sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Não é da natureza humana desejar apenas uma, mas também não é da natureza humana saber dividir.

Eu era o homem mais hipócrita que já havia conhecido, deve admitir que era ridículo da minha parte achar que minha mulher deveria ser só minha enquanto eu era de muitas. Eu não diria que eu tinha muitas mulheres, e sim que muitas me tinham e essa poligamia parecia deixar minha vida menos tediosa. Entretanto eu perdia o sono em pensar que a minha mulher poderia ter outros.

Eu ouvi durante a vida a frase: "o que os olhos não vêem o coração não sente", passei a não acreditar quando ouvi certas coisas.

Acontece que eu não era um homem discreto, e minha mulher sempre descobria as minhas aventuras. No inicio brigava comigo, chegamos a nos separar, mas depois da terapia que ela iniciara tudo voltou como antes, exceto o fato de que ela ignorava os acontecimentos.

Ela ia a sessões de terapia periodicamente, e não perdia uma consulta por nada. Comecei a ficar preocupado com isso e decidi verificar o que acontecia quando ela não estava comigo.

Cheguei a sugerir, antes de uma investigação secreta, que seria legal eu ir fazer uma sessão com ela, mas sem pestanejar ela negou, o que atiçou mais minha curiosidade.

As primeiras vezes que a segui ela não demonstrou nenhum comportamento que atendesse minhas expectativas. Por isso decidi que era coisa da minha cabeça e achei melhor também começar uma terapia.

Fui ao mesmo profissional que ela, mas não disse que era casado com uma de suas clientes. Nas primeiras semanas ele me fazia perguntas do tipo pessoais, o que eu gostava? Qual era meu maior medo? O que eu fazia para superá-lo? Etc.

Comecei a refletir sobre quem eu era, e junto ao profissional descobri que eu não era exatamente um grande louco, ciumento e descontrolado que imaginava. Eu era apenas um humano que tinha curiosidade de experimentar e medo de ficar sozinho.

Em uma sessão ele combinou que levaria umas mulheres para que eu percebesse que esse era também um desejo comum delas, mas elas eram mais repreendidas, e por isso muitas entravam na terapia.

Ansioso para viver essa experiência fui mais cedo ao escritório para ler revistas na sala de espera enquanto verificava as moças que por ali passavam, caso não me agradassem daria tempo de fugir da sessão.

Por ali só passaram moças novas, no máximo 35 anos. E todas possuíam alianças, o que não me preocupava, já que eu também era um cara casado.

Dada a minha hora o médico me pediu que entrasse e me hipnotizou para que relaxasse mais facilmente.

Senti o toque suave de três mãos sobre mim, logo percebi que havia ocorrido uma ereção e que os acontecimentos me deixavam mais leve como se o estado de gozo fosse prolongado. Não percebi como o tempo se passava, nem como se deram as coisas, mas quando me senti acordado do transe estava com minha mulher de um lado e uma outra mais jovem do outro. A minha mulher com uma voz sedutora me disse:"Em alguns minutos você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar minha orelha!". Se levantou lânguida e se vestiu. Aquela que se encontrava do outro lado, olhava para teto como quem havia tirado um peso de si.

Voltei para casa sozinho ainda tonto com os acontecimentos. Eu e minha mulher nunca comentamos nada, continuei indo ao terapeuta e ela também. Não perdíamos uma sessão, mas também não comentávamos o que acontecia nelas.

Era melhor não saber, ouvir, ver ou pensar. Eu acreditava no amor dela, ela acreditava no meu. Nós sabíamos o quão humanos éramos.

Laura Martine

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

"Em alguns minutos você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar minha orelha...” 


Eu não gosto de alisamento de orelhas... Pára! Já disse! Que coisa mais chata!

E se eu não quiser voltar a ser monogâmica, e viver a realidade, onde sabemos que não somos monogâmicos, nós, os peixes, as aves, as árvores... Estou afirmando? Defendendo tese?

Talvez os Alquimistas sejam monogâmicos... Sei lá... Talvez esteja dizendo isso por conta da frase que existe no livro do Sr. Paulo Coelho "Sempre existe no mundo uma pessoa que espera a outra, seja no meio do deserto, seja no meio das grandes cidades". Isso soa brega...

Mas o que diz Jorge Ben, não soa brega para mim... Para ele os alquimistas são discretos e silenciosos e moram bem longe dos homens". Talvez os alquimistas de Jorge sejam monogâmicos justamente por morarem longe dos homens...

 

Que a vida é movida por encontros e desencontros, eu não tenho dúvidas... Bom, EU, sempre eu... É muito engraçado isso, pois essa experiência que coloco é personalíssima, pois posso estar certa ou não... Bem... EU posso levantar hipóteses e procurar as possibilidades de falsear minha tese, o que daria caráter científico (OU NÃO), todavia, verificar que minha própria tese contém um erro constatado em meu pequeno laboratório, que sou eu mesma, representando um avanço científico!

