Todo dia ao acordar, lavava o rosto, pegava sua gaita e um tomate na geladeira. Descia quatro andares de escada, entrava naquele apartamento e começava a tocar. Era mais que uma rotina, um ritual para começar o dia bem.
Trabalhava com arte. Dormia tarde. Vivia só. Acordar cedo, pegar o tomate e tocar gaita eram as únicas coisas que nunca deixava de fazer. Alguns trabalhos ele deixava para depois, algumas mulheres ele esquecia, alguns compromissos desmarcava, mas descer aqueles quatro andares ele nunca deixava de fazer.
Naquele apartamento morava um senhor. Solitário apenas recebia a visita deste estranho. Mal se conheciam. Mas se admiravam. Ele tocava muito bem, era um bom companheiro. Aquele senhor era sábio, um grande admirador e conhecedor de artes, também degustador de tomates.
- menino, você já foi a frança? Ver as artes?
- Não, senhor.
- Uma vez...
Menino e senhor, assim se referiam um ao outro, quanto traçavam um diálogo entre uma música e outra. A visita durava menos de uma hora, logo chegava a enfermeira do senhor, e o menino ficava envergonhado, voltava para casa pra fazer seu trabalho.
Certa manhã ele perdeu a hora. De súbito acordou. Nem lavou o rosto. Pegou o tomate, a gaita. Desceu correndo. A porta estava aberta. No sofá, aonde costumava tocar, uma bela menina chorava.Na cadeira de balanço uma coroa de flores com a mensagem “saudades eternas do pimpão”.Assustado ele subiu correndo de volta ao seu apartamento na esperança de se encontrar dormindo na cama. E tudo aquilo se tornaria um sonho.
Seu corpo não estava na cama. Era real. Começou a chorar e, desesperado, se escondeu atrás da mascara que estava confeccionando com o rosto daquele senhor, pretendia eternizá-lo. Já mais calmo foi ao banheiro realizar o inicio do seu ritual, como se aquilo fosse mudar tudo. Lavou o rosto, fitou o espelho e, após deixar o tomate, a máscara e a gaita na pia, gritou para que todos ouvissem: “Pimpão Morreu!!!”.
Débora Hutz
quinta-feira, 28 de maio de 2009
segunda-feira, 25 de maio de 2009
It´s show time!
As lembranças do salão cheio enchiam seus rostos de lágrimas, a nostalgia dos anos dourados revelavam uma decadência que os palhaços jamais imaginavam. Seus truques já não agradavam nem a pequenos bebês, a inocência sumira. O circo sumira. A nova onda do verão era a chamada "lona digital".
- Pimpão, lembra quando a gente subia ali na corda e ia andando e cantando, a plateia toda ensandecida e o anãozinho jogando banana...
- É, meu velho... careca de peruca não resiste a pé de vento - soltou um de seus ditados que ninguém compreendia muito bem. - Acabou, Tuiuiu. Já estou terminando meu curso de datilógrafo, tenho um futuro pela frente agora. Copiarei tudo que me mandam. Inventar já não serve.
Um misto de raiva e tristeza se deixavam ver nos olhos de Tuiuiu, ainda vestido de Carmem Miranda tirou uma das frutas da cabeça e começou a observá-la.
***
Lavou o rosto, fitou o espelho e, após deixar o tomate, a máscara e a gaita na pia, gritou para que todos ouvissem: "Pimpão morreu!!!".
A barulheira que se seguiu ensurdecia qualquer ruído, o circo parava o espetáculo no meio. A plateia começava a preparar seus tomates para arremessar, o anão tirava sua roupa de bailarina e já não mais tinha o sorriso no rosto, o elefante sentara em cima do cuspidor de fogo e a mulher barbada enfiara o rosto em suas próprias axilas na busca de consolo. Em meio ao alvoroço se seguiu um momento de silêncio completo, uma corda se desenrolava desde o cume da lona com algo preso em sua ponta. Quando esticou-se por inteiro o pano preto que envolvia a coisa se soltou e dele emergiu um corpo branco e sem vida, com cada uma das mãos presa a uma ponta da corda que se dividia em dois. Notava-se uma protuberância na garganta do morto e algo escrito em seu peito.
De dentro do camarim ouvia-se o início de um som de gaita sendo espalhando pelo ambiente, era a melodia de "Stand by me", o público se levantava e começava a cantar junto, uns sabiam a letra, outros apenas assoviavam. A atmosfera tomava um ar espiritual, pairava uma sintonia orquestrada, como num concerto longamente ensaiado.
Um baque surdo cortou o som, a corda havia rompido, o corpo estava no chão. Os cortes em seu peito formavam a frase "O show tem que continuar!", a boca aberta permitia que se visse a superfície de algo que estufava o pescoço de Pimpão, era um tomate. A plateia sentou, largaram seus tomates no chão e a música recomeçou.
***
- Quer uma água?
- Quero sim. Sem gelo.
Tuiuiu observava o palhaço tomando sua água com o rosto inocente, aquele aspecto infantil e leve dos bobos pintados. Quando o copo ficou vazio, ele disse:
- Desculpa, Pimpão. Mas antes me diga qual a sua maior vontade na vida? O que te faz continuar com esse sorriso e essa alegria de sempre no rosto?
- É o sorriso interno, meu caro. Essa paixão pelo que ainda não aconteceu, pelo que pode acontecer, por essa grande roda de possibilidades. As escolhas são meus instintos de graça. Sem elas eu perco a liberdade e tudo deixa de ser uma palhaçada. Vira concurso público...
Pimpão caía para o lado da cadeira, seus olhos revirados, a língua preta, marcada pelo veneno do arsênico.
Tuiuiu embrulhou o corpo, pôs a máscara no rosto e entrou na caminhonete rumando para o circo. No rádio BB king cantava, O palhaço acompanhava. As lágrimas escorriam pelo rosto e iam parar no banco, dois tomates.
***
A gaita cessou, a cantoria foi perdendo voz e ouviu-se outro grito: "Tuiuiu morreu!!!".
O corpo estava caído pelo camarim, a língua preta e um tomate na boca. Em sua mão um bilhete com apenas uma pequena frase: "It´s show time!".
Daniel de Lima Fraiha
- Pimpão, lembra quando a gente subia ali na corda e ia andando e cantando, a plateia toda ensandecida e o anãozinho jogando banana...
- É, meu velho... careca de peruca não resiste a pé de vento - soltou um de seus ditados que ninguém compreendia muito bem. - Acabou, Tuiuiu. Já estou terminando meu curso de datilógrafo, tenho um futuro pela frente agora. Copiarei tudo que me mandam. Inventar já não serve.
Um misto de raiva e tristeza se deixavam ver nos olhos de Tuiuiu, ainda vestido de Carmem Miranda tirou uma das frutas da cabeça e começou a observá-la.
***
Lavou o rosto, fitou o espelho e, após deixar o tomate, a máscara e a gaita na pia, gritou para que todos ouvissem: "Pimpão morreu!!!".
A barulheira que se seguiu ensurdecia qualquer ruído, o circo parava o espetáculo no meio. A plateia começava a preparar seus tomates para arremessar, o anão tirava sua roupa de bailarina e já não mais tinha o sorriso no rosto, o elefante sentara em cima do cuspidor de fogo e a mulher barbada enfiara o rosto em suas próprias axilas na busca de consolo. Em meio ao alvoroço se seguiu um momento de silêncio completo, uma corda se desenrolava desde o cume da lona com algo preso em sua ponta. Quando esticou-se por inteiro o pano preto que envolvia a coisa se soltou e dele emergiu um corpo branco e sem vida, com cada uma das mãos presa a uma ponta da corda que se dividia em dois. Notava-se uma protuberância na garganta do morto e algo escrito em seu peito.
De dentro do camarim ouvia-se o início de um som de gaita sendo espalhando pelo ambiente, era a melodia de "Stand by me", o público se levantava e começava a cantar junto, uns sabiam a letra, outros apenas assoviavam. A atmosfera tomava um ar espiritual, pairava uma sintonia orquestrada, como num concerto longamente ensaiado.
Um baque surdo cortou o som, a corda havia rompido, o corpo estava no chão. Os cortes em seu peito formavam a frase "O show tem que continuar!", a boca aberta permitia que se visse a superfície de algo que estufava o pescoço de Pimpão, era um tomate. A plateia sentou, largaram seus tomates no chão e a música recomeçou.
***
- Quer uma água?
- Quero sim. Sem gelo.
Tuiuiu observava o palhaço tomando sua água com o rosto inocente, aquele aspecto infantil e leve dos bobos pintados. Quando o copo ficou vazio, ele disse:
- Desculpa, Pimpão. Mas antes me diga qual a sua maior vontade na vida? O que te faz continuar com esse sorriso e essa alegria de sempre no rosto?
