- Pára de escrever!
- Por quê?
- Porque sim! Estou pensando.
- Você não pode pensar enquanto eu escrevo?
- Não!
- ...- Pára de resmungar aí e presta atenção: “Monocéfalo; diz-se do monstro que tem uma cabeça única e duplicações variáveis no corpo.”
Silêncio.
- É pra escrever isso?
- Não!
- Pra que serve isso então?
- Pra você ouvir! Não é legal?
Silêncio.
- Bem, se você não acha legal, eu acho!
- Ótimo, bom pra você! Podemos continuar?
- Podemos! Continua aí: “Era monocéfala. Horren...”
- Era o que?
- Monocéfala!
Silêncio.
- Você ainda lembra o que a gente está fazendo?
- Claro! Por quê?
- Nada. Talvez porque tenha ficado meio estranho.
- Claro que não. Mostra exatamente o que temos que mostrar! Lê aí.
- “Bianca usava um lindo vestido rosa com babados. Sentava docemente sobre a toalha de piquenique com a família no parque de gramado verde. Nos braços, sua bonequinha de pano era monocéfala.”
- Então...
- Muito romântico!
- Eu acho!
- Você acha? Temos que escrever um conto romântico, não um roteiro do Tarantino!
- Ora, e é exatamente o que estamos fazendo! Você conhece “O Corcunda de Notre Dame”?
- Conheço. E até onde eu sei, ele não se chama “O Monocéfalo de Notre Dame”!!!
- Não, seu burro! Não é isso. Ele é o grotesco.
- Que nem nossa boneca agora! Antes era “delicada”, agora é “monocéfala”. Que sutil mudança, não?
- Temos agora que achar algo sublime.
- Hmmm, difícil. Mas que tal o adjetivo “delicada”?
- Ta bem, então! Você não acha aconselhável deixar assim?
- Sim, não acho aconselhável deixar assim!
- Então muda.
Silêncio.
-Como, mudar?
- Muda, oras. Você não acha ruim?
- Sim. Monocéfalo é horroroso.
- Então troca!
- Eu não sei trocar!
- Como não sabe?
- Não sabendo, oras. Troca você.
- Ta. Coloca monoclina!
Silêncio.
- “... sua bonequinha de pano era monoclina”?
- Sim!
- Que quer dizer isso?
- Hermafrodita!
Silêncio.
- Por que raios a menina de vestido rosa com babados sentada no parque de gramados verdes teria uma boneca de pano hermafrodita?!?!?!?!
- Porque precisamos usar “monoclina”!
- Quem disse?
- Eu disse! O texto é meu, certo?
- Errado. O texto é nosso!
- Sim, mas a mudança é minha, certo?
- Sim, certo, mas...
- Ótimo! Então fica assim!
- Olha. Vamos trocar uma idéia.
- Está bem. Te dou uma chance. Escolhe. A bonequinha pode ser monoclina ou monodonte!
- E isso seria...
- Hermafrodita ou com um dente só!
Silêncio.
- Seu texto, né. Escolhe você.
- Você está aqui pra me ajudar ou não? Não entendo!
- Eu estou aqui pra ajudar, mas tinha entendido que escreveríamos um conto infantil romântico, não um terror adulto macabro.
- Não é macabro!
- Ah, não, imagina! Simpsons que é!
- Isso, boa!
- Boa o que?
- Boa idéia! Escreve aí. “... era monoclina e amarela. Horrenda, contrastando com a beleza sublime da pequena menina.” Temos nosso sublime!
- Temos nosso sublime? Temos um desastre, isso sim!
- Ah, você não entende de romantismo! Vá ler Vitor Hugo e Álvares de Azevedo e volta pra falar comigo!
- E Stephen King?
- Ai, seu ridículo!
- Ei, onde você vai?
- Embora! Acaba sozinho!
- Não! Volta aqui! Desculpa vai. Eu não falo mais nada.
- Você vai me contra-dizer?
- Não.
- Você vai me sacanear?
- Não.
- Você vai fazer o que eu mandar?
- Não.
- Não?!
- Não, quer dizer, sim. Sim, sim, sim!