 

E quando sucumbo ao meu instinto animal, deixando meu lado humano, judaico-cristão ir pras cucuias?Seria este lado o racional ou o irracional? Na verdade as opiniões pessoais nos transformam em cientistas não isentos porque no fim das contas usamos a nós mesmo como cobaias e manipulamos o experimento a ponto de comprovar nossa tese. Cadê a ética na utilização de animais para pesquisas científicas?

 

O que é certo ou errado depende do ponto referencial? Será que quando a menina transou com o bagre, naquele ménage à trois que o Daniel escreveu, ela deixou de amar o namorado, ou de ser a ele fiel, uma vez que ela estava ali para satisfazer a vontade dele, dando assim uma prova de amor?

 

Amor... Hahahaha! Sartre e Beauvoir... Que casal... Eles já tinham o open relationship que para nós é ainda tão polêmico e desejado... Sim, desejado... Achamos estranho, engraçado, curioso esse relacionamento histórico, mas não assumimos que o desejamos... O desejamos porque ele oferece aquilo que para nós e algo complicado... A segurança do amor... O do estar e não estar, estando sempre junto... Permitindo que a pessoa seja ela, independente de um status atribuído a ela ou ao relacionamento... Para isso somos desvinculados um dos outros, temos CPF, RG, passaporte de números diferenciados, bem como o nosso DNA não é igual nem ao do nosso irmão gêmeo... Ela era Simone, ele, Jean... Eu poderia ser Edileuza e ele Onofre...

 

A abelha rainha mata o macho logo após a cópula... A aranha viúva-negra devora o macho após a cópula, (sim, é ela que come) quando ela consegue engravidar, sonho de muitas e muitas mulheres... Já pensou em transar e ter a certeza absoluta de que conseguiu engravidar? Eita avanço científico... Quer ser viúva-negra também? Lucrecia Borges matava seus amantes, com o veneno que colocava por debaixo das suas longas unhas, após satisfazerem-se sexualmente...

 

“E na maioria das vezes é uma foda boa pra caralho".

Quando nos permitimos que isso aconteça, certo? Vovó dizia: "HOMEM sacode as calças e vai embora..." Verdade... E pra a maioria deles, independe se foi bom, ruim, se teve significado alem do ato físico, e se valoriza aquela mulher que lá estava, por cima, por baixo ou de lado, e se esta ficou satisfeita...

O que é uma foda boa pra caralho? O mesmo de fazer amor gostoso? De transar com quem se gosta? Trepamos porque estávamos com tesão? Dei pra ele porque eu quis? 

Ah, você conta orgasmos, né?

Vem comigo, amor...

É um útero, um avião, um morcego, uma baleia? NÃO... Uma mulher... Sua inquietude, beleza de ser, apenas... Monogâmica... Talvez, mas acima de tudo, a maior protagonista de monólogos...

Ta dizendo que sou uma atriz?

Sim, e quem não é?

Tais Loureiro

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Bagre

- É um bagre?
- Acho que é um peixe-boi.
- Não, seu bobo, o bagre quando se assusta, infla. O peixe-boi é enorme.
- Sei lá. Sempre detestei história.
- É, eu também.

O peixe balançava dando alguns sobressaltos, quicando no gramado que refletia o sol. O parque estava cheio e as mães aproveitavam para passear com seus carrinhos de bebê, desfilando com pompa cheias de orgulho dos babadinhos e outras besteiras que as mães novas adoram. O rapaz vestia um macacão e a menina um vestido florido, os dois estavam vermelhos, queimados pelo sol forte dos últimos dias. Com um pequeno detalhe para as manchas de graxa no rosto dele.
Enquanto conversavam, os olhos dele de segundos em segundos encontravam o decote do vestido dela. Os olhos voltavam para cima e ela lhe sorria, com uma docilidade ligeiramente safada.

- Sabia que os bagres são poligâmicos? Mas só as mulheres. Eles formam um bando e uma mulher sozinha toma conta de pelo menos cinco.
- Que besteira. Por isso que ele fica assim quando se assusta?
- É.
- Mas que burros, não sabem que mulher tem que obedecer.
- É.

De repente o bagre começou a esvaziar e suas feições foram se restabelecendo. Ao voltar a forma de peixe comum, incrivelmente ainda vivo, se endireitou e sentou ao lado do casal.

- Esse cara é meio idiota, você me perdoe, mocinha, mas é.
- É.
- Quê? eu sou idiota e você fala?
- Vamos pular essa parte, tá...
- É.
- Rapaz, fique quieto um minuto enquanto eu converso com a moça. - completou o bagre enquanto entregava um pequeno melão para que o homem de macacão se ocupasse.