- É o sorriso interno, meu caro. Essa paixão pelo que ainda não aconteceu, pelo que pode acontecer, por essa grande roda de possibilidades. As escolhas são meus instintos de graça. Sem elas eu perco a liberdade e tudo deixa de ser uma palhaçada. Vira concurso público...
Pimpão caía para o lado da cadeira, seus olhos revirados, a língua preta, marcada pelo veneno do arsênico.
Tuiuiu embrulhou o corpo, pôs a máscara no rosto e entrou na caminhonete rumando para o circo. No rádio BB king cantava, O palhaço acompanhava. As lágrimas escorriam pelo rosto e iam parar no banco, dois tomates.
***
A gaita cessou, a cantoria foi perdendo voz e ouviu-se outro grito: "Tuiuiu morreu!!!".
O corpo estava caído pelo camarim, a língua preta e um tomate na boca. Em sua mão um bilhete com apenas uma pequena frase: "It´s show time!".
Daniel de Lima Fraiha
quarta-feira, 20 de maio de 2009
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Esperança
Eu esperava. A esperança sempre brilhou em mim. Faltava-me a paciência. Parada naquela esquina o tempo ia se arrastando, a paciência acabando. Estava sozinha. Para alguns uma opção. Para mim um destino.
Esperava por tanto tempo que já não sabia mais pelo quê. Talvez esperasse um milagre qualquer.
Marco meus encontros ali naquela mesma esquina há um ano. Na esperança de reencontrar o homem que uma vez vi passar. Homem que desejei. Desejei tanto que fiquei olhando esperando que ele me desejasse, quando finalmente ele sorriu para mim não pude esboçar um sorriso. Meu corpo parou, ele apenas me viu boquiaberta, parada, feito estátua com cocô de pombo (feia, branca e suja). Ele não passou novamente. Afinal o que eu pretendia ao vê-lo? Um pedido de casamento? Um novo sorriso, dessa vez retribuído?! O que eu esperava de um completo estranho?
Minha amiga estava atrasada meia hora, eu havia adiantado 15 minutos. Ela sem esperança. Eu esperava demais. Aquela longa espera me levou a observar pela primeira vez o que cercava aquela esquina. No poste havia o aviso: ”Procura-se um amor a primeira vista. Cuidado com o cão.”
Meus olhos se arregalaram. Cão? Aonde? Será feroz? Minha amiga buzinou, corri em direção ao carro cheia de medo. Nem sequer olhei para trás.
Já em casa sozinha é que parei para pensar na primeira frase. Passei dias e horas esperando aquele estranho, mas nada esperava dele se não um sorriso. Enquanto a minha vida estacionava naquela esquina, havia alguém em busca de viver. Eu sempre esperando, aquele estranho procurando. Nunca soube o que exatamente esperava. Mas a vida não iria até mim. Eu deveria ir ao encontro dela. Hoje vivo a procura, ainda não sei de quê. Porém, tenho esperança de encontrar.
Débora Hutz
Esperava por tanto tempo que já não sabia mais pelo quê. Talvez esperasse um milagre qualquer.
Marco meus encontros ali naquela mesma esquina há um ano. Na esperança de reencontrar o homem que uma vez vi passar. Homem que desejei. Desejei tanto que fiquei olhando esperando que ele me desejasse, quando finalmente ele sorriu para mim não pude esboçar um sorriso. Meu corpo parou, ele apenas me viu boquiaberta, parada, feito estátua com cocô de pombo (feia, branca e suja). Ele não passou novamente. Afinal o que eu pretendia ao vê-lo? Um pedido de casamento? Um novo sorriso, dessa vez retribuído?! O que eu esperava de um completo estranho?
Minha amiga estava atrasada meia hora, eu havia adiantado 15 minutos. Ela sem esperança. Eu esperava demais. Aquela longa espera me levou a observar pela primeira vez o que cercava aquela esquina. No poste havia o aviso: ”Procura-se um amor a primeira vista. Cuidado com o cão.”
Meus olhos se arregalaram. Cão? Aonde? Será feroz? Minha amiga buzinou, corri em direção ao carro cheia de medo. Nem sequer olhei para trás.
Já em casa sozinha é que parei para pensar na primeira frase. Passei dias e horas esperando aquele estranho, mas nada esperava dele se não um sorriso. Enquanto a minha vida estacionava naquela esquina, havia alguém em busca de viver. Eu sempre esperando, aquele estranho procurando. Nunca soube o que exatamente esperava. Mas a vida não iria até mim. Eu deveria ir ao encontro dela. Hoje vivo a procura, ainda não sei de quê. Porém, tenho esperança de encontrar.
Débora Hutz
Um metro e vinte, cinco anos
A primeira vez que te vi não me apaixonei por você, nem senti aquela atração fatal que faz meu coração palpitar e meu corpo suar frio, muito menos ansiei pelo seu toque suave e delicado.
A primeira vez que te vi com certeza não era você, era alguém, somente mais um alguém como tantos que encontro no meu dia-a-dia.
Da segunda vez que te vi você me cumprimentou com um oi, e achei que um sorriso meia boca já era o suficiente para agradar aquele ser que retornava ao meu caminho.
Na terceira vez, você me ignorou e foi assim que comecei a sentir vontade de te ver pela quarta vez...
Agora deitada em seu peito e envolta por seus braços sinto o pulsar de suas veias, as batidas de seu coração e finalmente te vejo pela primeira vez.
Fecho os olhos e vejo em minha mente meu cartaz ser retirado do poste.
Encontrei o amor que procurava.
Tomara que ele não acabe.
Mas se acabar, espero não esquecer de adicionar uma informação àquele cartaz que criei em mente como forma de alerta e reforço ao meu tão almejado objetivo. Nesse novo poste agora vai haver o aviso: “procura-se amor a primeira vista. Cuidado com o cão”.
Meu cão, hoje, se chama Joãozinho, tem um metro e vinte, cinco anos e nesse exato momento, como sempre, ta batendo na porta aos berros chamando seu bigbrother querido (como ele mesmo o apelidou carinhosamente) pra apertar a descarga do banheiro, e assim cortando totalmente o clima romântico que havia nessa linda manhã em que acordei aquecida pelo calor dos braços dele e de sua cama. Maldito irmão mais novo. Cadê a porcaria do biscrock pra fazer esse moleque ficar quieto?
Helena Bielinski Carvalho
A primeira vez que te vi com certeza não era você, era alguém, somente mais um alguém como tantos que encontro no meu dia-a-dia.
Da segunda vez que te vi você me cumprimentou com um oi, e achei que um sorriso meia boca já era o suficiente para agradar aquele ser que retornava ao meu caminho.
Na terceira vez, você me ignorou e foi assim que comecei a sentir vontade de te ver pela quarta vez...
Agora deitada em seu peito e envolta por seus braços sinto o pulsar de suas veias, as batidas de seu coração e finalmente te vejo pela primeira vez.
Fecho os olhos e vejo em minha mente meu cartaz ser retirado do poste.
Encontrei o amor que procurava.
Tomara que ele não acabe.
Mas se acabar, espero não esquecer de adicionar uma informação àquele cartaz que criei em mente como forma de alerta e reforço ao meu tão almejado objetivo. Nesse novo poste agora vai haver o aviso: “procura-se amor a primeira vista. Cuidado com o cão”.
Meu cão, hoje, se chama Joãozinho, tem um metro e vinte, cinco anos e nesse exato momento, como sempre, ta batendo na porta aos berros chamando seu bigbrother querido (como ele mesmo o apelidou carinhosamente) pra apertar a descarga do banheiro, e assim cortando totalmente o clima romântico que havia nessa linda manhã em que acordei aquecida pelo calor dos braços dele e de sua cama. Maldito irmão mais novo. Cadê a porcaria do biscrock pra fazer esse moleque ficar quieto?
Helena Bielinski Carvalho
sábado, 16 de maio de 2009
Exatas
Não se pode querer que se cruze do nada
Com alguém que um dia vai chamar de amor
Não existe isso. Amor é premeditado.
Quem tiver um caso em que não pensou
Apenas deixou que o acaso participasse
Que atire a primeira rosa desse encontro
O primeiro movimento involuntário
O primeiro beijo sem querer
Não há um poste com cartazes de ‘Amor à primeira vista’
‘Cuidado com o cão’, ‘Trago a pessoa amada em três dias’...
Eu realmente mudo de calçada
Dou risada desse grande amor que falam existir
É fácil amar assim. É o que mais tem por aí.
