terça-feira, 15 de setembro de 2009

Bagre

- É um bagre?
- Acho que é um peixe-boi.
- Não, seu bobo, o bagre quando se assusta, infla. O peixe-boi é enorme.
- Sei lá. Sempre detestei história.
- É, eu também.

O peixe balançava dando alguns sobressaltos, quicando no gramado que refletia o sol. O parque estava cheio e as mães aproveitavam para passear com seus carrinhos de bebê, desfilando com pompa cheias de orgulho dos babadinhos e outras besteiras que as mães novas adoram. O rapaz vestia um macacão e a menina um vestido florido, os dois estavam vermelhos, queimados pelo sol forte dos últimos dias. Com um pequeno detalhe para as manchas de graxa no rosto dele.
Enquanto conversavam, os olhos dele de segundos em segundos encontravam o decote do vestido dela. Os olhos voltavam para cima e ela lhe sorria, com uma docilidade ligeiramente safada.

- Sabia que os bagres são poligâmicos? Mas só as mulheres. Eles formam um bando e uma mulher sozinha toma conta de pelo menos cinco.
- Que besteira. Por isso que ele fica assim quando se assusta?
- É.
- Mas que burros, não sabem que mulher tem que obedecer.
- É.

De repente o bagre começou a esvaziar e suas feições foram se restabelecendo. Ao voltar a forma de peixe comum, incrivelmente ainda vivo, se endireitou e sentou ao lado do casal.

- Esse cara é meio idiota, você me perdoe, mocinha, mas é.
- É.
- Quê? eu sou idiota e você fala?
- Vamos pular essa parte, tá...
- É.
- Rapaz, fique quieto um minuto enquanto eu converso com a moça. - completou o bagre enquanto entregava um pequeno melão para que o homem de macacão se ocupasse.

- Fêmea, eu não gosto de gente, não gosto de vocês, mas a sua ignorância já tem me torturado demais. O negócio é que vocês quando olharam pras árvores, viram a quantidade de frutas em cima e acharam que o tronco era importante. Burrice de leigos.
- Você é um bagre poeta?
- Não, só não sou humano, nem idiota. Perdão pela redundância. Mas continuando. As fêmeas tem em si uma quantidade maior de possibilidades que o homem, se é que você me entende. Além de uma visão superior, um olho que sabe desdenhar sem sequer piscar e uma infinidade de guelras.
- Guelras?
- É. deixa... mas eu vou apresentar pra vocês a novidade de um mundo amplo, a possibilidade de ser um animal sábio.

***

Algumas horas se passaram, o triângulo amoroso era inusitado, mas com a taxa de animais de estimação o motel permitiu a entrada do rapaz de macacão. Enquanto terminavam de assistir ao reprise de teletubies, que custava uma fortuna a mais para ser disponibilizado no quarto, o bagre fumava um charuto na janela.

- Vocês são fraquíssimos.

Os dois que estavam estatelados, com olhares perdidos, entre devaneios e fascinação, se limitaram a assentir com a cabeça em tom submisso. O bagre voltou para junto dos dois, se sentou no meio e começou um discurso sobre a relatividade do universo, a efemeridade da vida e a delícia que é o sexo, ainda mais quando inter-espécies.

- O sexo, como gostam de escrever por ai, é a "consumação física de uma vontade espiritual". Às vezes é uma consumação física de um desejo carnal. E na maioria das vezes é um foda boa pra caralho. - Terminou desconcertando o casal.

O rapaz, que até ali ficara quieto, tentava aprender com as palavras de tão sábia entidade.

- Muito bonito, doutor. Eu só sabia dessa última parte. - Comentou em tom de agradecimento o do macacão. - mas agora eu quero minha mulher de volta. Só pra mim.

- É normal. Esse povo tenta provar que um animal pertence ao outro, vocês não pegam a música da coisa. Já noto a indignação, esse medo idiota, reprimam-se! Daqui a pouco você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar a minha orelha! - disse um segundo antes de se jogar pela janela, cruzar a rua correndo e pegar um táxi, fugindo sem deixar vestígios.

- Como ele sabia que eu era mecânico?
- Sei lá, nunca fui boa em história.

Daniel Fraiha

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