- Fêmea, eu não gosto de gente, não gosto de vocês, mas a sua ignorância já tem me torturado demais. O negócio é que vocês quando olharam pras árvores, viram a quantidade de frutas em cima e acharam que o tronco era importante. Burrice de leigos.
- Você é um bagre poeta?
- Não, só não sou humano, nem idiota. Perdão pela redundância. Mas continuando. As fêmeas tem em si uma quantidade maior de possibilidades que o homem, se é que você me entende. Além de uma visão superior, um olho que sabe desdenhar sem sequer piscar e uma infinidade de guelras.
- Guelras?
- É. deixa... mas eu vou apresentar pra vocês a novidade de um mundo amplo, a possibilidade de ser um animal sábio.

***

Algumas horas se passaram, o triângulo amoroso era inusitado, mas com a taxa de animais de estimação o motel permitiu a entrada do rapaz de macacão. Enquanto terminavam de assistir ao reprise de teletubies, que custava uma fortuna a mais para ser disponibilizado no quarto, o bagre fumava um charuto na janela.

- Vocês são fraquíssimos.

Os dois que estavam estatelados, com olhares perdidos, entre devaneios e fascinação, se limitaram a assentir com a cabeça em tom submisso. O bagre voltou para junto dos dois, se sentou no meio e começou um discurso sobre a relatividade do universo, a efemeridade da vida e a delícia que é o sexo, ainda mais quando inter-espécies.

- O sexo, como gostam de escrever por ai, é a "consumação física de uma vontade espiritual". Às vezes é uma consumação física de um desejo carnal. E na maioria das vezes é um foda boa pra caralho. - Terminou desconcertando o casal.

O rapaz, que até ali ficara quieto, tentava aprender com as palavras de tão sábia entidade.

- Muito bonito, doutor. Eu só sabia dessa última parte. - Comentou em tom de agradecimento o do macacão. - mas agora eu quero minha mulher de volta. Só pra mim.

- É normal. Esse povo tenta provar que um animal pertence ao outro, vocês não pegam a música da coisa. Já noto a indignação, esse medo idiota, reprimam-se! Daqui a pouco você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar a minha orelha! - disse um segundo antes de se jogar pela janela, cruzar a rua correndo e pegar um táxi, fugindo sem deixar vestígios.

- Como ele sabia que eu era mecânico?
- Sei lá, nunca fui boa em história.

Daniel Fraiha

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Caso Poligâmico

Antes de tudo, eu quero dizer que estou puto. Puto por uma série de coisas que enchem meu saco durante o dia-a-dia das quais se alguém ousa falar a respeito, “Meu Deus! Que pecado! Esse rapaz não é de Jesus.”. Pois é. Meu nome é Henry Pierrot Want’ass ( já viram que qualquer maluquice é mero fruto de minhas origens e, portanto, não me culpem por essa mistura Franco-Britânica!), tenho 34 anos e possuo o que, infelizmente, a justiça considera uma Relação Estável. Mas que merda, ein?!?! Sabes o que quer dizer uma R.E? Queria eu que fosse um simples Retículo Endoplasmático que fizesse jus aos meus ensinamentos médicos, mas não. “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, diziam Vinícius, Toquinho e Tom. Relação Estável é aquela em que uma mulher já pode levar metade de tudo, eu disse de TUDO, o que é seu por conta do tempo em que vocês estão juntos – no mínimo 4 anos – se houver um desentendimento e conseqüente separação(caralho! O que é esse intervalo de tempo?!?!? Sim. Bastante coisa, mas determinantes a você perder tanto?). Eu estou puto. Acabo de completar 4 anos com minha merenda.

O assunto do qual eu falava anteriormente, mal visto por algumas pessoas, é simples: a Poligamia. A escrevo com letra maiúscula não por acaso, mas pela grandiosidade que ela compõe, transcreve, transcende... É uma física simples, confundida com uma metafísica complexa. A natureza humana instintivamente nos mostra, nos insinua, nos leva à Poligamia. Ora olhamos um desejo novo, um jeans bacana ou um corte frontal superior de uma camisa legal, ora sentimos o entrelaçar de perfumes, de olhares, de jeitos, em que obviamente temos parcialmente inserção no processo. A monotonia, por outro lado,...(Epa! Perdão.) A monogamia, de forma contrária, nos impede de exercer nossas qualidades inatas, de irmos atrás do que queremos com ambição, assim como fazemos com nossas questões profissionais, mas, dessa vez, com o outro, com nossos cônjuges, sejam passageiros ou... Sempre passageiros.