O acaso não existe, meninas não são mais inteligentes que meninos
Nem os têm nas mãos, como sempre imaginaram ter
Pare de olhar nos rostos estranhos querendo
Que se revele alguém que já teve
Que quer ter. É mentir pra si mesmo.
Calcule cada passo, cada palavra, cada gesto.
Aí sim, com tudo calculado
Tropece e se deixe ajudar
Esbarre e se deixe desculpar
Converse e se deixe levar
Deixe algo cair
O amor também é uma ciência exata.
Gustavo Lacombe
Com alguém que um dia vai chamar de amor
Não existe isso. Amor é premeditado.
Quem tiver um caso em que não pensou
Apenas deixou que o acaso participasse
Que atire a primeira rosa desse encontro
O primeiro movimento involuntário
O primeiro beijo sem querer
Não há um poste com cartazes de ‘Amor à primeira vista’
‘Cuidado com o cão’, ‘Trago a pessoa amada em três dias’...
Eu realmente mudo de calçada
Dou risada desse grande amor que falam existir
É fácil amar assim. É o que mais tem por aí.
O acaso não existe, meninas não são mais inteligentes que meninos
Nem os têm nas mãos, como sempre imaginaram ter
Pare de olhar nos rostos estranhos querendo
Que se revele alguém que já teve
Que quer ter. É mentir pra si mesmo.
Calcule cada passo, cada palavra, cada gesto.
Aí sim, com tudo calculado
Tropece e se deixe ajudar
Esbarre e se deixe desculpar
Converse e se deixe levar
Deixe algo cair
O amor também é uma ciência exata.
Gustavo Lacombe
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Camembert
Era naquela esquina escura, uma noite nublada e silenciosa, em que ouviam-se apenas os miados dos gatos solitários pelos muros, que havia um aviso no poste: “Procura-se amor a primeira vista. Cuidado com o cão.”, um homem encostara no poste com o violão e tocava uma serenata em direção à janela em frente à banca. Nenhuma luz acesa.
***
- O senhor se considera culpado? - A voz do juiz era imponente, empostado como que uma ordem.
- Não. Me considero um artista. Poucos hão de compreender, meritíssimo, mas a arte da eternidade é algo pra quê o mundo ainda não está preparado. O senhor sabe qual a razão de uma sensação eterna? Não é matemática, jamais! É pura vontade, desejo de um auge doce, viril e sem palavras. Gasta-se o som com palavras demais, quando a respiração já se basta.
- Levem-no.
- Excelentíssimo. Eu avisei, “cuidado com o cão”. Foi um movimento voluntário. - Suas palavras soaram como uma ameaça. Não ao juiz, mas à sua razão, à sua crença no mundo. Talvez o desejo fosse real.
***
A sombra da porta ficou pra trás, desfazendo a silhueta e mostrando o rosto angelical, era uma menina, talvez vinte e um ou vinte e dois anos. Sua postura demonstrava a insegurança com que encarava aquele estranho.
- Entre...
- Obrigado. - A voz escapava, devia ser seu primeiro encontro às escuras. Mas não perdera a oportunidade de balançar a cintura enquanto passava pelo seu admirador.
Ele não sorria, sua expressão era inabalável, não tirava o olhar da janela, a vista para a lagoa lhe hipnotizava por alguns momentos. Entre taças de vinho e camembert a conversa mantinha um tom agradável, os dois iam se sentindo mais íntimos sem se deixar prender por falsos moralismos ou hipocrisias cotidianas.
- Você acredita?
- Em quê?
- Em você?
- Não... nem em ninguém.
- Nos olhos. São a única fonte de alguma coisa, brilham ou não, dizem o que querem, são sutis como esse camembert. Levemente aveludados por fora, cremosos por dentro, com um sabor forte que não se esconde, é sua quase amargura de experiência, sua forma de impor ao mundo o interior que nem todos gostariam de receber. Mas é caríssimo...
Das preliminares foram ao que lhes interessava, o desejo já suprimia qualquer palavra. Os corpos se debatiam em compasso desgovernado, os olhos não mais se mantinham abertos, os maxilares perdiam a força. As pernas dela lhe espremiam a cintura, as mãos lhe apertavam e arranhavam as costas sem qualquer repreensão, sentia a pulsação em todas as partes do corpo, enquanto ela arfava fortemente, numa respiração alta entremeada de gemidos alternados. Sentia o auge do tesão, podia ver no rosto dela que estava prestes ao orgasmo. Enquanto os olhos reviravam, sutilmente passou a mão por debaixo da cama pegando algo que não dava para ver no escuro. Em um segundo ouvia-se um gemido mais alto, ela gozara. Antes que o som pudesse ser emitido por completo, a lâmina cortara-lhe a garganta. O grito mudo. A expressão permanecia.
Ele saiu de cima do corpo, sentou na poltrona virada para a janela e, ainda nu, acendeu um cachimbo. Olhava o semblante dela petrificado, a boca entreaberta quase esboçando um sorriso, seus olhos brilhando intensamente, seu corpo extremamente relaxado, quase uma pintura. Conseguira eternizar o gozo, muito mais belo que a arte dos egípcios, não mumificava, eternizava o desejo irreprimível. O sangue já se espalhara por todo quarto. Só quando tocou seus pés é que se ouviu se urro de prazer. Agora sim chegara ao orgasmo.
Vestiu-se, pegou seu violão e desceu o elevador do prédio. Passando pelo porteiro, antes de sair, lhe perguntou:
- Severino, sabe qual a diferença da paixão pra razão?
- …
- A paixão é infantil, a razão é um velho safado. O meu grande pecado é sofrer desses dois males...
Andou em direção ao poste perto da banca, encostou-se e começou uma serenata em direção à sua janela. Apagada. Só seus olhos brilhavam.
Daniel de Lima Fraiha
***
- O senhor se considera culpado? - A voz do juiz era imponente, empostado como que uma ordem.
- Não. Me considero um artista. Poucos hão de compreender, meritíssimo, mas a arte da eternidade é algo pra quê o mundo ainda não está preparado. O senhor sabe qual a razão de uma sensação eterna? Não é matemática, jamais! É pura vontade, desejo de um auge doce, viril e sem palavras. Gasta-se o som com palavras demais, quando a respiração já se basta.
- Levem-no.
- Excelentíssimo. Eu avisei, “cuidado com o cão”. Foi um movimento voluntário. - Suas palavras soaram como uma ameaça. Não ao juiz, mas à sua razão, à sua crença no mundo. Talvez o desejo fosse real.
***
A sombra da porta ficou pra trás, desfazendo a silhueta e mostrando o rosto angelical, era uma menina, talvez vinte e um ou vinte e dois anos. Sua postura demonstrava a insegurança com que encarava aquele estranho.
- Entre...
- Obrigado. - A voz escapava, devia ser seu primeiro encontro às escuras. Mas não perdera a oportunidade de balançar a cintura enquanto passava pelo seu admirador.
Ele não sorria, sua expressão era inabalável, não tirava o olhar da janela, a vista para a lagoa lhe hipnotizava por alguns momentos. Entre taças de vinho e camembert a conversa mantinha um tom agradável, os dois iam se sentindo mais íntimos sem se deixar prender por falsos moralismos ou hipocrisias cotidianas.
- Você acredita?
- Em quê?
- Em você?
- Não... nem em ninguém.
- Nos olhos. São a única fonte de alguma coisa, brilham ou não, dizem o que querem, são sutis como esse camembert. Levemente aveludados por fora, cremosos por dentro, com um sabor forte que não se esconde, é sua quase amargura de experiência, sua forma de impor ao mundo o interior que nem todos gostariam de receber. Mas é caríssimo...
Das preliminares foram ao que lhes interessava, o desejo já suprimia qualquer palavra. Os corpos se debatiam em compasso desgovernado, os olhos não mais se mantinham abertos, os maxilares perdiam a força. As pernas dela lhe espremiam a cintura, as mãos lhe apertavam e arranhavam as costas sem qualquer repreensão, sentia a pulsação em todas as partes do corpo, enquanto ela arfava fortemente, numa respiração alta entremeada de gemidos alternados. Sentia o auge do tesão, podia ver no rosto dela que estava prestes ao orgasmo. Enquanto os olhos reviravam, sutilmente passou a mão por debaixo da cama pegando algo que não dava para ver no escuro. Em um segundo ouvia-se um gemido mais alto, ela gozara. Antes que o som pudesse ser emitido por completo, a lâmina cortara-lhe a garganta. O grito mudo. A expressão permanecia.
