinte e um ou vinte e dois anos. Sua postura demonstrava a insegurança com que encarava aquele estranho.
- Entre...
- Obrigado. - A voz escapava, devia ser seu primeiro encontro às escuras. Mas não perdera a oportunidade de balançar a cintura enquanto passava pelo seu admirador.
Ele não sorria, sua expressão era inabalável, não tirava o olhar da janela, a vista para a lagoa lhe hipnotizava por alguns momentos. Entre taças de vinho e camembert a conversa mantinha um tom agradável, os dois iam se sentindo mais íntimos sem se deixar prender por falsos moralismos ou hipocrisias cotidianas.
- Você acredita?
- Em quê?
- Em você?
- Não... nem em ninguém.
- Nos olhos. São a única fonte de alguma coisa, brilham ou não, dizem o que querem, são sutis como esse camembert. Levemente aveludados por fora, cremosos por dentro, com um sabor forte que não se esconde, é sua quase amargura de experiência, sua forma de impor ao mundo o interior que nem todos gostariam de receber. Mas é caríssimo...
Das preliminares foram ao que lhes interessava, o desejo já suprimia qualquer palavra. Os corpos se debatiam em compasso desgovernado, os olhos não mais se mantinham abertos, os maxilares perdiam a força. As pernas dela lhe espremiam a cintura, as mãos lhe apertavam e arranhavam as costas sem qualquer repreensão, sentia a pulsação em todas as partes do corpo, enquanto ela arfava fortemente, numa respiração alta entremeada de gemidos alternados. Sentia o auge do tesão, podia ver no rosto dela que estava prestes ao orgasmo. Enquanto os olhos reviravam, sutilmente passou a mão por debaixo da cama pegando algo que não dava para ver no escuro. Em um segundo ouvia-se um gemido mais alto, ela gozara. Antes que o som pudesse ser emitido por completo, a lâmina cortara-lhe a garganta. O grito mudo. A expressão permanecia.
Ele saiu de cima do corpo, sentou na poltrona virada para a janela e, ainda nu, acendeu um cachimbo. Olhava o semblante dela petrificado, a boca entreaberta quase esboçando um sorriso, seus olhos brilhando intensamente, seu corpo extremamente relaxado, quase uma pintura. Conseguira eternizar o gozo, muito mais belo que a arte dos egípcios, não mumificava, eternizava o desejo irreprimível. O sangue já se espalhara por todo quarto. Só quando tocou seus pés é que se ouviu se urro de prazer. Agora sim chegara ao orgasmo.
Vestiu-se, pegou seu violão e desceu o elevador do prédio. Passando pelo porteiro, antes de sair, lhe perguntou:
- Severino, sabe qual a diferença da paixão pra razão?
- …
- A paixão é infantil, a razão é um velho safado. O meu grande pecado é sofrer desses dois males...
Andou em direção ao poste perto da banca, encostou-se e começou uma serenata em direção à sua janela. Apagada. Só seus olhos brilhavam.