Minha idéia consiste no seguinte: caso poligâmicos fôssemos, o tempo real em que estivéssemos com cada um(a) de nossos(as) parceiros(as) seria o mesmo para completar-se uma Relação Estável – leia-se: 4 anos - , no entanto, como seriam 2 ou mais parceiros(as) e contando com que ninguém fizesse a enorme besteira de maldade incalculável de unir-se com esses(as) 2 ou mais parceiros(as) ao mesmo tempo, o tempo estimado para que houvesse uma relação estável com ambos ou múltiplos lados seria proporcional ao número de pessoas com quem você se relaciona. Isto é, caso fossem 2, 8 anos, caso fossem 3, 12 anos, e assim por diante... É simples, fácil, prático e, mais do que tudo, lindo (leitor, pare com isso de começar a deixar sua cabeça falar que eu não sou um menino de Jesus... Seja sincero, não seja hipócrita!).

Outro dia, cheguei no supermercado para fazer a compra da semana. Lá, deparei-me com uma moça sobre a qual eu conceituaria como modesta, se é que me entende. Era carrinho pra lá, carrinho pra cá, sabonete, carne, refrigerante... Quando eu estava na seção das bugigangas elétricas, eu a vi segurando em um consolo. Para os menos malandros, tratava-se de um vibrador, daqueles! Não me contive. Abaixei os óculos, olhei para os lados, certifiquei-me de que não havia problema e fui até a senhora conversar. Primeira coisa: eu não fui até a senhora como um possível futuro amante ou algo do tipo, afinal tenho 4 anos com minha anexa, minha relação é estável e, se eu der mole, perco a porra toda! Segunda: ratificando minha experiência, acertei que era uma senhora e, não, uma senhorita pelo fato de ter aproximadamente a minha idade e estar pegando num vibrador. Ou seja, seu marido com certeza já estava na fase da barriga grande, que não comparece e, uma vez ou outra, quando dá umazinha já se encontra no estado do come&dorme. Cheguei, com jeito, olhei uma lanterna, puxei um papo, pedi que não ficasse envergonhada pelo que estava fazendo e lancei minha teoria. Não deu outra! Não houve nem desenrolo, apenas uma explicação teórica e o ar estava impregnado por uma pseudo-sedução por ela não muito bem compreendida. Ela não parava de concordar comigo, de sorrir com minhas palavras, de ajeitar seus cabelos lisos escuros daquele jeito, de falar que estava com calor e essas coisas. Até que o clímax de nossa conversa passageira chegou: ela avançara completamente o sinal, esquecera seu marido, e começara a alisar meu rosto, dando um toque especial às minhas orelhas. Não quis ser rude, muito menos grosseiro, mas a trouxe novamente para o mundo real, dei-lhe palavras consideradas de sabedoria pela sociedade medíocre e falei “em alguns minutos, você volta a ser monogâmica, agora pára de alisar minha orelha”. Eu, ein?! Você acha mesmo que quero perder metade de tudo o que tenho? Jamais.

Felipe Reis

A Bonequinha

- Pára de escrever!
- Por quê?
- Porque sim! Estou pensando.
- Você não pode pensar enquanto eu escrevo?
- Não!
- ...- Pára de resmungar aí e presta atenção: “Monocéfalo; diz-se do monstro que tem uma cabeça única e duplicações variáveis no corpo.”

Silêncio.

- É pra escrever isso?
- Não!
- Pra que serve isso então?
- Pra você ouvir! Não é legal?

Silêncio.

- Bem, se você não acha legal, eu acho!
- Ótimo, bom pra você! Podemos continuar?
- Podemos! Continua aí: “Era monocéfala. Horren...”
- Era o que?
- Monocéfala!

Silêncio.

- Você ainda lembra o que a gente está fazendo?
- Claro! Por quê?
- Nada. Talvez porque tenha ficado meio estranho.
- Claro que não. Mostra exatamente o que temos que mostrar! Lê aí.
- “Bianca usava um lindo vestido rosa com babados. Sentava docemente sobre a toalha de piquenique com a família no parque de gramado verde. Nos braços, sua bonequinha de pano era monocéfala.”
- Então...
- Muito romântico!
- Eu acho!
- Você acha? Temos que escrever um conto romântico, não um roteiro do Tarantino!
- Ora, e é exatamente o que estamos fazendo! Você conhece “O Corcunda de Notre Dame”?
- Conheço. E até onde eu sei, ele não se chama “O Monocéfalo de Notre Dame”!!!
- Não, seu burro! Não é isso. Ele é o grotesco.
- Que nem nossa boneca agora! Antes era “delicada”, agora é “monocéfala”. Que sutil mudança, não?
- Temos agora que achar algo sublime.
- Hmmm, difícil. Mas que tal o adjetivo “delicada”?
- Ta bem, então! Você não acha aconselhável deixar assim?
- Sim, não acho aconselhável deixar assim!
- Então muda.