Ele saiu de cima do corpo, sentou na poltrona virada para a janela e, ainda nu, acendeu um cachimbo. Olhava o semblante dela petrificado, a boca entreaberta quase esboçando um sorriso, seus olhos brilhando intensamente, seu corpo extremamente relaxado, quase uma pintura. Conseguira eternizar o gozo, muito mais belo que a arte dos egípcios, não mumificava, eternizava o desejo irreprimível. O sangue já se espalhara por todo quarto. Só quando tocou seus pés é que se ouviu se urro de prazer. Agora sim chegara ao orgasmo.
Vestiu-se, pegou seu violão e desceu o elevador do prédio. Passando pelo porteiro, antes de sair, lhe perguntou:
- Severino, sabe qual a diferença da paixão pra razão?
- …
- A paixão é infantil, a razão é um velho safado. O meu grande pecado é sofrer desses dois males...
Andou em direção ao poste perto da banca, encostou-se e começou uma serenata em direção à sua janela. Apagada. Só seus olhos brilhavam.
Daniel de Lima Fraiha
Aranha Enrugada
Júlio e Púlio. Irmãos. Gêmeos. Vizinhos, companheiros no basquetebol, colegas de trabalho. Dia sim, dia também os dois acordavam na mesma hora, levantavam da cama pelo mesmo lado e tomavam o comunicador nas mãos. Dia sim, dia também. Se eram excêntricos? E não? Mas o comunicador era engenhoso. Uma lata de Sustagem, um fio de barbante puído e uma lata de óleo Lisa na outra ponta. Coisa que criança de dez anos nenhuma era capaz, sequer, de imaginar. Júlio e Púlio. Irmãos. Gêmeos.
O sonho de Júlio sempre foi encontrar uma esposa. Uma esposa que lhe lembrasse sua avó, velha e carcomida, mas com muito amor pra dar. Não é a toa que sua avó era conhecida como Aranha Enrugada nas ruas da parte baixa. Ele era romântico. Púlio não. Púlio era bravo, queria um cachorro. Feroz. Capaz de aniquilar em poucos segundos o filho do vizinho na próxima vez em que o retardado chutasse a maldita bola em seu portão recém pintado. O portão era como um filho para Púlio.
Júlio só comia salsichas temperadas por Púlio que, por sua vez, não comia nada. Ele acreditava que essas coisas industrializadas o faziam mal, artigos naturais para ele eram impregnados de agrotóxicos e não acreditava em orgânicos. Só tolerava a manteiga, e era só de que se alimentava. Dizem que uma vez chegou a quebrar o braço de um amigo lhe apresentou um pote de Qually em sua festa de aniverário de 39 anos. Ao ser questionado sobre o assunto, Púlio só bate o ombro e diz: “Mentira! Ele nem era meu amigo.”.
E numa segunda-feira suas vidas mudariam definitivamente – esse dia é lembrado e comemorado lá até hoje, é feriado na rua inteira, soltam-se balões e cantam-se canções de Agnaldo Rayol. Se encontraram no orelhão a meia distância da casa dos dois. Uniformizados, sapatos lustrados. Júlio usava o cabelo lambido para a direita, Púlio para a esquerda. Júlio sempre esteve mais na moda, era uma coisa dele. Tomaram o ônibus e caíram no sono ao passar pela terceira árvore depois da banca. Júlio acordou assustado, se debatia. Púlio se espantou com o estado do irmão e perguntou o que acontecera. Júlio, sem palavras, apontava os postes que passavam com sua mão molenga. "PROCURA-SE AMOR A PRIMEIRA VISTA. CUIDADO COM O CÃO" , era o que se via escrito em todos os postes da Avenida Tchubaruba. Os olhos de Púlio se encheram de lágrimas, seu queixo caiu e sua língua ficou dura. Teriam eles encontrado tudo que mais procuraram?
Sem pensar duas vezes saltaram do ônibus e correram ao poste mais próximo. Havia um telefone. 3451-8903-4031-1. Pensaram em ligar mas não tinham celular, nunca gostaram desse treco, podia matar se bateria explodisse na hora em que se falava. Será que eles atendiam ligação via fio de barbante puído? Era provável que não. Púlio puxou sua caneta e transcreveu o telefone para a testa de Júlio. Foram até o bar mais próximo para fazer a ligação. Antes, ligaram para o trabalho e se demitiram, aproveitaram para xingar o chefe, o Tatá, crápula. Feito isso se puseram a ligar para o telefone na testa de Júlio. Atenderam!
– Farmácia Dos Gritos, pois não?
– Eu queria saber sobre o cachorro, eu quero falar com o cachorro! - Disse Púlio, histérico.
– Cachorro é o seu pai, seu arrombado!
Júlio, desesperado arrancou o telefone da mão do irmão.
– Eu quero falar com a esposa! Me chama a esposa!
– A esposa é minha e você vai falar com o meu 38 seu filho de uma quenga! Não liguem mais pra cá ou eu mato vocês!
Se olharam, choraram por três minutos e meio. Púlio se agachou, Júlio subiu em sua garupa e se foram. Hoje em dia eles trabalham no bordel de sua avó. Em seus uniformes trazem a figura de uma aranha enrugada. Se são felizes? E não são? Todo ano, naquele dia o bordel fecha, soltam-se balões e cantam-se canções do Agnaldo Rayol. E eles gostam. Menos Júlio. Mas Púlio tá pouco se fudendo pro irmão.
André S.T de Virgiliis
O sonho de Júlio sempre foi encontrar uma esposa. Uma esposa que lhe lembrasse sua avó, velha e carcomida, mas com muito amor pra dar. Não é a toa que sua avó era conhecida como Aranha Enrugada nas ruas da parte baixa. Ele era romântico. Púlio não. Púlio era bravo, queria um cachorro. Feroz. Capaz de aniquilar em poucos segundos o filho do vizinho na próxima vez em que o retardado chutasse a maldita bola em seu portão recém pintado. O portão era como um filho para Púlio.
Júlio só comia salsichas temperadas por Púlio que, por sua vez, não comia nada. Ele acreditava que essas coisas industrializadas o faziam mal, artigos naturais para ele eram impregnados de agrotóxicos e não acreditava em orgânicos. Só tolerava a manteiga, e era só de que se alimentava. Dizem que uma vez chegou a quebrar o braço de um amigo lhe apresentou um pote de Qually em sua festa de aniverário de 39 anos. Ao ser questionado sobre o assunto, Púlio só bate o ombro e diz: “Mentira! Ele nem era meu amigo.”.
E numa segunda-feira suas vidas mudariam definitivamente – esse dia é lembrado e comemorado lá até hoje, é feriado na rua inteira, soltam-se balões e cantam-se canções de Agnaldo Rayol. Se encontraram no orelhão a meia distância da casa dos dois. Uniformizados, sapatos lustrados. Júlio usava o cabelo lambido para a direita, Púlio para a esquerda. Júlio sempre esteve mais na moda, era uma coisa dele. Tomaram o ônibus e caíram no sono ao passar pela terceira árvore depois da banca. Júlio acordou assustado, se debatia. Púlio se espantou com o estado do irmão e perguntou o que acontecera. Júlio, sem palavras, apontava os postes que passavam com sua mão molenga. "PROCURA-SE AMOR A PRIMEIRA VISTA. CUIDADO COM O CÃO" , era o que se via escrito em todos os postes da Avenida Tchubaruba. Os olhos de Púlio se encheram de lágrimas, seu queixo caiu e sua língua ficou dura. Teriam eles encontrado tudo que mais procuraram?
Sem pensar duas vezes saltaram do ônibus e correram ao poste mais próximo. Havia um telefone. 3451-8903-4031-1. Pensaram em ligar mas não tinham celular, nunca gostaram desse treco, podia matar se bateria explodisse na hora em que se falava. Será que eles atendiam ligação via fio de barbante puído? Era provável que não. Púlio puxou sua caneta e transcreveu o telefone para a testa de Júlio. Foram até o bar mais próximo para fazer a ligação. Antes, ligaram para o trabalho e se demitiram, aproveitaram para xingar o chefe, o Tatá, crápula. Feito isso se puseram a ligar para o telefone na testa de Júlio. Atenderam!
– Farmácia Dos Gritos, pois não?
– Eu queria saber sobre o cachorro, eu quero falar com o cachorro! - Disse Púlio, histérico.
– Cachorro é o seu pai, seu arrombado!
Júlio, desesperado arrancou o telefone da mão do irmão.
– Eu quero falar com a esposa! Me chama a esposa!
– A esposa é minha e você vai falar com o meu 38 seu filho de uma quenga! Não liguem mais pra cá ou eu mato vocês!
