quarta-feira, 24 de junho de 2009

Felicidade, Anestesia e Pipoca: o (des)espetáculo da (sobre)vida

Num poente de outro daqueles dias sem estação definida, que simplesmente são, e exatamente por isso são os mais belos de todos, um homem obsessivo corria pelas ruas de Berlim, passatempo este que cultivava qual uma obsessão, mas que o aliviava de todas as outras. Pelo menos é isso que ele acha.
Mal sabiam os outros que ele tinha aquelas compulsões. Mal ele sabia que todos os outros também tinham, mesmo que não fossem as mesmas. No fundo, todos temos a obsessão de viver, amar e morrer, ainda que seja a última uma contra obsessão. Ou não.
Era um dia normal.

***

Em outro ponto da cidade, um casal feliz come num restaurante alemão de comida japonesa. Eles terminam seu relacionamento. Às vezes acreditamos que a felicidade nos fará “felizes”, quando na verdade a fonte de toda felicidade é a sua procura. O que vale são os fins, e não os meios, como se propaga levianamente.
É óbvio que esse casal não sabe disso, mas quantas coisas não sabemos, e acabamos por intuir?

***

Exatamente à meia-noite, o sushiman daquele restaurante volta pra casa e deixa seu instrumento de trabalho guardado no estabelecimento. Pelo menos deveria ser assim.
Mas ele caminha, faca em punho, decidido, como um homem apaixonado que pede a amada em casamento, ou como um animal em sua inexorável rota para o matadouro (podemos nós também ser esse animal, ou você, caro leitor, sabe como escapar dela?), ou ainda como o escritor que tem certeza de que é aquilo que ele quer. Ou não.
A certeza é o melhor caminho para a dúvida.

***

Naquela praça berlinense, o sushiman (não, não imaginem um asiático) grita para que todos que passam à meia-noite e dezessete naquele lugar sejam testemunhas de seu suicídio.
Aquela faca, que dissecara impiedosa e mecanicamente milhares de peixes, agora ia de encontro ao corpo daquele que a manuseou. Tal como os artistas se retratam em suas pinturas, eis o autoretrato de um sushiman frustrado.
- Como vocês conseguem? Passar com essa placidez, incólumes diante dos absurdos da vida?
E a multidão segue, densa, amorfa.
-Estou farto disso!Corta peixe, arruma prato, “você é um artista!”... o sucesso profissional é para os tolos! A vida é como um menino traiçoeiro com uma lupa e açúcar...atrai com o açúcar e mata com a lupa, dá com uma mão e tira com a outra...
Um homem, que passava correndo, ouve por acidente as queixas daquele fragmento de ser diante da estátua de Goethe, para e diz:
- Você não quer se matar. Se quisesse não anunciava. Fazia. Você só precisa de um amigo, para te mostrar como a vida é maravilhosa. Deixa disso!
-Você não sabe o que diz! Veja o exemplo no meu trabalho... os peixes podem nos ensinar muito sobre a vida. Por exemplo, os baiacus, eles são como a vida. Os baiacus são ariscos... arredios, intratáveis.
-Que nada! Você não está vendo a alma deles. Os baiacus têm coração. Ela é assim também. A vida é assim também!
- O coração não passa de um órgão, a alma é uma abstração... o que me prende à vida?
E é com essa dúvida que terminou o ocorrido.
Uns dizem que o sushiman se matou e o homem que passava seguiu sua vida, cada vez mais perturbado por aquela figura que conhecera por acaso(?); outros dizem que o sushiman, irritado, matou o homem que tentou lhe ajudar, e, arrependido, encontrou a salvação na religião, tornando-se um monge.
Eu não acredito em nada disso.

Caio Marcellus Martinez Cabral

2 comentários:

  1. Achei genial, cara!
    "A certeza é o melhor caminho para a dúvida."
    a frase parece ser a linha central do texto. tudo em função da multiplicidade de possibilidades. ou não...

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  2. adorei o texto.
    o final de dizer que não acredita é otimo, da todo um humor ao texto, que é super reflexivo!

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