- Dona Ester, preciso da sua ajuda.
- Antônio? Já era hora de você me ligar.
- Eu sei, na época não acreditei no que disse, mas a senhora tinha razão.
- Eu avisei.
Eram 22h e 37 minutos de uma quinta feira, 11 de setembro. Antônio, um homem alto, moreno, de cabelos pretos, olhos pretos e um olhar profundo, de uma beleza impressionante, porém fora do comum, saía de sua casa. Chovia muito, mas o restaurante era a duas quadras e ele gostava de caminhar. A cada passo que dava sua ansiedade aumentava. O suor frio, mesmo com a chuva, escorria por dentro da sua blusa preta e suas mãos tremiam. Ao mesmo tempo em que ele queria sair correndo para chegar rápido, uma sensação de medo e vontade de voltar para casa o dominava. Era sempre assim, e ele sabia, por isso continuava a andar, vagarosamente. Da última vez em que se apaixonara tinha sido pior, já que o primeiro jantar tinha acabado num grande fiasco, mas, depois de dois ou três encontros, a relação se desenvolvera de forma incrível. Não havia, portanto, com o que se preocupar.
Sem perceber, ele havia chegado. Entrou e logo a avistou. Ela estava linda, com um vestido também preto, os cabelos ruivos soltos sobre os ombros e os olhos cor de mel delineados por cílios longos e pretos. Aqueles olhos haviam ganhado o coração de Antônio desde o primeiro dia. Ele logo se dirigiu à mesa, os dois se cumprimentaram com um beijo e ele se sentou.
Era 1 hora e 26 minutos quando ele deixou a moça em casa. O jantar tinha sido maravilhoso, tinha parado de chover e, por isso, a caminhada de volta, na beira da praia com uma brisa soprando, fechara a noite de forma perfeita. Ao chegar em casa, Antônio tirou seus sapatos sujos no hall de entrada, jogou seu casaco em cima do sofá, beijou sua mulher, que lia na poltrona, e foi tomar um banho, feliz.
Havia três anos que era assim. Antônio amava sua mulher mais do que tudo, mas não conseguia parar de se apaixonar por outras. Para ele isso era uma qualidade que ia além do entendimento das pessoas. A capacidade de amar profundamente mais de uma mulher não podia ser um defeito, e sim uma dádiva dos deuses. Sua mulher soube desde o primeiro dia, mas preferia ignorar o que acontecia com o marido. Ela sabia que seu amor era verdadeiro, e, no início, só isso importava. Até que aquele dia chegou:
- Antônio, que dia é hoje?
Ele ainda estava de toalha e tinha acabado de pisar os pés no quarto. Ela estava sentada na cama, de pernas cruzadas, de frente para a porta do banheiro.
- Por “hoje” você se refere à ontem ou hoje mesmo? Afinal, já passou da meia noite querida! Haha!
Aquelas brincadeiras eram extremamente irritantes e ele não conseguia deixar de fazer.
- Por “hoje” eu me refiro ao dia que você saiu de manhã, não voltou para almoçar, chegou em casa já de noite, ficou 10 minutos, saiu de novo e chegou só, como você diria, no dia seguinte.
Naquele momento Antônio percebeu que a brincadeira não tinha caído muito bem. Ele odiava brigar com a esposa, ainda mais quando havia encontrado outras mulheres. Era sempre a mesma coisa: ele fingia que não era nada disso e ela fingia que acreditava.
- Meu amor, me desculpa, eu tive o dia inteiro de reuniões e depois fui tomar um chopp com o pessoal do escritório, foi aniversário do Marcos...
- Você não me respondeu e isso não justifica nada já que você, sequer, sabe que dia é hoje.
Ele não conseguia pensar em nada.
- Cinco anos Antônio! Hoje, dia 11 de setembro, nós fazemos cinco anos de casados, e você não é capaz nem de lembrar!!!
- Clara... eu, eu... me desculpa...