Se olharam, choraram por três minutos e meio. Púlio se agachou, Júlio subiu em sua garupa e se foram. Hoje em dia eles trabalham no bordel de sua avó. Em seus uniformes trazem a figura de uma aranha enrugada. Se são felizes? E não são? Todo ano, naquele dia o bordel fecha, soltam-se balões e cantam-se canções do Agnaldo Rayol. E eles gostam. Menos Júlio. Mas Púlio tá pouco se fudendo pro irmão.
André S.T de Virgiliis
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Frase da semana: NO POSTE HAVIA O AVISO "PROCURA-SE AMOR A PRIMEIRA VISTA. CUIDADO COM O CÃO".
Vamos ver no que que dá... a primeira semana foi bem interessante, surgiram varios efeitos e até um manifesto. Agora a gente fica mais pelo chão, mas ainda não pousamos totalmente. Acho que semana que vem será mais feliz para os admiradores de pés juntos. Por enquanto, continuemos o passeio.
Vamos ver no que que dá... a primeira semana foi bem interessante, surgiram varios efeitos e até um manifesto. Agora a gente fica mais pelo chão, mas ainda não pousamos totalmente. Acho que semana que vem será mais feliz para os admiradores de pés juntos. Por enquanto, continuemos o passeio.
Sendo franco
A ausência total de idéias, somada ao vácuo de atividades gerado por uma faculdade parcialmente interessante, fizeram com que eu viesse até aqui com somente um objetivo: ser franco. Não que seja a primeira vez, na verdade é uma coisa que adoro, porém hoje chegarei à idea, platonicamente falando, do que é ser franco. Me aprofundarei a tal ponto, que explicarei com fidelidade o meu raciocínio para tal proposta do blog. Antes de prosseguir, peço ao pequeno (talvez nulo) público leitor, que desfruta de minha seqüela, que perdoe a passada e futura metalingüística excessiva presente no texto (sim, foi uma piada idiota).
Ao ler o tema em questão, fiquei com vergonha (isso merece um parágrafo, por isso, rumo ao próximo).
Depois de passar por esse momento de pura introspecção de minh' alma, passei a refletir sobre o que seria feito dentro do contexto Resolvi decompor o meu plano de texto entre as palavras mais importantes da proposta. A que me chamou atenção primeiro foi mostarda. Logo imaginei aqueles sachês de podrão chinês, produzidos provavelmente por um índio escravizado nos confins do Brasil. Em seguida, lembrei do Coronel Mostarda daquele jogo maldito que ninguém achava graça, naquelas viagens chatas da fase pré-alcool da minha vida. Fiquei com vergonha de novo, e dessa vez foi por mim mesmo. Isso me fez passar para a próxima palavra, deixando isso de lado. Capitão é necessariamente insociável com mostarda, o próximo presidente letrado deveria decretar que essas duas palavras são antônimas. Foi então que, em meu momento de revolta e frustração por nenhuma esperança de contribuir com o blog, surge uma luz no breu da minha ignorância. A idéia mais racional que veio a mim, estava justamente na natureza dessa própria idéia: ser racional. Botaria um fim nesse movimento pseudo Dadá que perturbara minha mente nos últimos quarenta minutos e escreveria sobre a minha frustração em não atingir o feito dos últimos três amigos abaixo. É claro, como todo movimento revolucionário, revoltado, com sede de sangue, teria que quebrar com os moldes do modelo anterior. Eis o porque da falta da tão esperada frase nesse documento. O que estou fazendo aqui então? Você imaginou que isso iria chegar a algum lugar? Problema seu, só estou sendo franco.
Lucas Fonseca Djahjah
Ao ler o tema em questão, fiquei com vergonha (isso merece um parágrafo, por isso, rumo ao próximo).
Depois de passar por esse momento de pura introspecção de minh' alma, passei a refletir sobre o que seria feito dentro do contexto Resolvi decompor o meu plano de texto entre as palavras mais importantes da proposta. A que me chamou atenção primeiro foi mostarda. Logo imaginei aqueles sachês de podrão chinês, produzidos provavelmente por um índio escravizado nos confins do Brasil. Em seguida, lembrei do Coronel Mostarda daquele jogo maldito que ninguém achava graça, naquelas viagens chatas da fase pré-alcool da minha vida. Fiquei com vergonha de novo, e dessa vez foi por mim mesmo. Isso me fez passar para a próxima palavra, deixando isso de lado. Capitão é necessariamente insociável com mostarda, o próximo presidente letrado deveria decretar que essas duas palavras são antônimas. Foi então que, em meu momento de revolta e frustração por nenhuma esperança de contribuir com o blog, surge uma luz no breu da minha ignorância. A idéia mais racional que veio a mim, estava justamente na natureza dessa própria idéia: ser racional. Botaria um fim nesse movimento pseudo Dadá que perturbara minha mente nos últimos quarenta minutos e escreveria sobre a minha frustração em não atingir o feito dos últimos três amigos abaixo. É claro, como todo movimento revolucionário, revoltado, com sede de sangue, teria que quebrar com os moldes do modelo anterior. Eis o porque da falta da tão esperada frase nesse documento. O que estou fazendo aqui então? Você imaginou que isso iria chegar a algum lugar? Problema seu, só estou sendo franco.
Lucas Fonseca Djahjah
Nada de uniforme, nada de cabeça erguida, postura ou classe. O capitão daquele navio simplesmente não merecia esse título. Não havia nada de “ão”! Sua imagem se perdia em meio à tripulação e a única coisa que lhe assegurava o posto era o enorme anel dourado que apertava seu dedo indicador.
O capitão era apaixonado por álcool e avestruzes (não necessariamente juntos ou nessa ordem). Considerava a avestruz um animal guerreiro e símbolo de garra e determinação, pois durante a corrida não olha para trás nem desacelera facilmente.
A tripulação já havia se acostumado com a coleção de avestruzes que o capitão levava em todas as viagens. Eram doze aves bem respeitadas, com nomes próprios. Entravam em pares no navio (antes da tripulação), empinadinhas sobre um imenso tapete vermelho. Praticamente uma adaptação exótica da arca de Noé.
Na última viagem de exploração o capitão estava com sorte! O céu estava limpo, a entrada das avestruzes tinha sido emocionante e a tripulação estava animada. Além disso, o motivo da viagem se concretizou: pela primeira vez o capitão encontrou uma ilha realmente inabitada com uma natureza exuberante!
Quando avistou a enorme mancha verde flutuante, sem desviar os olhos, ordenou que a velocidade fosse aumentada imediatamente! Queria navegar como uma avestruz determinada! Quando se deu conta estava com os olhos espremidos e imitava asas com seus braços gorduchos. Imaginou uma vida perfeita correndo com as avestruzes entre as árvores...
O navio finalmente parou. O capitão olhou para a tripulação do navio e gritou em alto brado:
- Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda por todos os canhões já!
- Mostarda, Capitão?
- Sim! Mostarda! Espalhem por todos eles e esperem secar. Vamos inutilizá-los já! Não quero mais canhões... Na verdade, não quero mais saber de navio, nem desse anel! Vou viver aqui com minhas preciosas.
(A cena do capitão chegando com as avestruzes na ilha é tosca demais para ser narrada).
Sarah David de Macedo
O capitão era apaixonado por álcool e avestruzes (não necessariamente juntos ou nessa ordem). Considerava a avestruz um animal guerreiro e símbolo de garra e determinação, pois durante a corrida não olha para trás nem desacelera facilmente.
A tripulação já havia se acostumado com a coleção de avestruzes que o capitão levava em todas as viagens. Eram doze aves bem respeitadas, com nomes próprios. Entravam em pares no navio (antes da tripulação), empinadinhas sobre um imenso tapete vermelho. Praticamente uma adaptação exótica da arca de Noé.
Na última viagem de exploração o capitão estava com sorte! O céu estava limpo, a entrada das avestruzes tinha sido emocionante e a tripulação estava animada. Além disso, o motivo da viagem se concretizou: pela primeira vez o capitão encontrou uma ilha realmente inabitada com uma natureza exuberante!
Quando avistou a enorme mancha verde flutuante, sem desviar os olhos, ordenou que a velocidade fosse aumentada imediatamente! Queria navegar como uma avestruz determinada! Quando se deu conta estava com os olhos espremidos e imitava asas com seus braços gorduchos. Imaginou uma vida perfeita correndo com as avestruzes entre as árvores...
O navio finalmente parou. O capitão olhou para a tripulação do navio e gritou em alto brado:
- Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda por todos os canhões já!
- Mostarda, Capitão?
- Sim! Mostarda! Espalhem por todos eles e esperem secar. Vamos inutilizá-los já! Não quero mais canhões... Na verdade, não quero mais saber de navio, nem desse anel! Vou viver aqui com minhas preciosas.