Daniel de Lima Fraiha

Aranha Enrugada

Júlio e Púlio. Irmãos. Gêmeos. Vizinhos, companheiros no basquetebol, colegas de trabalho. Dia sim, dia também os dois acordavam na mesma hora, levantavam da cama pelo mesmo lado e tomavam o comunicador nas mãos. Dia sim, dia também. Se eram excêntricos? E não? Mas o comunicador era engenhoso. Uma lata de Sustagem, um fio de barbante puído e uma lata de óleo Lisa na outra ponta. Coisa que criança de dez anos nenhuma era capaz, sequer, de imaginar. Júlio e Púlio. Irmãos. Gêmeos.
O sonho de Júlio sempre foi encontrar uma esposa. Uma esposa que lhe lembrasse sua avó, velha e carcomida, mas com muito amor pra dar. Não é a toa que sua avó era conhecida como Aranha Enrugada nas ruas da parte baixa. Ele era romântico. Púlio não. Púlio era bravo, queria um cachorro. Feroz. Capaz de aniquilar em poucos segundos o filho do vizinho na próxima vez em que o retardado chutasse a maldita bola em seu portão recém pintado. O portão era como um filho para Púlio.
Júlio só comia salsichas temperadas por Púlio que, por sua vez, não comia nada. Ele acreditava que essas coisas industrializadas o faziam mal, artigos naturais para ele eram impregnados de agrotóxicos e não acreditava em orgânicos. Só tolerava a manteiga, e era só de que se alimentava. Dizem que uma vez chegou a quebrar o braço de um amigo lhe apresentou um pote de Qually em sua festa de aniverário de 39 anos. Ao ser questionado sobre o assunto, Púlio só bate o ombro e diz: “Mentira! Ele nem era meu amigo.”.
E numa segunda-feira suas vidas mudariam definitivamente – esse dia é lembrado e comemorado lá até hoje, é feriado na rua inteira, soltam-se balões e cantam-se canções de Agnaldo Rayol. Se encontraram no orelhão a meia distância da casa dos dois. Uniformizados, sapatos lustrados. Júlio usava o cabelo lambido para a direita, Púlio para a esquerda. Júlio sempre esteve mais na moda, era uma coisa dele. Tomaram o ônibus e caíram no sono ao passar pela terceira árvore depois da banca. Júlio acordou assustado, se debatia. Púlio se espantou com o estado do irmão e perguntou o que acontecera. Júlio, sem palavras, apontava os postes que passavam com sua mão molenga. "PROCURA-SE AMOR A PRIMEIRA VISTA. CUIDADO COM O CÃO" , era o que se via escrito em todos os postes da Avenida Tchubaruba. Os olhos de Púlio se encheram de lágrimas, seu queixo caiu e sua língua ficou dura. Teriam eles encontrado tudo que mais procuraram?
Sem pensar duas vezes saltaram do ônibus e correram ao poste mais próximo. Havia um telefone. 3451-8903-4031-1. Pensaram em ligar mas não tinham celular, nunca gostaram desse treco, podia matar se bateria explodisse na hora em que se falava. Será que eles atendiam ligação via fio de barbante puído? Era provável que não. Púlio puxou sua caneta e transcreveu o telefone para a testa de Júlio. Foram até o bar mais próximo para fazer a ligação. Antes, ligaram para o trabalho e se demitiram, aproveitaram para xingar o chefe, o Tatá, crápula. Feito isso se puseram a ligar para o telefone na testa de Júlio. Atenderam!
– Farmácia Dos Gritos, pois não?
– Eu queria saber sobre o cachorro, eu quero falar com o cachorro! - Disse Púlio, histérico.
– Cachorro é o seu pai, seu arrombado!
Júlio, desesperado arrancou o telefone da mão do irmão.
– Eu quero falar com a esposa! Me chama a esposa!
– A esposa é minha e você vai falar com o meu 38 seu filho de uma quenga! Não liguem mais pra cá ou eu mato vocês!
Se olharam, choraram por três minutos e meio. Púlio se agachou, Júlio subiu em sua garupa e se foram. Hoje em dia eles trabalham no bordel de sua avó. Em seus uniformes trazem a figura de uma aranha enrugada. Se são felizes? E não são? Todo ano, naquele dia o bordel fecha, soltam-se balões e cantam-se canções do Agnaldo Rayol. E eles gostam. Menos Júlio. Mas Púlio tá pouco se fudendo pro irmão.
André S.T de Virgiliis

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Frase da semana: NO POSTE HAVIA O AVISO "PROCURA-SE AMOR A PRIMEIRA VISTA. CUIDADO COM O CÃO".

Vamos ver no que que dá... a primeira semana foi bem interessante, surgiram varios efeitos e até um manifesto. Agora a gente fica mais pelo chão, mas ainda não pousamos totalmente. Acho que semana que vem será mais feliz para os admiradores de pés juntos. Por enquanto, continuemos o passeio.