- Antônio, é o seguinte, agora você vai ouvir algumas verdades. Eu to cansada de fingir, cansada de me fazer de boba! Durante todos esses anos eu agüentei, eu ignorei porque você foi um marido perfeito, você me amou, cuidou de mim e nunca falhou, nunca esqueceu uma data. Mas no último ano ficou demais, você mudou, virou um vício sair com outras mulheres, você precisa disso pra viver e eu não consigo viver assim, fingindo. Então eu te dou um ultimato, eu não sou uma mulher muçulmana pra ficar agüentando essa poligamia: ou você resolve seu problema, ou você vai ter que ficar só com as suas “outras” e me perder.
Ela bateu a porta, chorando.
Naquele momento Antônio teve a sensação de que ia desmaiar. Ele nunca tivera que enfrentar sua mulher daquela forma, nunca havia sido colocado contra a parede e, por isso, não achava que aconteceria. Clara era o amor da sua vida, cada olhar, gesto e sorriso, faziam com que seu coração disparasse mesmo depois de cinco anos. Ele não conseguia pensar em viver sem ela, mas também sabia que ela tinha razão: ele tinha um vício e esse vício lhe dava prazer. A ansiedade que sentia antes de encontrar cada mulher, o suor, o coração palpitando, a respiração ofegante, o medo. Depois, ao chegar ao encontro, a visão da belíssima criatura que o esperava, o coração acelerado, os sorrisos, os olhares, as palavras. No fim, a sensação de dever cumprido, de sentir-se homem, vigoroso, imbatível, irresistível , quase tão poderoso como Zeus, o grande deus do Olimpo, conhecido por sua libido insaciável e suas dezenas de mulheres. Aquele ritual o fazia sentir completo, mas Clara era sua Hera, deusa dos deuses, regente do casamento e a mais majestosa e solene das deusas.
Foram dias cinzas os três que se seguiram, o silêncio reinava na casa, nenhuma palavra era trocada e a tensão preenchia cada canto vazio. Até que Antônio tomou a decisão mais difícil da sua vida: ele acabaria com aquilo, renunciaria ao seu prazer em nome do amor verdadeiro, que não era formado por pequenos momentos de êxtase, mas sim da confiança, cumplicidade, amizade e compreensão que existia entre ele e Clara. Haviam construído isso juntos, durante todos esse anos e ele não poderia destruir. Deu, então, o telefonema.
- Dona Ester, preciso da sua ajuda.
- Antônio? Já era hora de você me ligar.
- Eu sei, na época não acreditei no que disse, mas a senhora tinha razão.
- Eu avisei. O que aconteceu, finalmente?
- Ela descobriu, me colocou na parede, me fez escolher entre ela e o resto. A senhora sabe que, quando tudo começou, eu tentei parar, fiz de tudo, terapia, remédios.. Nada adiantou, e é por isso que eu estou te ligando. Não que eu confie nessas suas coisas aí, mas é a minha ultima opção.
- Pode vir pra cá agora, eu garanto que vai te curar.
Rua Estrela Dalva, número 13, esse era o endereço. Antônio entrou na casa, escura, com cheiro de erva cidreira e incenso de benjoim. O primeiro andar era iluminado apenas por uma luz azul, meio fúnebre, meio angelical. Ele foi entrando sem bater, como era o costume, e logo a avistou. Ela tinha seus 60 anos, vestia uma túnica longa e roxa, cheia de estrelas, usava os cabelos cinzas presos em um coque e, como qualquer bruxa normal, esbanjava uma grande verruga na ponta do nariz. Apesar da idade, toda aquela luz e aquele ambiente a deixavam linda e interessante.
“Não Antônio, controle-se, é o vício de novo, ela podia ser sua avó.”
Nenhum dos dois falou nada. Ele se deitou na cama que ficava no centro da sala, fechou os olhos e sentiu que as mãos daquela mulher o tocavam, ela entoava um canto, quase como um mantra, em alguma língua estranha, cristais gelados eram colocados sobre os pontos que ela chamava de “chacrás” e depois...
- Em alguns minutos você volta a ser monogâmico.
Ele havia acordado, a magia estava feita.
- Agora, pára de alisar a minha orelha!
Antônio se desesperou. Olhou. Era apenas a manga de sua camisa presa no enorme brinco de estrela da bruxa. Enfim, ele estava curado.
Manuela Porto
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
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Muito bom, Manu! só não usaria o eufemismo da manga da blusa...
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