(A cena do capitão chegando com as avestruzes na ilha é tosca demais para ser narrada).
Sarah David de Macedo
terça-feira, 12 de maio de 2009
A lenda do Octopus Bones
Fazia tempo que os piratas daquele navio eram conhecidos como os principais responsáveis pelo tráfico de avestruzes entre África e Europa. Suas aventuras eram lendárias e suas histórias eram contadas e recontadas pelos Sete Mares. Muitos achavam que o navio apelidado por seus tripulantes de Octopus Bones era “protegido” por algum tipo de maldição que dava a ele o poder de desaparecer em alto-mar. Aparentemente não havia nenhuma outra explicação que não essa, para explicar porque nenhum navio da Marinha conseguia localizar o Octopus ou sequer traçar sua rota de pirataria.
Nada se conhecia sobre o navio pirata, apenas que seu misterioso capitão se chamava Mothersbaugh Crook .O desconhecimento de qualquer informação sobre a embarcação corsária e as incessantes e frustradas ações do Rei e dos outros membros da Monarquia para capturá-la, começou a irritar o almirante da Companhia Inglesa de Comércio que, a partir de certo momento, começou a passar seus dias montando estratégias e emboscadas; e suas noites sonhando com a gloriosa apreensão do navio e quem sabe, a tortura de seus sombrios tripulantes.
Dizem as más línguas que essa cisma do almirante começou bem antes disso, logo que ele ouviu falar sobre os roubos bem sucedidos do capitão Crook e passou a sofrer de certo “complexo de inferioridade”. Não se pode confirmar essa história, mas é o que o povo diz. E a voz povo...
Não importa. O ponto principal da história é que depois de anos e anos montando uma esquadra e fazendo buscas intermináveis, os marinheiros da Companhia, orientados por seu incansável almirante, avistaram o Octopus bones parado em um porto isolado.Dizem que os piratas pararam para comemorar a venda de uma quantidade enorme de avestruzes, e a pilhagem de um navio de médio porte. A vila onde o navio atracou era bem pequena. O lugar era conhecido por suas noites apimentadas e por suas mulheres desinibidas. Ao que parece, as incontáveis doses de bebidas fizeram com que os famosos corsários esquecessem de zarpar.Porém, um pirata que cochilava no píer, ao lado do navio, ouviu um barulho e percebeu a chegada das embarcações inglesas. Alguns botes do navio do almirante já tinham sido lançados ao mar, e navegavam vagarosamente na tentativa de invadir a embarcação pirata.Os piratas, avisados por seu companheiro, voltaram correndo a seus postos. O capitão de maneira preguiçosa e despreocupada ordenou que ativassem os canhões.
Os botes foram bombardeados e pouquíssimos marinheiros conseguiram escapar. Parte do sucesso se deveu às incomuns balas de canhão.Mesmo quando não atingiam um alvo , soltavam uma espécie de gás espesso que se espalhava pelo ar e cegava momentaneamente todos que estavam por perto.O gás tinha uma cor estranha, um cheiro podre. Especulou-se sobre a possibilidade de ser uma arma mágica, mas o almirante, que assistia o massacre de longe, ficou intrigado. Essa passou a ser a nova causa de sua insônia. Que arma nova era essa? Seria o navio realmente protegido por feitiçaria? Magia negra?Será que era impossível destruí-lo?
Semanas se passaram e o almirante ordenou que a tripulação (reforçada com mais homens) ficasse de “tocaia” no porto esperando a volta do lendário Octopus Bones. A maioria de sua equipe reclamou. Não queriam ficar longe de suas famílias ,nem atender as ordens obsessivas e desequilibradas de seu superior. Sem escolha, acataram.
Um mês de espera até que o retorno dos tão esperados inimigos aconteceu. Os tripulantes da Companhia já fatigados, atacaram o navio por todos os lados.Eram muitos.Mais de 300.O almirante foi junto dessa vez.Precisava entrar naquele navio e finalmente, encarar seu oponente. Entretanto, deixou-se levar pela obsessão e se escondeu para tentar descobrir os segredos do navio pirata. Mothersbaugh Crook era astuto, mas não notou seu inimigo se esgueirando, pois nunca imaginara tamanha covardia.
Percebendo que a derrota não seria tão fácil o capitão olhou para a tripulação do navio e ordenou: “Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda pelos canhões já”.
Embora a Marinha desconhecesse esse fato, os próprios piratas treinavam as avestruzes para que fossem vendidas como animais de rinha. Elas cumpriram seu papel e seguiram seu treinamento. Atacaram os marinheiros sem dó.
Os canhões, voltados para os botes ingleses, começaram a lançar suas balas misteriosas. As avestruzes corriam soltas pelo convés, espalhando grande caos entre os combatentes. Assistindo seus comandados morrerem a própria sorte, o almirante arregalou os olhos e se aproximou de um barril a seu lado. Mostarda. Mal podia acreditar no que vira. As palavras de Mothersbaugh ecoavam em sua cabeça. “Espalhem a mostarda”. No mar, corpos de marinheiros, piratas e avestruzes. A batalha havia acabado. Passou o dedo no barril e o levou a boca. “Mostarda”. Genial. “Espalhem a mostarda pelos canhões já!”. O condimento junto com a pólvora formava um gás que cegava os inimigos. O almirante inglês, indiferente ao que se passava, abriu um enorme sorriso de satisfação.Tinha descoberto um dos mistérios do navio inimigo.
Octopus Bones triunfara sobre a Marinha . O mesmo mar que engoliu os destroços da embarcação inglesa, agora guiava o navio pirata ao seu destino desconhecido.
Ninguém sabe o que aconteceu ao enlouquecido almirante. Mas segundo rumores, poucos meses depois se registra a invenção do gás mostarda, em uma cidade portuária da França, por um marinheiro desconhecido, esquelético e maltrapilho.
Maria Clara Senra (com participação de Daniel S.)
Nada se conhecia sobre o navio pirata, apenas que seu misterioso capitão se chamava Mothersbaugh Crook .O desconhecimento de qualquer informação sobre a embarcação corsária e as incessantes e frustradas ações do Rei e dos outros membros da Monarquia para capturá-la, começou a irritar o almirante da Companhia Inglesa de Comércio que, a partir de certo momento, começou a passar seus dias montando estratégias e emboscadas; e suas noites sonhando com a gloriosa apreensão do navio e quem sabe, a tortura de seus sombrios tripulantes.
Dizem as más línguas que essa cisma do almirante começou bem antes disso, logo que ele ouviu falar sobre os roubos bem sucedidos do capitão Crook e passou a sofrer de certo “complexo de inferioridade”. Não se pode confirmar essa história, mas é o que o povo diz. E a voz povo...
Não importa. O ponto principal da história é que depois de anos e anos montando uma esquadra e fazendo buscas intermináveis, os marinheiros da Companhia, orientados por seu incansável almirante, avistaram o Octopus bones parado em um porto isolado.Dizem que os piratas pararam para comemorar a venda de uma quantidade enorme de avestruzes, e a pilhagem de um navio de médio porte. A vila onde o navio atracou era bem pequena. O lugar era conhecido por suas noites apimentadas e por suas mulheres desinibidas. Ao que parece, as incontáveis doses de bebidas fizeram com que os famosos corsários esquecessem de zarpar.Porém, um pirata que cochilava no píer, ao lado do navio, ouviu um barulho e percebeu a chegada das embarcações inglesas. Alguns botes do navio do almirante já tinham sido lançados ao mar, e navegavam vagarosamente na tentativa de invadir a embarcação pirata.Os piratas, avisados por seu companheiro, voltaram correndo a seus postos. O capitão de maneira preguiçosa e despreocupada ordenou que ativassem os canhões.
Os botes foram bombardeados e pouquíssimos marinheiros conseguiram escapar. Parte do sucesso se deveu às incomuns balas de canhão.Mesmo quando não atingiam um alvo , soltavam uma espécie de gás espesso que se espalhava pelo ar e cegava momentaneamente todos que estavam por perto.O gás tinha uma cor estranha, um cheiro podre. Especulou-se sobre a possibilidade de ser uma arma mágica, mas o almirante, que assistia o massacre de longe, ficou intrigado. Essa passou a ser a nova causa de sua insônia. Que arma nova era essa? Seria o navio realmente protegido por feitiçaria? Magia negra?Será que era impossível destruí-lo?
Semanas se passaram e o almirante ordenou que a tripulação (reforçada com mais homens) ficasse de “tocaia” no porto esperando a volta do lendário Octopus Bones. A maioria de sua equipe reclamou. Não queriam ficar longe de suas famílias ,nem atender as ordens obsessivas e desequilibradas de seu superior. Sem escolha, acataram.
