domingo, 28 de junho de 2009

Voz

Jorge tinha nascido cantor, vivido cantor e morrido pobre. sem grandes adjetivos ou capas de jornais. sua música nascera do chuveiro e morrera nos ouvidos dos frequentadores de karaokê que rodeavam Nova Iguaçu. Era ali, num bar caído, na esquina entre uma rua chamada "Elvis Presley" e outra chamada "Não Morreu", que ele tinha sua glória no fim do dia.
De manhã era aquela coisa toda, fazer barba, tomar banho, comer pão com ovo, virar a cueca de ontem do lado avesso pra economizar água e sair pra procurar ferro velho. Mas se intitulava cantor sempre que lhe perguntavam o ofício. Era bem otimista.
- Seu moço... que que tem hoje pra mim? - perguntava nas portas de sempre onde ia procurar entulhos que lhe pudessem render algum trocado.
- Ô, meu filho... tem um microfone do videokê antigo que quebrou. pode ficar...
Os olhos de jorge não nunca tinham brilhado tanto na vida como naquele momento (quando cantava, fechava os olhos), parecia ter achado o maior tesouro perdido da história. Sua baba escorria levemente pelo canto esquerdo da boca enquanto apreciava o novo aparelho, suas orelhas de abano balançavam como o rabo de um cachorro alegre. Seus ombros pareciam estar em descompasso, tremendo para os lados. Era quase um transe o estado em que se encontrava.
- Muito obrigado, seu moço! Eu te amo!!! Eu te amo!!!
- Que é isso, rapaz, não é pra tanto... vá indo, vá indo.
Saiu dali saltitando e cantarolando "oh happy day!", na versão brasileira.
Passou o dia consertando o microfone, pedindo ajuda a seus vizinhos que entendiam de eletrônica e todos que estivessem ao seu alcance. E, por volta das sete, o aparelho funcionou.

***

- Você fez o que eu mandei?
- Aham, sem o menor sinal de dúvida. Instalei o controle no microfone. Ainda deixei com um problema simples, ele não ia precisar abrir o aparelho pra consertar, foi coisa de fio. Quando ele soltar a voz, o dispositivo vai ativar a contagem para a explosão, e aí, chefia... daqui há uns meses, quando a poeria baixar, o senhor vai ter toda a encosta só pra você, sem favela nem essa imundice daí.
- Maravilha, Jou.

***

Às nove horas da noite estavam todas as cadeiras da comunidade arrumadas em frente a varanda do barraco de Jorge, um pequeno palco instalado perto da tomada, onde o microfone já estava em um suporte esperando a estrela.
Crianças mais a frente, brincando inocentemente, adolescentes pelos cantos, olhando e desdenhando do homem doce que via ali seu maior momento na vida. A vizinhança já estava chamando seu nome quando ele entrou vestindo uma jaqueta brilhante e um salto bicudo, junto a uma calça apertada que talvez lhe tirasse a possibilidade de repordução.
Era a perfeita cópia tosca de Elvis. Se postou em frente ao microfone, endireitou os ombros, passou os dedos pelas sobrancelhas, ajeitou o topete, fechou os olhos e entoou a primeira nota de "Love me Tender". Um barulho ensurdecedor cobriu sua voz, era uma explosão de aplausos que vinham da plateia delirante.
A noite continou com o show particular de Jorge, as músicas animando todos os presentes, a dança sacudiu todas as faixas etárias, passando por "Don't Be Cruel", "Surrender" e terminando com "All Shook up", o show foi o maior espetáculo que a comunidade vira em toda sua história, e às onze horas o microfone estava sem pilha, mas a conta continuava zerada.
Um menino que pulara o tempo todo chegou perto de Jorge, puxou sua camisa para que ele lhe desse atenção e disse:
- Tio, você tem muita voz!
Jorge no dia seguinte voltara a sua rotina de ferro-velho mais feliz do que nunca, mas ainda com algumas dúvidas sobre o elogio do menino.

Daniel de Lima Fraiha

2 comentários:

  1. "Jorge no dia seguinte voltara a sua rotina de ferro-velho mais feliz do que nunca, mas ainda com algumas dúvidas sobre o elogio do menino."

    Muito bom o texto, mas se eu fosse o Jorge duvidaria da experiência toda. O que aí não era só a projeção do sonho que ele sempre teve?
    viajei rs
    um abraço


    Caio Marcellus Martinez Cabral

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  2. A duvida não é se aconteceu...
    mas será que nem para se explodir ele tem voz?

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