- Sabe... isso é a minha maior perda na vida. É ver nesse seu olhar a falta de qualquer palavra. Saber que você me vê como um homem inocente, ingênuo, que pensa poder mudar o mundo, que não compreende o curso das coisas como elas são. Achar que eu tenho a mentalidade pequena por me recusar a participar disso, enquanto a grande pequenez é a sua porca inutilidade do olhar... Cheio desse vazio que não é nada.
- Os baiacus são ariscos... Arredios, intratáveis.
- Que nada! Você não está vendo a alma deles. Os baiacus têm coração. Ela é assim também. A humanidade só precisa receber algumas rosas, os baiacus necessitam de flores, de cores, de sabores.
- Tá na minha hora... Não tenho tempo.
- E nunca terá. Isso que você acabou de pôr em cinco letras é incompreensível aos olhos de quem... Estátua. A mobilidade lhe é fruto da imaginação, sua coloração cinza tira a íris dos olhos, te põe de cócoras à entrada de alguma catedral. Gárgula. Suas azas te ignoram baiacu, sem qualquer escama úmida ou brânquias que sintam o ar. Tua neblina é toda de uma não-visão, recheada da podre massa falida que virou o ser humano.
- Pára de ser ridículo, deixa esse discursinho poético de babão! Quando você voltar a sanidade e puder falar como um homem sério eu volto.
Os olhos fixos na parede, vendo o homem vestido em terno de linho ir embora, a boca ainda por fechar e a expressão de quem não conseguia relaxar os músculos, o rosto contorcido no que pareciam ser cãibras múltiplas. Do escritório ao lado podia-se ouvir a voz de Tim Maia ecoar pelos corredores no refrão "É primaveeeera... Te amo!". Ao fechar da porta, escorreu-lhe uma lágrima do rosto, o olhar plácido já virado para a janela, de onde comtemplava o beco, a boca resmungando sem força o fim do refrão "Meu amor...", se deixou cair angustiado e melancólico na cadeira.
- O que que é a sanidade, Carminho, me diz, me dá essa luz! - disse olhando para o aquário que ficava ao canto da sala. - Eu só vejo o beco, daqui. É isso, então? Fiquei maluco mesmo? - O peixe solitário se debatia, não por estar preocupado com a pergunta, mas pela mão encostada no vidro que lhe afligia. - Eu sou que nem você, Carminho, tô num aquário, de vez em quando me dão comida, trocam minha água, mas quando eu olho nos olhos, já vem uma mão enorme no meu vidro, me deixar assim, sacudido sem motivo, no meu cláustro a céu aberto...
As três batidas na porta tiraram-lhe do transe prontamente, era a secretária que lhe trazia um novo visitante.
- Oi, Ilaio, quanto tempo... Deve ser pelo mesmo motivo do nosso amigo que acabou de me privar de sua magnífica presença. Por quê ele não ficou? Ahh, desculpe a falta de sensibilidade... Xadrez só dá para dois, é verdade. Só espero que seu cavalo não queira minha rainha como o dele.
- Perdão não satisfazer sua graça letrada, Excelência, mas eu trato de afazeres e não jogos.
- Que seriam seus afazeres, se não um monte de peças que buscam o meu pescoço? Enfim um bispo a meu dispor, já estava me sentindo insultado com a presença de tão torpes peões. Mas ainda há de percorrer algumas diagonais, Excelência. Assim como tu, me disponho a entrar no tabuleiro, mas meu preço é teu rei, e não tua toga ou coroa.
- Parece-me que estás realmente louco, como dissera meu relator. É uma pena, Miguel... Poderia ser grande.
- Louco é meu braço direito, excelência, que me obedece sem espasmos. Muitas vezes me esforço para não me proclamar canhoto, quando penso que é esse lado o que me recusa. Tua verossilmilhança com a de minha tia-avó é extrema. A forma como os vermes lhe mordem meio rosto é tão doce quanto alva, além de não perder de vista a razão que aflora de tua orelha, a direita.
- O que é isso, meu Senhor?! Vossa Excelência prepare-se para uma resposta do tribunal, desacato e falta de civilidade são caso de justiça.
- A esquizofrenia de meus olhos não lhe escutam algumas palavras. Talvez por ver sua boca corroída de ratos lúgubres, pareceu-me o sussurrar do lado sujo não completar alguns sons. Mas o início de cada letra me lembrou algo como "civilidade" e "justiça"? Seriam possíveis estas palavras virem de seus lábios? Escuta-me bem, teu verme! O lado louco é quem trabalha por minha pessoa, a visão de um mundo em cracas é na verdade o paraíso de tuas mil rosas roubadas. O riso descontrolado é a vista de quem se desfez de corpo terreno, em vista de sarjetas como tua mente, que por detrás de uma roupagem francesa, sujam o mundo com topetes gosmentos, e acariciam o pelo de uma raça insalubre!
Os seguranças já haviam adentrado a sala, e tentavam, os quatro, tirar as mãos do homem que esganava o outro bem vestido. Os gritos de socorro ficaram pelo corredor, ninguém ouvira, mas todos ainda estavam pasmos e agoniados com os silvos agudos que se ouvira sair por debaixo da porta, como se alguém gemesse ou uivasse, numa comunicação não inteligível aos homens, numa aflição quase que espiritual.
Jogado numa cela, junto a pelo menos mais cem num espçao para no máximo uns vinte, o homem se deixava deitar por entre os que ali estavam, sua aparência jovem e bem cuidada chamara a atenção dos detentos que não viam carne nova a séculos. Seu sorriso nos lábios era o que espantava os que lhe admiravam. "É mocinha!", gritavam animadamente. Numa jaula debilitada pela insanidade metálica de barras de ferro enferrujadas ao som de um não-tempo. Um não-pertencimento, à negação de tudo que é viável, provável e acreditável.
- Eu juro! Fui eu! Deem-me o crédito, não para a história, mas para os animais. Eu não sou humano! Digam! Digam que não sou humano! - Esganiçava-se numa espécie de uivo ininteligível que assustava os mais assustadores companheiros de cela. - Eu nunca acreditei! Agora deixei isso, eu nunca fui isso! Eu sou canhoto! Eu sou canhoto...
O sorriso lhe estampou o rosto por todos os sete minutos que levaram os companheiros de cela para lhe devorarem vivo.
Daniel de Lima Fraiha
domingo, 14 de junho de 2009
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