Sendo franco

A ausência total de idéias, somada ao vácuo de atividades gerado por uma faculdade parcialmente interessante, fizeram com que eu viesse até aqui com somente um objetivo: ser franco. Não que seja a primeira vez, na verdade é uma coisa que adoro, porém hoje chegarei à idea, platonicamente falando, do que é ser franco. Me aprofundarei a tal ponto, que explicarei com fidelidade o meu raciocínio para tal proposta do blog. Antes de prosseguir, peço ao pequeno (talvez nulo) público leitor, que desfruta de minha seqüela, que perdoe a passada e futura metalingüística excessiva presente no texto (sim, foi uma piada idiota).
Ao ler o tema em questão, fiquei com vergonha (isso merece um parágrafo, por isso, rumo ao próximo).
Depois de passar por esse momento de pura introspecção de minh' alma, passei a refletir sobre o que seria feito dentro do contexto Resolvi decompor o meu plano de texto entre as palavras mais importantes da proposta. A que me chamou atenção primeiro foi mostarda. Logo imaginei aqueles sachês de podrão chinês, produzidos provavelmente por um índio escravizado nos confins do Brasil. Em seguida, lembrei do Coronel Mostarda daquele jogo maldito que ninguém achava graça, naquelas viagens chatas da fase pré-alcool da minha vida. Fiquei com vergonha de novo, e dessa vez foi por mim mesmo. Isso me fez passar para a próxima palavra, deixando isso de lado. Capitão é necessariamente insociável com mostarda, o próximo presidente letrado deveria decretar que essas duas palavras são antônimas. Foi então que, em meu momento de revolta e frustração por nenhuma esperança de contribuir com o blog, surge uma luz no breu da minha ignorância. A idéia mais racional que veio a mim, estava justamente na natureza dessa própria idéia: ser racional. Botaria um fim nesse movimento pseudo Dadá que perturbara minha mente nos últimos quarenta minutos e escreveria sobre a minha frustração em não atingir o feito dos últimos três amigos abaixo. É claro, como todo movimento revolucionário, revoltado, com sede de sangue, teria que quebrar com os moldes do modelo anterior. Eis o porque da falta da tão esperada frase nesse documento. O que estou fazendo aqui então? Você imaginou que isso iria chegar a algum lugar? Problema seu, só estou sendo franco.

Lucas Fonseca Djahjah
Nada de uniforme, nada de cabeça erguida, postura ou classe. O capitão daquele navio simplesmente não merecia esse título. Não havia nada de “ão”! Sua imagem se perdia em meio à tripulação e a única coisa que lhe assegurava o posto era o enorme anel dourado que apertava seu dedo indicador.
O capitão era apaixonado por álcool e avestruzes (não necessariamente juntos ou nessa ordem). Considerava a avestruz um animal guerreiro e símbolo de garra e determinação, pois durante a corrida não olha para trás nem desacelera facilmente.
A tripulação já havia se acostumado com a coleção de avestruzes que o capitão levava em todas as viagens. Eram doze aves bem respeitadas, com nomes próprios. Entravam em pares no navio (antes da tripulação), empinadinhas sobre um imenso tapete vermelho. Praticamente uma adaptação exótica da arca de Noé.
Na última viagem de exploração o capitão estava com sorte! O céu estava limpo, a entrada das avestruzes tinha sido emocionante e a tripulação estava animada. Além disso, o motivo da viagem se concretizou: pela primeira vez o capitão encontrou uma ilha realmente inabitada com uma natureza exuberante!
Quando avistou a enorme mancha verde flutuante, sem desviar os olhos, ordenou que a velocidade fosse aumentada imediatamente! Queria navegar como uma avestruz determinada! Quando se deu conta estava com os olhos espremidos e imitava asas com seus braços gorduchos. Imaginou uma vida perfeita correndo com as avestruzes entre as árvores...
O navio finalmente parou. O capitão olhou para a tripulação do navio e gritou em alto brado:
- Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda por todos os canhões já!
- Mostarda, Capitão?
- Sim! Mostarda! Espalhem por todos eles e esperem secar. Vamos inutilizá-los já! Não quero mais canhões... Na verdade, não quero mais saber de navio, nem desse anel! Vou viver aqui com minhas preciosas.

(A cena do capitão chegando com as avestruzes na ilha é tosca demais para ser narrada).