Silêncio.

-Como, mudar?
- Muda, oras. Você não acha ruim?
- Sim. Monocéfalo é horroroso.
- Então troca!
- Eu não sei trocar!
- Como não sabe?
- Não sabendo, oras. Troca você.
- Ta. Coloca monoclina!
Silêncio.
- “... sua bonequinha de pano era monoclina”?
- Sim!
- Que quer dizer isso?
- Hermafrodita!

Silêncio.

- Por que raios a menina de vestido rosa com babados sentada no parque de gramados verdes teria uma boneca de pano hermafrodita?!?!?!?!
- Porque precisamos usar “monoclina”!
- Quem disse?
- Eu disse! O texto é meu, certo?
- Errado. O texto é nosso!
- Sim, mas a mudança é minha, certo?
- Sim, certo, mas...
- Ótimo! Então fica assim!
- Olha. Vamos trocar uma idéia.
- Está bem. Te dou uma chance. Escolhe. A bonequinha pode ser monoclina ou monodonte!
- E isso seria...
- Hermafrodita ou com um dente só!

Silêncio.

- Seu texto, né. Escolhe você.
- Você está aqui pra me ajudar ou não? Não entendo!
- Eu estou aqui pra ajudar, mas tinha entendido que escreveríamos um conto infantil romântico, não um terror adulto macabro.
- Não é macabro!
- Ah, não, imagina! Simpsons que é!
- Isso, boa!
- Boa o que?
- Boa idéia! Escreve aí. “... era monoclina e amarela. Horrenda, contrastando com a beleza sublime da pequena menina.” Temos nosso sublime!
- Temos nosso sublime? Temos um desastre, isso sim!
- Ah, você não entende de romantismo! Vá ler Vitor Hugo e Álvares de Azevedo e volta pra falar comigo!
- E Stephen King?
- Ai, seu ridículo!
- Ei, onde você vai?
- Embora! Acaba sozinho!
- Não! Volta aqui! Desculpa vai. Eu não falo mais nada.
- Você vai me contra-dizer?
- Não.
- Você vai me sacanear?
- Não.
- Você vai fazer o que eu mandar?
- Não.
- Não?!
- Não, quer dizer, sim. Sim, sim, sim!
- Ótimo! Eu quero uma massagem então!

Silêncio.

- Quer um suco também?
- Ai, grosso! Tchau!
- Não, não, não... Ta bom, eu faço massagem! É o que me faltava!!
- O que você disse?
- Eu? Que adoro fazer massagens! Mas você vai ter que escrever!
- Tudo bem!
- Continu...
- Ai!!!!!! Seu brutamontes! Mais leve.
- Desculpa!
- Bem, vamos lá... Vamos só acabar esse parágrafo pra ir co... O que você está fazendo?
- Sua orelha está muito tensa.
- Para de palhaçada! Tensa vai ficar a sua daqui a pouco!
- Ahhh, ta bom, eu paro! Ingrata!
- Vamos lá. “... era monoclina e amarela. Horren”...
- Por que não trocamos monoclina por hermafrodita mesmo?
- Porque não! E pára de mexer na minha orelha. Só no ombro, por favor!
- Mas monoclina é muito estranho.
- Então tem outras opções que eu anotei aqui. Ai, está muito forte! Isso, melhor. Olha só as opções: monocolpada, monoftalma ou monoplégica.

Silêncio.

- Por que a fascinação com esse prefixo tão abrangente?
- Ah, porque eu gosto! Coisa de menina, sei lá. Pode ser “patibular” também.
- Não quero nem saber o que significa...
- O que?
- Nada. Qual você quer então?
- Gosto de monoftalma.
- Eu prefiro monocolpada.
- Mas monoplégica também é bom!
- Eu prefiro monocolpada.
- É, monoplégica é bem melhor!
- Coloca monocolpada, é mais legal!
- Vai ser monoplégica então! O que você acha?

Silêncio.