Um mês de espera até que o retorno dos tão esperados inimigos aconteceu. Os tripulantes da Companhia já fatigados, atacaram o navio por todos os lados.Eram muitos.Mais de 300.O almirante foi junto dessa vez.Precisava entrar naquele navio e finalmente, encarar seu oponente. Entretanto, deixou-se levar pela obsessão e se escondeu para tentar descobrir os segredos do navio pirata. Mothersbaugh Crook era astuto, mas não notou seu inimigo se esgueirando, pois nunca imaginara tamanha covardia.
Percebendo que a derrota não seria tão fácil o capitão olhou para a tripulação do navio e ordenou: “Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda pelos canhões já”.
Embora a Marinha desconhecesse esse fato, os próprios piratas treinavam as avestruzes para que fossem vendidas como animais de rinha. Elas cumpriram seu papel e seguiram seu treinamento. Atacaram os marinheiros sem dó.
Os canhões, voltados para os botes ingleses, começaram a lançar suas balas misteriosas. As avestruzes corriam soltas pelo convés, espalhando grande caos entre os combatentes. Assistindo seus comandados morrerem a própria sorte, o almirante arregalou os olhos e se aproximou de um barril a seu lado. Mostarda. Mal podia acreditar no que vira. As palavras de Mothersbaugh ecoavam em sua cabeça. “Espalhem a mostarda”. No mar, corpos de marinheiros, piratas e avestruzes. A batalha havia acabado. Passou o dedo no barril e o levou a boca. “Mostarda”. Genial. “Espalhem a mostarda pelos canhões já!”. O condimento junto com a pólvora formava um gás que cegava os inimigos. O almirante inglês, indiferente ao que se passava, abriu um enorme sorriso de satisfação.Tinha descoberto um dos mistérios do navio inimigo.
Octopus Bones triunfara sobre a Marinha . O mesmo mar que engoliu os destroços da embarcação inglesa, agora guiava o navio pirata ao seu destino desconhecido.
Ninguém sabe o que aconteceu ao enlouquecido almirante. Mas segundo rumores, poucos meses depois se registra a invenção do gás mostarda, em uma cidade portuária da França, por um marinheiro desconhecido, esquelético e maltrapilho.
Maria Clara Senra (com participação de Daniel S.)
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Mostarda Alemã
Meio que de repente, de dentro de um arbusto, saltou um avestruz do tamanho de um coqueiro anão, gritando a língua das avestruzes, que só elas próprias e as crianças entendem, e fazendo um rebuliço, que não fosse pelos gambitinhos rosas, poderia ser uma paródia do lago dos cisnes.
Olha mamãe, parece com você! - Disse inocentemente o pequeno que se agitava de animação com a descoberta de um novo mundo.
A mãe, tadinha, parecia mesmo... e como era de se esperar, esmurrou seu filho sem pestanejar, mas não imaginava o que lhe cabia logo após. A cena que se seguiu jamais poderia ser esquecida. Com um giro magistral e desenhado, a avestruz (já havia-se descoberto que era fêmea) tascou uma bicada lacônica na jugular da madame mamãe, sem lhe dar chance de vida para contar história. O menino passou a ser criado pela avestruz, que sempre se ocupou da melhor forma em criá-lo bem. Cresceu tendo bons estudos, sempre muito ligado à família, era o único na face da terra capaz de se comunicar com as avestruzes (sem contar as crianças, claro. Mas estas depois esqueciam e achavam que tudo não passara de ilusão e inocência infantil). Os almoços de fim de semana eram regados a frango à passarinho, especialidade da classe que tinha orgulho de dizer que não provinha dos galináceos, apesar de algumas controvérsias.
Com o tempo, o garoto foi se tornando bem sucedido em seus negócios e ganhando respeito no mercado de ovos. Sua família produzia e ele os comerciava. Um ovo de avestruz não saia por menos de dez moedas de prata. E o de sua linhagem girava em torno de vinte, tamanha era a qualidade de sua clara. O garoto que virara comerciante se deparava com um mundo de possibilidades, até certo dia... quando conheceu uma garota, humana. Seria a primeira de sua vida. Sua família não foi tão condescendente quanto ele esperava. Não aceitavam de jeito nenhum aquela gente que fedia a colônia de terceira, aquela espécie que cismavam em criar cabelos distintos, cada vez mais se assemelhando a catatuas e calopsitas, inimigas mortais das avestruzes. Não, tudo menos isso, uma humana jamais. O que havia de errado na capivara que haviam lhe apresentado verão passado, todos acharam que os dias que passaram juntos à beira do rio tinham lhe marcado...
O Homem entrou em surto, gastou todas suas finanças em um navio e levou sua família toda para uma viagem pelos sete mares. Seria ele o capitão e a mulher, que se chamava Marilu, seria sua concubina. Quando souberam o nome da humana o rebuliço foi maior ainda, não aguentariam muito tempo vendo Marilu botando ovos pela cloaca. Ah, quase esquecia, ela era humana, mas possuía essa peculiaridade, sua qualidade de mamífero havia sido transmutada e, após um consumo exagerado de transgênicos, começara a pôr ovos.
Depois de um mês e meio no navio, todos mareados e já meio desbotados pelo sol, a desordem reinava, todos se odiavam e, a cada parada, havia novas reclamações da comida que ele trazia para dentro do flutuante. Depois de todo esse imbróglio familiar e amoroso, Marilu dava sinais de que sua cloaca estava fraquejando, ameaçava a começar a colocar ovos pelo …
Não! Isso nunca! - gritou o capitão – Ela é uma mulher de respeito, vem de uma família fina!- Foi então que ordenou em alto brado – Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda pelos canhões já! - Era uma receita antiga que sua família lhe ensinara para fortificar os ovos, mostarda espalhada em objetos bélicos.
Não só Marilu ficou encarregada de limpar os canhões até se sentir saciada, a família inteira aproveitara para encher um pouco o pandulho e se deliciar com o famoso “canon à la moutarde” que não era feito desde que vovó Bolena perdera a cabeça. Ao final da orgia gastronômica todos haviam caído para os lados, semi-mortos, restando apenas o capitão em pé e saudável. Seu espanto e pavor eram imedidos, seu semblante agora lembrava algo entre um pinguim e um rinoceronte no cio. Conseguia distinguir um único movimento no meio do pré-cemitério, era sua mãe que apontava para o livro de receitas e sibilava em tom derradeiro, apontando para a sessão “venenos”, ”Era mostarda alemã...”.
Daniel de Lima Fraiha
Olha mamãe, parece com você! - Disse inocentemente o pequeno que se agitava de animação com a descoberta de um novo mundo.
A mãe, tadinha, parecia mesmo... e como era de se esperar, esmurrou seu filho sem pestanejar, mas não imaginava o que lhe cabia logo após. A cena que se seguiu jamais poderia ser esquecida. Com um giro magistral e desenhado, a avestruz (já havia-se descoberto que era fêmea) tascou uma bicada lacônica na jugular da madame mamãe, sem lhe dar chance de vida para contar história. O menino passou a ser criado pela avestruz, que sempre se ocupou da melhor forma em criá-lo bem. Cresceu tendo bons estudos, sempre muito ligado à família, era o único na face da terra capaz de se comunicar com as avestruzes (sem contar as crianças, claro. Mas estas depois esqueciam e achavam que tudo não passara de ilusão e inocência infantil). Os almoços de fim de semana eram regados a frango à passarinho, especialidade da classe que tinha orgulho de dizer que não provinha dos galináceos, apesar de algumas controvérsias.
Com o tempo, o garoto foi se tornando bem sucedido em seus negócios e ganhando respeito no mercado de ovos. Sua família produzia e ele os comerciava. Um ovo de avestruz não saia por menos de dez moedas de prata. E o de sua linhagem girava em torno de vinte, tamanha era a qualidade de sua clara. O garoto que virara comerciante se deparava com um mundo de possibilidades, até certo dia... quando conheceu uma garota, humana. Seria a primeira de sua vida. Sua família não foi tão condescendente quanto ele esperava. Não aceitavam de jeito nenhum aquela gente que fedia a colônia de terceira, aquela espécie que cismavam em criar cabelos distintos, cada vez mais se assemelhando a catatuas e calopsitas, inimigas mortais das avestruzes. Não, tudo menos isso, uma humana jamais. O que havia de errado na capivara que haviam lhe apresentado verão passado, todos acharam que os dias que passaram juntos à beira do rio tinham lhe marcado...