Sarah David de Macedo

terça-feira, 12 de maio de 2009

A lenda do Octopus Bones

Fazia tempo que os piratas daquele navio eram conhecidos como os principais responsáveis pelo tráfico de avestruzes entre África e Europa. Suas aventuras eram lendárias e suas histórias eram contadas e recontadas pelos Sete Mares. Muitos achavam que o navio apelidado por seus tripulantes de Octopus Bones era “protegido” por algum tipo de maldição que dava a ele o poder de desaparecer em alto-mar. Aparentemente não havia nenhuma outra explicação que não essa, para explicar porque nenhum navio da Marinha conseguia localizar o Octopus ou sequer traçar sua rota de pirataria.
Nada se conhecia sobre o navio pirata, apenas que seu misterioso capitão se chamava Mothersbaugh Crook .O desconhecimento de qualquer informação sobre a embarcação corsária e as incessantes e frustradas ações do Rei e dos outros membros da Monarquia para capturá-la, começou a irritar o almirante da Companhia Inglesa de Comércio que, a partir de certo momento, começou a passar seus dias montando estratégias e emboscadas; e suas noites sonhando com a gloriosa apreensão do navio e quem sabe, a tortura de seus sombrios tripulantes.
Dizem as más línguas que essa cisma do almirante começou bem antes disso, logo que ele ouviu falar sobre os roubos bem sucedidos do capitão Crook e passou a sofrer de certo “complexo de inferioridade”. Não se pode confirmar essa história, mas é o que o povo diz. E a voz povo...
Não importa. O ponto principal da história é que depois de anos e anos montando uma esquadra e fazendo buscas intermináveis, os marinheiros da Companhia, orientados por seu incansável almirante, avistaram o Octopus bones parado em um porto isolado.Dizem que os piratas pararam para comemorar a venda de uma quantidade enorme de avestruzes, e a pilhagem de um navio de médio porte. A vila onde o navio atracou era bem pequena. O lugar era conhecido por suas noites apimentadas e por suas mulheres desinibidas. Ao que parece, as incontáveis doses de bebidas fizeram com que os famosos corsários esquecessem de zarpar.Porém, um pirata que cochilava no píer, ao lado do navio, ouviu um barulho e percebeu a chegada das embarcações inglesas. Alguns botes do navio do almirante já tinham sido lançados ao mar, e navegavam vagarosamente na tentativa de invadir a embarcação pirata.Os piratas, avisados por seu companheiro, voltaram correndo a seus postos. O capitão de maneira preguiçosa e despreocupada ordenou que ativassem os canhões.
Os botes foram bombardeados e pouquíssimos marinheiros conseguiram escapar. Parte do sucesso se deveu às incomuns balas de canhão.Mesmo quando não atingiam um alvo , soltavam uma espécie de gás espesso que se espalhava pelo ar e cegava momentaneamente todos que estavam por perto.O gás tinha uma cor estranha, um cheiro podre. Especulou-se sobre a possibilidade de ser uma arma mágica, mas o almirante, que assistia o massacre de longe, ficou intrigado. Essa passou a ser a nova causa de sua insônia. Que arma nova era essa? Seria o navio realmente protegido por feitiçaria? Magia negra?Será que era impossível destruí-lo?
Semanas se passaram e o almirante ordenou que a tripulação (reforçada com mais homens) ficasse de “tocaia” no porto esperando a volta do lendário Octopus Bones. A maioria de sua equipe reclamou. Não queriam ficar longe de suas famílias ,nem atender as ordens obsessivas e desequilibradas de seu superior. Sem escolha, acataram.
Um mês de espera até que o retorno dos tão esperados inimigos aconteceu. Os tripulantes da Companhia já fatigados, atacaram o navio por todos os lados.Eram muitos.Mais de 300.O almirante foi junto dessa vez.Precisava entrar naquele navio e finalmente, encarar seu oponente. Entretanto, deixou-se levar pela obsessão e se escondeu para tentar descobrir os segredos do navio pirata. Mothersbaugh Crook era astuto, mas não notou seu inimigo se esgueirando, pois nunca imaginara tamanha covardia.
Percebendo que a derrota não seria tão fácil o capitão olhou para a tripulação do navio e ordenou: “Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda pelos canhões já”.
Embora a Marinha desconhecesse esse fato, os próprios piratas treinavam as avestruzes para que fossem vendidas como animais de rinha. Elas cumpriram seu papel e seguiram seu treinamento. Atacaram os marinheiros sem dó.
Os canhões, voltados para os botes ingleses, começaram a lançar suas balas misteriosas. As avestruzes corriam soltas pelo convés, espalhando grande caos entre os combatentes. Assistindo seus comandados morrerem a própria sorte, o almirante arregalou os olhos e se aproximou de um barril a seu lado. Mostarda. Mal podia acreditar no que vira. As palavras de Mothersbaugh ecoavam em sua cabeça. “Espalhem a mostarda”. No mar, corpos de marinheiros, piratas e avestruzes. A batalha havia acabado. Passou o dedo no barril e o levou a boca. “Mostarda”. Genial. “Espalhem a mostarda pelos canhões já!”. O condimento junto com a pólvora formava um gás que cegava os inimigos. O almirante inglês, indiferente ao que se passava, abriu um enorme sorriso de satisfação.Tinha descoberto um dos mistérios do navio inimigo.
Octopus Bones triunfara sobre a Marinha . O mesmo mar que engoliu os destroços da embarcação inglesa, agora guiava o navio pirata ao seu destino desconhecido.
Ninguém sabe o que aconteceu ao enlouquecido almirante. Mas segundo rumores, poucos meses depois se registra a invenção do gás mostarda, em uma cidade portuária da França, por um marinheiro desconhecido, esquelético e maltrapilho.