- Acho ótimo!
- Beleza, então. Pode fazer um pouco mais forte. Esse lado está bem tenso, está vendo?
- Aham..................
- Então ta. “... era monoplégica e amarela. Horren”... Solta minha orelha! Por que faz isso?
- Pra me divertir um pouco!
- Eu não gosto!
- Eu sei, isso que é divertido!
- Pára! Eu tenho namorado ta?
- Ahh, isso é um problema? Você é mononamorada?
- Solta minha orelha!!! Já disse!
- Solta minha orelha!!! Já disse!
- Não me imita!
- Não me imita!
- Eu vou te bater!
- Eu vou te bater!
- É sério! Páááááraaa!
- É sério! Pááá...
Soco.
Tapa.
Chute.
- Eu avisei!
- Ai, ai. Doeu muito esse monosoco. Meu monobraço está doendo!
- Pára! Ai, que saco! Dá licença que eu vou terminar o NOSSO trabalho.
- Ah, agora ele é nosso?
- Ele sempre foi nosso!
- Ahh sim. Por mim ele seria monossilábico. Já virou uma monografia isso!
- Reclama, reclama mesmo senhorzinho. Vai ver se seu mononome vai estar na capa!
- Capa ou monocapa?
- Ai, seu ridículo! Pára com isso, não quero mais massagem!
- Eu não estou fazendo massagem! É monomassagem!
- Pára, seu ridículo. Eu tenho namorado! Me respeita!
- Ah, não tem problema, eu não sou monogâmico! E estar contigo é a melhor traição, meu amor!
- Quem escuta você pensa que você fala sério!
- Mas eu falo sério! Você é minha vida! Quer dizer, minha monovida, minha monógama, monóbela! Linda!
- Ai, você é ridículo. Deixa eu acabar isso aqui logo, seu chato! E prometo que, se depender de mim, em alguns minutos você volta a ser monogâmico, E AGORA PÁRA DE ALISAR MINHA ORELHA!!!! Ai, insuportável! Tchau.
- Ei, onde você vai?
Porta.
Risos.
- Me espera, também quero biscoito!
Porta.


Bernardo Schlegel

domingo, 13 de setembro de 2009

Quem não levanta, não dorme

Carlos e Cíntia eram casados há apenas 5 anos. Mas, antes, muito antes do esperado, receberam uma visita.
- Tudo bem, amor. Assim como chegou, ela deve de ir embora. Talvez tenha lhe apetecido passar uns meses no Rio de Janeiro. Não é todo mundo que tem essa nossa vista.
- Porra, Cintia. Não brinca com essas coisas. É sério. Isso nunca tinha acontecido comigo...
Cintia o fitou de rabo de olho e antes que a mulher pudesse puxar o ar a fim de pronunciar alguma coisa, Carlos adiantou-se:
- Não com tanta freqüência.
- Carlos, deve ser normal. A Júlia me disse que essa fase já perpassou o casamento dela com o Rui.
- Porra, Cintia! Você ta falando sobre isso com os outros? – já aumentado o tom de voz – Você não tem o direito!!!
A calma que era constante nas falas e expressões de Cintia se ausentou.
- Você queria o que? Que eu fosse mal ou NÃO comida e nem sequer pudesse falar com alguém? Desculpa, Carlos Moreira, mas aí você já está exigindo demais de mim. Faz meses que você toma Viagra como vitamina C e NADA e QUANDO consegue é uma MERDA, e uma MERDA curta em que você demora mais tempo abrindo meu sutiã – as lágrimas já embaçavam o olhar – do que dentro de mim.
O silêncio gritou.

***

- Meu irmão, todo mundo tem um fetiche, descobre o seu e manda brasa!
- Não é assim, Rui.
- Carlos, a Júlia me contou que faz 2 meses que, porra(!) gosto nem de pensar – disse o Rui se benzendo-. Algemas!!! Pronto é isso. Comigo funcionou!
- Ta maluco, Rui! Tomei uma dura quando tinha 21. Apanhei tanto que sou traumatizado até hoje. Se vejo uma algema, acho que meu pau nunca mais levanta de vez. Não sei, cara. To pensando em ir a um psicólogo.
- Não, não, não ( soluço bêbado). Porra, Carlos, Ta de sacanagem? Vai pagar 200 conto pra falar pra alguém que ta de paulemolência. Ta aqui falando comigo, brother, e só ta me pagando uma ssssssssskolll.
- Tchau, Rui, valeu aí pela ajuda. ( Já levantando e deixando uma nota de 20 na mesa).
- Foi mau, cara. Foi mau... Agora é sério: tem um tratamento alternativo que eu vi num poste ali na Rio Branco no Centro...

***

- É a sua primeira vez, senhor?
- É sim, senhor.
- Olha bem no centro desse relógio. Concentre-se e acompanhe o balanço.
- Eu tenho que pagar antes?
- Concentre-se...

***

- Agora o senhor imagina que está com sua mulher. Suas mãos percorrem do joelho às margens das vergonhas dela a fim de deixá-la cada vez mais excitada. Ela abre seu botão com o entusiasmo parecido com o de uma criança abrindo o presente no Natal... O que você sente?
Silêncio.

