sexta-feira, 10 de julho de 2009

A Pilha e as Vidas

— Você está bem?
— Estou...
— Não senti muita segurança... eu quis dizer, está bem em relação a ela?

Lá vinha aquela víbora travestida de psicóloga, sempre querendo que eu tivesse recaídas... O bem dela é o meu mal, seu emprego depende da minha loucura. Somos a antítese um do outro.
Num rádio qualquer, ou pode ter sido uma alucinação, é recorrente nos que estão no meu estado, ecoava o som de um paraíba cantando: “E o vinho carregado de saudades vem correr na minha veia...”
É, eu acho que ainda sinto falta dela...
Eu e Hendrix.

—Não...

***

Tudo começou quando... HAHAHAHAHA!
Perdão pelos meus devaneios, mas é que têm uns “lugares comuns” nos nossos pensamentos que são ridículos. Encontrar a genealogia de tudo é um deles. Veja Freud e seu Édipo que tudo explica a partir da infância; Ou pior, lembremo-nos dos pré-socráticos, buscando a ‘Arché’ de tudo. Não conseguimos lidar bem com a ausência de princípio. Nem tudo tem um início. Temos que entender que a vida é como uma Durex: têm horas que não sabemos onde está a sua ponta, e quando enfim encontramos e tentamos puxá-la, partimo-a ao meio. É tudo uma coisa só. Não há princípio, nem fim, só meio. Só meios...

A verdade é que isso nunca começou, por assim dizer. Estava presente na minha vida desde o começo. Desde lá eu era tentado com tudo que viciava: o leite materno, o carinho, a coca-cola e em seguida a cerveja e o cigarro. Todos eles vícios bons, sociais. Mas depois veio a maconha e em seguida Ela. A Cocaína.

E a culpa é sempre da maconha, a porta de todos os males. A culpa mesmo é dessa porra dessa nossa necessidade de se viciar. Só mudam os vícios.

Se pararmos para pensar, a culpa é do leite materno.

Mas isso não faz mais diferença. Já viu clínica de reabilitação pra bebês que querem mamar a toda hora? Para viciados em coca-cola? Não...só têm para mim, O viciado...

Éramos oito. Oito no mesmo apartamento. Amigos, sobretudo, mas amigos que não ligavam uns para os outros. Éramos apenas na hora da divisão da “pilha”. Naquele grupo todos sabiam o que significava aquele eufemismo. Pilha era aquele néctar branco que invadia nossas narinas, chegando rapidamente ao Sistema Nervoso Central, fazendo-nos sentir vivos. Era uma troca fáustica. Aquele pó era nosso Mefistófiles, dava-nos vida em troca de nossa existência. Trocávamos nossa vida real por uma vida sintética, muito mais agradável. Mas a vida real logo se esgota, e o doce pólen não cessa de cobrar sua conta...

Chegou então o ponto que minha vida se esgotara. Era um morto vivo sem meu combustível. Buscava dinheiro a qualquer custo para conseguir mais pilha.
Junto com minha vida, minha conta corrente foi consumida também. Até a hora que fiquei sem dinheiro, sem pilha, sem vida, sem nada....
O tempo passava, e a esperança de que o dinheiro brotaria na conta ia desaparecendo junto com meu animo. Meu e dos meus sete companheiros. Foram dois dias até o grupo se desagregar.
Agora eu era sozinho. Estava sem pilha, mas a conta continuava zerada. Desespero. Na verdade, eu não sei o que eu sentia. Chega uma hora que a gente deixa de pensar. Deixa de sentir. Deixa de existir.
Caído no quarto, vazio, e quando digo vazio me refiro ao quarto e a mim, ouvia em algum lugar um blues que dizia “Definitely I’d throw my drugs away if I found a cure for pain.”. Afinal, aquela dor vinha antes ou depois da droga? Existe uma cura para a dor? Até que ponto o problema não era eu, antes mesmo de entrar nessa?

De que adianta a reabilitação agora? O fio que me ligava à vida já está roto. Apenas Ela me prende. Me prendia.

(Carta de um suicida numa clínica de reabilitação. Mais que se despedir, ele queria se entender.).


Caio Cabral

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