O Homem entrou em surto, gastou todas suas finanças em um navio e levou sua família toda para uma viagem pelos sete mares. Seria ele o capitão e a mulher, que se chamava Marilu, seria sua concubina. Quando souberam o nome da humana o rebuliço foi maior ainda, não aguentariam muito tempo vendo Marilu botando ovos pela cloaca. Ah, quase esquecia, ela era humana, mas possuía essa peculiaridade, sua qualidade de mamífero havia sido transmutada e, após um consumo exagerado de transgênicos, começara a pôr ovos.
Depois de um mês e meio no navio, todos mareados e já meio desbotados pelo sol, a desordem reinava, todos se odiavam e, a cada parada, havia novas reclamações da comida que ele trazia para dentro do flutuante. Depois de todo esse imbróglio familiar e amoroso, Marilu dava sinais de que sua cloaca estava fraquejando, ameaçava a começar a colocar ovos pelo …
Não! Isso nunca! - gritou o capitão – Ela é uma mulher de respeito, vem de uma família fina!- Foi então que ordenou em alto brado – Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda pelos canhões já! - Era uma receita antiga que sua família lhe ensinara para fortificar os ovos, mostarda espalhada em objetos bélicos.
Não só Marilu ficou encarregada de limpar os canhões até se sentir saciada, a família inteira aproveitara para encher um pouco o pandulho e se deliciar com o famoso “canon à la moutarde” que não era feito desde que vovó Bolena perdera a cabeça. Ao final da orgia gastronômica todos haviam caído para os lados, semi-mortos, restando apenas o capitão em pé e saudável. Seu espanto e pavor eram imedidos, seu semblante agora lembrava algo entre um pinguim e um rinoceronte no cio. Conseguia distinguir um único movimento no meio do pré-cemitério, era sua mãe que apontava para o livro de receitas e sibilava em tom derradeiro, apontando para a sessão “venenos”, ”Era mostarda alemã...”.
Daniel de Lima Fraiha
Pois é...
“Pois é...”. Será que existe expressão alguma que signifique tanto? Acho que não. “Pois é” para uma concordância, “pois é” para um fato triste, “pois é” para a mudança na ordem de coisas que se sucedem, para uma vicissitude. A quebra na rotina diz mais do que deixar de fazer algo antes feito ou passar a fazer novidades, ela mostra a imprevisibilidade e a surpresa pelas quais as atitudes viris do “eu” podem passar. Tratam-se da aceitação e execução das vontades que o interior de cada um, constantemente, esconde. Etiqueta, postura, modos, exemplo de boa educação – a meu ver, altamente relativo - : não sou contra a criação de tais fatores e/ou invenções que regem a convivência, no entanto desvirtuo o meu pensamento e canalizo meus esforços para a flexibilidade, para a coerência em ser incoerente e para a moderada desordem, fator sem o qual fatos e fenômenos brilhantes e precisamente bem organizados não aconteceriam. – Tem noção, por exemplo, de qual é a ordem de grandeza relacionada às sinapses nervosas que ocorrem em, praticamente, meia dúzia de milissegundos para que haja um simples movimento muscular? Vai dizer-me que a troca de substâncias e componentes entre os milhões de neurônios nesse ‘significativo’ intervalo de tempo é algo considerado organizado? E o resultado? A movimentação não é algo espetacular?!–
Pois é... Aceita ou não, a explosão de sentimentos por uma vida, temporalmente falando, guardada há de acontecer, há de querer acontecer... AHHHHHHHHHH! Pronto, aconteceu. Gritei. Coisa que, há mais de meia hora, queria fazer, mas não podia pelo simples fato de a secretária do lar de minha casa estar presente e, portanto, possivelmente passar a ter medo de minha pessoa. Não me importo se ela me acha maluco, mas é que gosto da amizade dela.
Em se tratando dessas coisas controladas pelo lóbulo pré-frontal do cérebro – leiam-se: emoções -, existe uma estória de um feito pirata que se adequa bem a esse descontrole (ou seria ‘melhor controle’?) em que a explosão de sentimentos se baseia. Nunca é demais alongarmos os pensamentos a mais um ponto, reunindo, portanto, intelectualmente, os diferentes pontos de vista que a vida pode mostrar e aprendendo como é importante o respeito pelo gosto daquilo que é diferente. Dessa forma...
Era um dia de sol, logo depois de uma semana conturbada oriunda da então aparente batalha incessante entre duas linhagens piratas. O navio dos piratas vencedores encontrava-se em festa, farto de comidas, metais preciosos, e com uma parada já marcada às 12:00, no porto de Saint Louis, Inglaterra. A intenção de atracar-se no porto inglês era objetiva: encher a nau de prostitutas para a satisfação geral da tripulação. Após um dia de constante orgia entre a proa e a popa do navio, passando por seu interior e pelos lugares mais inóspitos, o comandante, largando a postura que a ele era conveniente apenas por seu cargo, levantou, apenas de ciroulas, e convidou que não só a tripulação pirata, bem como as madamas que vendiam seus corpos ao sabor da maré, fizessem algo por ele sempre sonhado. Não querendo machucar os animais presentes na embarcação por conta da exorbitante quantidade alimentícia presente, "O capitão olhou para a tripulação do navio e ordenou em alto brado, "Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda por todos os canhões já!". Foi então que os brutos rapazes, as moças e o comandante começaram, como se fossem crianças, uma brincadeira que lhes rendera gargalhadas como há anos não era possível. Uns sujavam aos outros. As mulheres não mais se sentiam na obrigação de terminar um trabalho a elas designado, mas sim de aproveitar um momento tão agradável, porém, moralmente, vilipendiado.
“Pois é...” aos preceitos morais. “Pois é” à felicidade sem fim. Será que existe expressão alguma que signifique tanto?
Felipe Reis
Pois é... Aceita ou não, a explosão de sentimentos por uma vida, temporalmente falando, guardada há de acontecer, há de querer acontecer... AHHHHHHHHHH! Pronto, aconteceu. Gritei. Coisa que, há mais de meia hora, queria fazer, mas não podia pelo simples fato de a secretária do lar de minha casa estar presente e, portanto, possivelmente passar a ter medo de minha pessoa. Não me importo se ela me acha maluco, mas é que gosto da amizade dela.
Em se tratando dessas coisas controladas pelo lóbulo pré-frontal do cérebro – leiam-se: emoções -, existe uma estória de um feito pirata que se adequa bem a esse descontrole (ou seria ‘melhor controle’?) em que a explosão de sentimentos se baseia. Nunca é demais alongarmos os pensamentos a mais um ponto, reunindo, portanto, intelectualmente, os diferentes pontos de vista que a vida pode mostrar e aprendendo como é importante o respeito pelo gosto daquilo que é diferente. Dessa forma...
Era um dia de sol, logo depois de uma semana conturbada oriunda da então aparente batalha incessante entre duas linhagens piratas. O navio dos piratas vencedores encontrava-se em festa, farto de comidas, metais preciosos, e com uma parada já marcada às 12:00, no porto de Saint Louis, Inglaterra. A intenção de atracar-se no porto inglês era objetiva: encher a nau de prostitutas para a satisfação geral da tripulação. Após um dia de constante orgia entre a proa e a popa do navio, passando por seu interior e pelos lugares mais inóspitos, o comandante, largando a postura que a ele era conveniente apenas por seu cargo, levantou, apenas de ciroulas, e convidou que não só a tripulação pirata, bem como as madamas que vendiam seus corpos ao sabor da maré, fizessem algo por ele sempre sonhado. Não querendo machucar os animais presentes na embarcação por conta da exorbitante quantidade alimentícia presente, "O capitão olhou para a tripulação do navio e ordenou em alto brado, "Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda por todos os canhões já!". Foi então que os brutos rapazes, as moças e o comandante começaram, como se fossem crianças, uma brincadeira que lhes rendera gargalhadas como há anos não era possível. Uns sujavam aos outros. As mulheres não mais se sentiam na obrigação de terminar um trabalho a elas designado, mas sim de aproveitar um momento tão agradável, porém, moralmente, vilipendiado.
“Pois é...” aos preceitos morais. “Pois é” à felicidade sem fim. Será que existe expressão alguma que signifique tanto?
Felipe Reis
terça-feira, 5 de maio de 2009
"O capitão olhou para a tripulação do navio e ordenou em alto brado, "Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda por todos os canhões já!"
Esse é o início de algo que talvez venha a se tornar coisa nenhuma. pois bem, a cada semana haverá um tema ou uma frase para que nós, grilos, galos e outros animais vis, usemos como parte de algum texto que escreveremos. Dedicamos a ninguém, que provavelmente será nosso leitor mais assíduo.
a primeira frase já está no título.
a primeira frase já está no título.
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