Seu rosto, agora, já não era mais o mesmo. De fato, nunca fora o mesmo: era sempre aquilo que devia ser a seus olhos, se isso fizer algum sentido. Mas Pimpão sempre compreendia o seu significado, sempre se identificava com o reflexo do espelho. Na verdade, muitas coisas mudavam ultimamente em sua vida.
Era só agora, só como nunca fora. Sua mulher e eterna companheira morrera de câncer. Uma daquelas doenças fulminantes e terminais, que a esposa escondera na penumbra de seu cinismo para evitar a dor do marido comprometido. Subitamente, portanto, sua ida não lhe deixara nem ao menos um momento para o sofrimento decorrente do interregno de tempo, que passa arrastado e melancólico, da morte premeditada de quem se ama. E ele a amava de verdade. Mesmo depois de velho e da putrefação das carnes e da persistência da gravidade em quedar tudo aquilo que gostamos rijo, o homem continuava a adorá-la como na juventude de outros tempos. Completavam-se como nos romances mais melodramáticos e, felizmente, não recorriam aos envenenamentos ou aos cortes das gargantas para poderem viver seu sentimento mútuo. Amam-se na materialidade da vida real dos problemas e das doenças.
No velório da esposa, tão triste quanto desolado, Pimpão ouviu as condolências dos amigos, da família, de todos que muito falavam, mas pouco conseguiam exprimir em suas palavras ofuscadas pelo constrangimento de não compreender a profundidade daquela sensação. A perda. O vazio que se projetava nos jantares solitários, no frio da cama de casal ocupada por um único corpo viúvo, já esfriado e gasto pelas mazelas do tempo, que leva a vivacidade de todos nós. Pimpão vivia agora sem saber exatamente como o fazia. Criou, no medo avassalador que tinha da morte e do câncer e, especialmente, da sua união, o vício de comer, por dia, três tomates crus. Assim agia por ouvir em algum lugar que o tomate era capaz de evitar o câncer. Nunca fora homem de crer nesses adágios descabidos proferidos por pessoas que nem ao menos sabem o significado de uma metástase. Entretanto, o medo nunca obedece a processos racionais.
Então, o pobre homem comia religiosamente os seus tomates como se fossem maçãs, mesmo detestando seu gosto insosso. Comia-os com o coração, e a ele o corpo invariavelmente se submete. Não fosse sua outra ocupação, a gaita furtiva adquirida ainda na adolescência, o homem há muito já teria enlouquecido. Pimpão sempre fora fascinado pelo som advindo do pequeno instrumento e só não tentara a sorte na vida artística por medo de falhar e infligir à sua grande paixão uma vida de privações e robustezas que não cabiam a uma mulher tão doce. Ocupou-se, sem maiores preocupações, do Direito. Sagrou-se, após arduamente persistir nos ofícios e nas petições das vidas alheias, desembargador e obteve êxito na tarefa de proporcionar a si e a sua esposa uma vida confortável. Todavia, a harmônica mantinha-se sua fiel companheira ao longo dos anos e agora era a única, a derradeira. Tocava-a por horas a fio, buscando aprimorar suas próprias composições e imaginando-se nos anos da juventude quando tocava numa banda de blues.
No entanto, não obstante as seguidas negativas de Pimpão, os amigos se apercebiam das mudanças em sua fisionomia, das olheiras aprofundadas do sono mal dormido, da barba mais espessa pelo descaso, da magreza da dieta dos tomates. Parecia a todos que o velho se preparava para morrer, e ele insistia que não, que a vida lhe causava o maior dos amores e não seria possível querer a morte enquanto em vida. Tentavam tirá-lo da monotonia da aposentadoria, da casa esvaziada e, concomitantemente, repleta de memórias perdizes e longínquas, que só trariam – de acordo com aqueles que não sofriam – a sofreguidão total. Mas Pimpão não queria ouvi-los. Gostava de inebriar-se dos tempos de outrora e das lembranças. Faziam-no, curiosamente, sentir-se vivo.
Após cinco anos do fatídico velório, Pimpão já era outro. Vivia dentro do possível. Sentia-se só, mas aos poucos aprendia a viver consigo. E com a gaita. Montara uma banda de blues novamente e reeditava os espetáculos de fundo de quintal de antes. Ficava exultante ao terminar uma canção e reconhecer-se naquilo que ouvia. Nessa nova existência, seu único problema era o espelho. Evitava o quanto podia admirá-lo, pois não conseguia identificar-se naquele reflexo disforme e infestado de rugas. A cada dia que mirava a imagem, tinha maior sensação de não saber quem era. Objetava contra si mesmo, confundia-se nas próprias lembranças e se esquecia dos nomes, do seu e de todos. O fato de não conseguir lembrar o nome da esposa Ida lhe causava náuseas moribundas e jurava nunca mais mirar outro espelho. Contudo, a curiosidade e o proibido sempre foram a ruína dos homens; e Pimpão não estava isento a isso.
Num desses dias em que se acorda mal, pois o sono não foi sono, foi algo entre o real e a fantasia, foi um passeio onírico pela existência, Pimpão jurou rever a esposa Ida. Ela era jovem e o chamava. Ele a avistou, tão linda e suave; queria tê-la novamente. Ao se aproximar, ela disse:
- Pimpão? Por que você usa essa máscara? Por que esconde o seu rosto?
Sem saber o que pensar, olhou ao redor e só pôde ver o reflexo de si, sem reconhecê-lo. Realmente, havia algo onde antes era sua face. Algo sem expressão, sem semblante, como um rosto liso, se isso for possível. Correu ao banheiro e trouxe consigo somente aquilo que lhe pertencia agora: a máscara, o tomate e a gaita. Lavou o rosto, fitou o espelho e, após deixar o tomate, a máscara e a gaita na pia, gritou para que todos ouvissem: “Pimpão morreu!”
Luciano Pádua
terça-feira, 2 de junho de 2009
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Sem palavras pra comentar sem ser ridículo perto da grandeza desse texto... Fiquei muito impressionado, cara. Você tava se privando de escrever pra não precisar ser falsamente modesto?
ResponderExcluirminha admiração mais sincera...
Daniel Fraiha
Incrível.
ResponderExcluirGenial,Lu.
Sempre gosto =)
ResponderExcluirestá excelente!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirVocê é meio ertranho mas até que tá bem bom hein!
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