***

Muitas tentativas depois:
- Carlos, agora você vive em uma seita poligâmica. Você tem 5 mulheres, uma para cada dia da semana.
Um volume na bermuda de Carlos é notado.
- Cada uma das suas mulheres é de um jeito e tem uma posição predileta..
Carlos se mexe no divã e começa a chegar perto do médico...
- Você agora está com a ruiva.
Carlos põe a mão na nuca do senhor, que se esquiva...
- Ok, ok, garotão. Em alguns minutos você volta a ser monogâmico, agora pára de alisar minha orelha.

***

“ Senhor Carlos, o senhor se mostrou bastante ‘empolgado’ com o fato de viver numa seita poligâmica. A boa notícia é que estudos recentes de cientistas da Universidade de Sheffield, na Grã Bretanha, revelaram que homens acima de 60 anos de 140 países poligâmicos têm expectativa de vida, em média, 12% maior do que homens de outras 49 nações monogâmicas. Já a má notícia é que o Brasil é monogâmico.
Logo, receito-lhe um Ménage à trois e uma casa de swing 2 vezes cada. Depois sua vida sexual a dois CERTAMENTE voltará ao normal.
Caso precise de mais informações, mande-me um e-mail.
Espero que você levante dessa
Dr. Juan”
Envergonhado, Carlos dobra duas vezes a folha.
- Alô, Cíntia?


Henriette Dupret

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Zeus

- Dona Ester, preciso da sua ajuda.
- Antônio? Já era hora de você me ligar.
- Eu sei, na época não acreditei no que disse, mas a senhora tinha razão.
- Eu avisei.