- Ótimo! Eu quero uma massagem então!
Silêncio.
- Quer um suco também?
- Ai, grosso! Tchau!
- Não, não, não... Ta bom, eu faço massagem! É o que me faltava!!
- O que você disse?
- Eu? Que adoro fazer massagens! Mas você vai ter que escrever!
- Tudo bem!
- Continu...
- Ai!!!!!! Seu brutamontes! Mais leve.
- Desculpa!
- Bem, vamos lá... Vamos só acabar esse parágrafo pra ir co... O que você está fazendo?
- Sua orelha está muito tensa.
- Para de palhaçada! Tensa vai ficar a sua daqui a pouco!
- Ahhh, ta bom, eu paro! Ingrata!
- Vamos lá. “... era monoclina e amarela. Horren”...
- Por que não trocamos monoclina por hermafrodita mesmo?
- Porque não! E pára de mexer na minha orelha. Só no ombro, por favor!
- Mas monoclina é muito estranho.
- Então tem outras opções que eu anotei aqui. Ai, está muito forte! Isso, melhor. Olha só as opções: monocolpada, monoftalma ou monoplégica.
Silêncio.
- Por que a fascinação com esse prefixo tão abrangente?
- Ah, porque eu gosto! Coisa de menina, sei lá. Pode ser “patibular” também.
- Não quero nem saber o que significa...
- O que?
- Nada. Qual você quer então?
- Gosto de monoftalma.
- Eu prefiro monocolpada.
- Mas monoplégica também é bom!
- Eu prefiro monocolpada.
- É, monoplégica é bem melhor!
- Coloca monocolpada, é mais legal!
- Vai ser monoplégica então! O que você acha?
Silêncio.
- Acho ótimo!
- Beleza, então. Pode fazer um pouco mais forte. Esse lado está bem tenso, está vendo?
- Aham..................
- Então ta. “... era monoplégica e amarela. Horren”... Solta minha orelha! Por que faz isso?
- Pra me divertir um pouco!
- Eu não gosto!
- Eu sei, isso que é divertido!
- Pára! Eu tenho namorado ta?
- Ahh, isso é um problema? Você é mononamorada?
- Solta minha orelha!!! Já disse!
- Solta minha orelha!!! Já disse!
- Não me imita!
- Não me imita!
- Eu vou te bater!
- Eu vou te bater!
- É sério! Páááááraaa!
- É sério! Pááá...
Soco.
Tapa.
Chute.
- Eu avisei!
- Ai, ai. Doeu muito esse monosoco. Meu monobraço está doendo!
- Pára! Ai, que saco! Dá licença que eu vou terminar o NOSSO trabalho.
- Ah, agora ele é nosso?
- Ele sempre foi nosso!
- Ahh sim. Por mim ele seria monossilábico. Já virou uma monografia isso!
- Reclama, reclama mesmo senhorzinho. Vai ver se seu mononome vai estar na capa!
- Capa ou monocapa?
- Ai, seu ridículo! Pára com isso, não quero mais massagem!
- Eu não estou fazendo massagem! É monomassagem!
- Pára, seu ridículo. Eu tenho namorado! Me respeita!
- Ah, não tem problema, eu não sou monogâmico! E estar contigo é a melhor traição, meu amor!
- Quem escuta você pensa que você fala sério!
- Mas eu falo sério! Você é minha vida! Quer dizer, minha monovida, minha monógama, monóbela! Linda!
- Ai, você é ridículo. Deixa eu acabar isso aqui logo, seu chato! E prometo que, se depender de mim, em alguns minutos você volta a ser monogâmico, E AGORA PÁRA DE ALISAR MINHA ORELHA!!!! Ai, insuportável! Tchau.
- Ei, onde você vai?
Porta.
Risos.
- Me espera, também quero biscoito!
Porta.
Bernardo Schlegel
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
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depois eu que sou maluco...
ResponderExcluirhahahaha
ta genial, cara. papo de latrocinio culposo e o gará.
achei muito manero, ainda mais porque ficou no estilo teatro. nao consigo mto escrever assim, mas me amarro.