Maria Clara Senra (com participação de Daniel S.)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mostarda Alemã

Meio que de repente, de dentro de um arbusto, saltou um avestruz do tamanho de um coqueiro anão, gritando a língua das avestruzes, que só elas próprias e as crianças entendem, e fazendo um rebuliço, que não fosse pelos gambitinhos rosas, poderia ser uma paródia do lago dos cisnes.
Olha mamãe, parece com você! - Disse inocentemente o pequeno que se agitava de animação com a descoberta de um novo mundo.
A mãe, tadinha, parecia mesmo... e como era de se esperar, esmurrou seu filho sem pestanejar, mas não imaginava o que lhe cabia logo após. A cena que se seguiu jamais poderia ser esquecida. Com um giro magistral e desenhado, a avestruz (já havia-se descoberto que era fêmea) tascou uma bicada lacônica na jugular da madame mamãe, sem lhe dar chance de vida para contar história. O menino passou a ser criado pela avestruz, que sempre se ocupou da melhor forma em criá-lo bem. Cresceu tendo bons estudos, sempre muito ligado à família, era o único na face da terra capaz de se comunicar com as avestruzes (sem contar as crianças, claro. Mas estas depois esqueciam e achavam que tudo não passara de ilusão e inocência infantil). Os almoços de fim de semana eram regados a frango à passarinho, especialidade da classe que tinha orgulho de dizer que não provinha dos galináceos, apesar de algumas controvérsias.
Com o tempo, o garoto foi se tornando bem sucedido em seus negócios e ganhando respeito no mercado de ovos. Sua família produzia e ele os comerciava. Um ovo de avestruz não saia por menos de dez moedas de prata. E o de sua linhagem girava em torno de vinte, tamanha era a qualidade de sua clara. O garoto que virara comerciante se deparava com um mundo de possibilidades, até certo dia... quando conheceu uma garota, humana. Seria a primeira de sua vida. Sua família não foi tão condescendente quanto ele esperava. Não aceitavam de jeito nenhum aquela gente que fedia a colônia de terceira, aquela espécie que cismavam em criar cabelos distintos, cada vez mais se assemelhando a catatuas e calopsitas, inimigas mortais das avestruzes. Não, tudo menos isso, uma humana jamais. O que havia de errado na capivara que haviam lhe apresentado verão passado, todos acharam que os dias que passaram juntos à beira do rio tinham lhe marcado...
O Homem entrou em surto, gastou todas suas finanças em um navio e levou sua família toda para uma viagem pelos sete mares. Seria ele o capitão e a mulher, que se chamava Marilu, seria sua concubina. Quando souberam o nome da humana o rebuliço foi maior ainda, não aguentariam muito tempo vendo Marilu botando ovos pela cloaca. Ah, quase esquecia, ela era humana, mas possuía essa peculiaridade, sua qualidade de mamífero havia sido transmutada e, após um consumo exagerado de transgênicos, começara a pôr ovos.
Depois de um mês e meio no navio, todos mareados e já meio desbotados pelo sol, a desordem reinava, todos se odiavam e, a cada parada, havia novas reclamações da comida que ele trazia para dentro do flutuante. Depois de todo esse imbróglio familiar e amoroso, Marilu dava sinais de que sua cloaca estava fraquejando, ameaçava a começar a colocar ovos pelo …
Não! Isso nunca! - gritou o capitão – Ela é uma mulher de respeito, vem de uma família fina!- Foi então que ordenou em alto brado – Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda pelos canhões já! - Era uma receita antiga que sua família lhe ensinara para fortificar os ovos, mostarda espalhada em objetos bélicos.
Não só Marilu ficou encarregada de limpar os canhões até se sentir saciada, a família inteira aproveitara para encher um pouco o pandulho e se deliciar com o famoso “canon à la moutarde” que não era feito desde que vovó Bolena perdera a cabeça. Ao final da orgia gastronômica todos haviam caído para os lados, semi-mortos, restando apenas o capitão em pé e saudável. Seu espanto e pavor eram imedidos, seu semblante agora lembrava algo entre um pinguim e um rinoceronte no cio. Conseguia distinguir um único movimento no meio do pré-cemitério, era sua mãe que apontava para o livro de receitas e sibilava em tom derradeiro, apontando para a sessão “venenos”, ”Era mostarda alemã...”.