Eram 22h e 37 minutos de uma quinta feira, 11 de setembro. Antônio, um homem alto, moreno, de cabelos pretos, olhos pretos e um olhar profundo, de uma beleza impressionante, porém fora do comum, saía de sua casa. Chovia muito, mas o restaurante era a duas quadras e ele gostava de caminhar. A cada passo que dava sua ansiedade aumentava. O suor frio, mesmo com a chuva, escorria por dentro da sua blusa preta e suas mãos tremiam. Ao mesmo tempo em que ele queria sair correndo para chegar rápido, uma sensação de medo e vontade de voltar para casa o dominava. Era sempre assim, e ele sabia, por isso continuava a andar, vagarosamente. Da última vez em que se apaixonara tinha sido pior, já que o primeiro jantar tinha acabado num grande fiasco, mas, depois de dois ou três encontros, a relação se desenvolvera de forma incrível. Não havia, portanto, com o que se preocupar.
Sem perceber, ele havia chegado. Entrou e logo a avistou. Ela estava linda, com um vestido também preto, os cabelos ruivos soltos sobre os ombros e os olhos cor de mel delineados por cílios longos e pretos. Aqueles olhos haviam ganhado o coração de Antônio desde o primeiro dia. Ele logo se dirigiu à mesa, os dois se cumprimentaram com um beijo e ele se sentou.
Era 1 hora e 26 minutos quando ele deixou a moça em casa. O jantar tinha sido maravilhoso, tinha parado de chover e, por isso, a caminhada de volta, na beira da praia com uma brisa soprando, fechara a noite de forma perfeita. Ao chegar em casa, Antônio tirou seus sapatos sujos no hall de entrada, jogou seu casaco em cima do sofá, beijou sua mulher, que lia na poltrona, e foi tomar um banho, feliz.
Havia três anos que era assim. Antônio amava sua mulher mais do que tudo, mas não conseguia parar de se apaixonar por outras. Para ele isso era uma qualidade que ia além do entendimento das pessoas. A capacidade de amar profundamente mais de uma mulher não podia ser um defeito, e sim uma dádiva dos deuses. Sua mulher soube desde o primeiro dia, mas preferia ignorar o que acontecia com o marido. Ela sabia que seu amor era verdadeiro, e, no início, só isso importava. Até que aquele dia chegou:
- Antônio, que dia é hoje?
Ele ainda estava de toalha e tinha acabado de pisar os pés no quarto. Ela estava sentada na cama, de pernas cruzadas, de frente para a porta do banheiro.
- Por “hoje” você se refere à ontem ou hoje mesmo? Afinal, já passou da meia noite querida! Haha!
Aquelas brincadeiras eram extremamente irritantes e ele não conseguia deixar de fazer.
- Por “hoje” eu me refiro ao dia que você saiu de manhã, não voltou para almoçar, chegou em casa já de noite, ficou 10 minutos, saiu de novo e chegou só, como você diria, no dia seguinte.
Naquele momento Antônio percebeu que a brincadeira não tinha caído muito bem. Ele odiava brigar com a esposa, ainda mais quando havia encontrado outras mulheres. Era sempre a mesma coisa: ele fingia que não era nada disso e ela fingia que acreditava.
- Meu amor, me desculpa, eu tive o dia inteiro de reuniões e depois fui tomar um chopp com o pessoal do escritório, foi aniversário do Marcos...
- Você não me respondeu e isso não justifica nada já que você, sequer, sabe que dia é hoje.
Ele não conseguia pensar em nada.
- Cinco anos Antônio! Hoje, dia 11 de setembro, nós fazemos cinco anos de casados, e você não é capaz nem de lembrar!!!
- Clara... eu, eu... me desculpa...
- Antônio, é o seguinte, agora você vai ouvir algumas verdades. Eu to cansada de fingir, cansada de me fazer de boba! Durante todos esses anos eu agüentei, eu ignorei porque você foi um marido perfeito, você me amou, cuidou de mim e nunca falhou, nunca esqueceu uma data. Mas no último ano ficou demais, você mudou, virou um vício sair com outras mulheres, você precisa disso pra viver e eu não consigo viver assim, fingindo. Então eu te dou um ultimato, eu não sou uma mulher muçulmana pra ficar agüentando essa poligamia: ou você resolve seu problema, ou você vai ter que ficar só com as suas “outras” e me perder.
Ela bateu a porta, chorando.
Naquele momento Antônio teve a sensação de que ia desmaiar. Ele nunca tivera que enfrentar sua mulher daquela forma, nunca havia sido colocado contra a parede e, por isso, não achava que aconteceria. Clara era o amor da sua vida, cada olhar, gesto e sorriso, faziam com que seu coração disparasse mesmo depois de cinco anos. Ele não conseguia pensar em viver sem ela, mas também sabia que ela tinha razão: ele tinha um vício e esse vício lhe dava prazer. A ansiedade que sentia antes de encontrar cada mulher, o suor, o coração palpitando, a respiração ofegante, o medo. Depois, ao chegar ao encontro, a visão da belíssima criatura que o esperava, o coração acelerado, os sorrisos, os olhares, as palavras. No fim, a sensação de dever cumprido, de sentir-se homem, vigoroso, imbatível, irresistível , quase tão poderoso como Zeus, o grande deus do Olimpo, conhecido por sua libido insaciável e suas dezenas de mulheres. Aquele ritual o fazia sentir completo, mas Clara era sua Hera, deusa dos deuses, regente do casamento e a mais majestosa e solene das deusas.
Foram dias cinzas os três que se seguiram, o silêncio reinava na casa, nenhuma palavra era trocada e a tensão preenchia cada canto vazio. Até que Antônio tomou a decisão mais difícil da sua vida: ele acabaria com aquilo, renunciaria ao seu prazer em nome do amor verdadeiro, que não era formado por pequenos momentos de êxtase, mas sim da confiança, cumplicidade, amizade e compreensão que existia entre ele e Clara. Haviam construído isso juntos, durante todos esse anos e ele não poderia destruir. Deu, então, o telefonema.
- Dona Ester, preciso da sua ajuda.
- Antônio? Já era hora de você me ligar.
- Eu sei, na época não acreditei no que disse, mas a senhora tinha razão.
- Eu avisei. O que aconteceu, finalmente?
- Ela descobriu, me colocou na parede, me fez escolher entre ela e o resto. A senhora sabe que, quando tudo começou, eu tentei parar, fiz de tudo, terapia, remédios.. Nada adiantou, e é por isso que eu estou te ligando. Não que eu confie nessas suas coisas aí, mas é a minha ultima opção.
- Pode vir pra cá agora, eu garanto que vai te curar.
Rua Estrela Dalva, número 13, esse era o endereço. Antônio entrou na casa, escura, com cheiro de erva cidreira e incenso de benjoim. O primeiro andar era iluminado apenas por uma luz azul, meio fúnebre, meio angelical. Ele foi entrando sem bater, como era o costume, e logo a avistou. Ela tinha seus 60 anos, vestia uma túnica longa e roxa, cheia de estrelas, usava os cabelos cinzas presos em um coque e, como qualquer bruxa normal, esbanjava uma grande verruga na ponta do nariz. Apesar da idade, toda aquela luz e aquele ambiente a deixavam linda e interessante.
“Não Antônio, controle-se, é o vício de novo, ela podia ser sua avó.”
Nenhum dos dois falou nada. Ele se deitou na cama que ficava no centro da sala, fechou os olhos e sentiu que as mãos daquela mulher o tocavam, ela entoava um canto, quase como um mantra, em alguma língua estranha, cristais gelados eram colocados sobre os pontos que ela chamava de “chacrás” e depois...
- Em alguns minutos você volta a ser monogâmico.
Ele havia acordado, a magia estava feita.
- Agora, pára de alisar a minha orelha!
Antônio se desesperou. Olhou. Era apenas a manga de sua camisa presa no enorme brinco de estrela da bruxa. Enfim, ele estava curado.

Manuela Porto