quarta-feira, 13 de maio de 2009

Nada de uniforme, nada de cabeça erguida, postura ou classe. O capitão daquele navio simplesmente não merecia esse título. Não havia nada de “ão”! Sua imagem se perdia em meio à tripulação e a única coisa que lhe assegurava o posto era o enorme anel dourado que apertava seu dedo indicador.
O capitão era apaixonado por álcool e avestruzes (não necessariamente juntos ou nessa ordem). Considerava a avestruz um animal guerreiro e símbolo de garra e determinação, pois durante a corrida não olha para trás nem desacelera facilmente.
A tripulação já havia se acostumado com a coleção de avestruzes que o capitão levava em todas as viagens. Eram doze aves bem respeitadas, com nomes próprios. Entravam em pares no navio (antes da tripulação), empinadinhas sobre um imenso tapete vermelho. Praticamente uma adaptação exótica da arca de Noé.
Na última viagem de exploração o capitão estava com sorte! O céu estava limpo, a entrada das avestruzes tinha sido emocionante e a tripulação estava animada. Além disso, o motivo da viagem se concretizou: pela primeira vez o capitão encontrou uma ilha realmente inabitada com uma natureza exuberante!
Quando avistou a enorme mancha verde flutuante, sem desviar os olhos, ordenou que a velocidade fosse aumentada imediatamente! Queria navegar como uma avestruz determinada! Quando se deu conta estava com os olhos espremidos e imitava asas com seus braços gorduchos. Imaginou uma vida perfeita correndo com as avestruzes entre as árvores...
O navio finalmente parou. O capitão olhou para a tripulação do navio e gritou em alto brado:
- Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda por todos os canhões já!
- Mostarda, Capitão?
- Sim! Mostarda! Espalhem por todos eles e esperem secar. Vamos inutilizá-los já! Não quero mais canhões... Na verdade, não quero mais saber de navio, nem desse anel! Vou viver aqui com minhas preciosas.

(A cena do capitão chegando com as avestruzes na ilha é tosca demais para ser narrada).

Sarah David de Macedo

4 comentários:

  1. Achei irado!
    Gosto muito deste tipo de texto que desconstrói um pouco as coisas.
    "Considerava a avestruz um animal guerreiro e símbolo de garra e determinação, pois durante a corrida não olha para trás nem desacelera facilmente."
    muito bom! Nunca foi dito isso antes, na historia deste pais.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  3. Querida Sarah,
    Adorei o seu conto.Assim como o Daniel, acho legal desconstruir certos conceitos.

    O texto está muito bem escrito.

    E acho bem "Sarah David" o capitão desistir dos canhões e ir viver numa ilha(mancha verde flutuante) com suas amigas avestruzes!haha
    Sua idéia arrasou. Parabéns.

    ResponderExcluir
  4. Irado!
    O fato de o capitão desistir de tentar exercer um cargo que nunca fora, por ele, bem executado mostra o quão importante é unir o útil e o agradável para as decisões a serem feitas na vida... A história e a imagem das avestruzes foram incríveis no conto. Ótimo.

    ResponderExcluir