Daniel de Lima Fraiha

Pois é...

“Pois é...”. Será que existe expressão alguma que signifique tanto? Acho que não. “Pois é” para uma concordância, “pois é” para um fato triste, “pois é” para a mudança na ordem de coisas que se sucedem, para uma vicissitude. A quebra na rotina diz mais do que deixar de fazer algo antes feito ou passar a fazer novidades, ela mostra a imprevisibilidade e a surpresa pelas quais as atitudes viris do “eu” podem passar. Tratam-se da aceitação e execução das vontades que o interior de cada um, constantemente, esconde. Etiqueta, postura, modos, exemplo de boa educação – a meu ver, altamente relativo - : não sou contra a criação de tais fatores e/ou invenções que regem a convivência, no entanto desvirtuo o meu pensamento e canalizo meus esforços para a flexibilidade, para a coerência em ser incoerente e para a moderada desordem, fator sem o qual fatos e fenômenos brilhantes e precisamente bem organizados não aconteceriam. – Tem noção, por exemplo, de qual é a ordem de grandeza relacionada às sinapses nervosas que ocorrem em, praticamente, meia dúzia de milissegundos para que haja um simples movimento muscular? Vai dizer-me que a troca de substâncias e componentes entre os milhões de neurônios nesse ‘significativo’ intervalo de tempo é algo considerado organizado? E o resultado? A movimentação não é algo espetacular?!–
Pois é... Aceita ou não, a explosão de sentimentos por uma vida, temporalmente falando, guardada há de acontecer, há de querer acontecer... AHHHHHHHHHH! Pronto, aconteceu. Gritei. Coisa que, há mais de meia hora, queria fazer, mas não podia pelo simples fato de a secretária do lar de minha casa estar presente e, portanto, possivelmente passar a ter medo de minha pessoa. Não me importo se ela me acha maluco, mas é que gosto da amizade dela.
Em se tratando dessas coisas controladas pelo lóbulo pré-frontal do cérebro – leiam-se: emoções -, existe uma estória de um feito pirata que se adequa bem a esse descontrole (ou seria ‘melhor controle’?) em que a explosão de sentimentos se baseia. Nunca é demais alongarmos os pensamentos a mais um ponto, reunindo, portanto, intelectualmente, os diferentes pontos de vista que a vida pode mostrar e aprendendo como é importante o respeito pelo gosto daquilo que é diferente. Dessa forma...
Era um dia de sol, logo depois de uma semana conturbada oriunda da então aparente batalha incessante entre duas linhagens piratas. O navio dos piratas vencedores encontrava-se em festa, farto de comidas, metais preciosos, e com uma parada já marcada às 12:00, no porto de Saint Louis, Inglaterra. A intenção de atracar-se no porto inglês era objetiva: encher a nau de prostitutas para a satisfação geral da tripulação. Após um dia de constante orgia entre a proa e a popa do navio, passando por seu interior e pelos lugares mais inóspitos, o comandante, largando a postura que a ele era conveniente apenas por seu cargo, levantou, apenas de ciroulas, e convidou que não só a tripulação pirata, bem como as madamas que vendiam seus corpos ao sabor da maré, fizessem algo por ele sempre sonhado. Não querendo machucar os animais presentes na embarcação por conta da exorbitante quantidade alimentícia presente, "O capitão olhou para a tripulação do navio e ordenou em alto brado, "Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda por todos os canhões já!". Foi então que os brutos rapazes, as moças e o comandante começaram, como se fossem crianças, uma brincadeira que lhes rendera gargalhadas como há anos não era possível. Uns sujavam aos outros. As mulheres não mais se sentiam na obrigação de terminar um trabalho a elas designado, mas sim de aproveitar um momento tão agradável, porém, moralmente, vilipendiado.
“Pois é...” aos preceitos morais. “Pois é” à felicidade sem fim. Será que existe expressão alguma que signifique tanto?
Felipe Reis